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Human Flow: Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o documentário de Ai Weiwei!

Human Flow: Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir | Crítica

Human Flow: Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir (Human Flow)

Ano: 2017

Direção: Ai Weiwei

Roteiro: Chin-Chin Yap, Tim Finch, Boris Cheshirkov

O cinema é, quase sempre, um ótimo retrato de sua época. Mesmo quando se trata essencialmente de ficção, podemos perceber estilos visuais, tecnologias, pensamentos dominantes e tendências comportamentais presentes em suas histórias. Quando falamos de documentários, isso fica ainda mais evidente. Os temas de interesse dos documentaristas tendem a ser assuntos que os tocam, interessam ou incomodam naquele momento específico da vida. E poucas coisas no mundo hoje estão mais em evidência do que a questão dos refugiados. É um problema global, causado pelos mais variados motivos, e do qual todos nós já sentimos ou sentiremos as consequências no futuro.

O diretor chinês Ai Weiwei passou um ano acompanhando a situação de refugiados em 23 países de 4 continentes: Europa, Ásia, África e América. Nestes lugares, acompanhou a chegada dos migrantes, as tentativas de cruzar ilegalmente algumas fronteiras, a ação das autoridades e os dramas pessoais de incontáveis homens, mulheres e crianças. Migrantes estes que precisaram abandonar seus lares por motivos políticos, religiosos ou econômicos, sempre como uma medida desesperada, a ponto de arriscar recomeçar a vida do zero, pois era uma opção mais segura do que seguir onde estavam. 

Human Flow choca por nos fazer imergir profundamente na vida daquelas pessoas. O documentário de 2h 20 min de duração tem pouquíssimos trechos narrados, poucos textos explicativos, e também não se baseia muito em depoimentos individuais, apesar de utilizá-los com alguma frequência. Na maior parte do tempo, vemos apenas o registro do que o diretor presenciou. Às vezes parado, à distância, outras com a  câmera na mão acompanhando alguma situação ou movimentação das pessoas com as quais conviveu em cada campo de refugiados, acampamento, ou fronteira fechada, que surgia como mais um obstáculo na já dura e sofrida jornada daquelas pessoas.

E não são poucos os obstáculos. Não são poucos os sofrimentos. Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo não havia passado por nada parecido em termos de número de pessoas que precisaram deixar seus lares e seus países. Naquele momento da história, foram criados mecanismos e leis para atender aos refugiados, o que garantiu um tratamento que, se não resolvia, pelo menos amenizava o sofrimento deles. No entanto, agora que a crise se dá em países pobres, as regras não valem da mesma forma que valeram para os europeus. Países constroem muros, levantam cercas de arames farpados, expulsam estrangeiros de suas terras, separam famílias e deixam pessoas vivendo em situações sub humanas.

Ai Weiwei nos mostra tudo isso de maneira crua e sem floreios. Assistimos conversas onde são citados barcos lotados de refugiados que jamais chegaram ao seu destino. Vemos pessoas passando frio, fome, recebendo notícias que as desesperam. Há depoimentos de quem perdeu diversos membros da família, e de mulheres dando à luz nos navios de resgate. E, naquela que é a imagem mais forte do filme, uma criança morta no chão, sem partes do corpo, enquanto tropas ao fundo simplesmente seguem seu caminho. A banalização da vida. A banalização da morte. Algo que só é possível quando percebemos que, para quem dita as regras, algumas vidas valem muito mais do que outras. Lembra muito o que vemos no nosso país, onde a morte de jovens da periferia é algo visto como costumeiro e entra apenas para as estatísticas, ao contrário da comoção gerada por casos semelhantes ocorridos nas classes mais favorecidas.

Existem breves momentos de alívio e esperança ao ver a dedicação de voluntários e até de alguns governos, principalmente da Grécia e Alemanha, em buscar atender o maior número possível de migrantes de maneira digna. Isso só torna ainda mais revoltante quando nos deparamos com países que, além de não receberem os refugiados, constroem barreiras físicas que os impedem de acessar os locais que os abrigariam, não servindo sequer como rota de passagem naquela árdua e desgastante jornada, que parece não ter fim.

Apesar de muito claro em sua mensagem e de fazer isso com competência, creio que o filme pecou um pouco em apresentar o aspecto que talvez seja o mais relevante de todos: o que causou isso? E mais: como poderia ser diferente? Ao falar apenas superficialmente sobre os responsáveis por fazer com que milhões de pessoas precisassem fugir de seus lares simplesmente para poderem sobreviver, Ai Weiwei deixou de trazer à tona uma discussão fundamental, que diz respeito ao impacto das políticas internacionais dos países mais ricos em relação àqueles em desenvolvimento.

No final das contas, Human Flow é muito mais eficiente no seu lado humano, de provocar uma reflexão sobre o poder de superação diante de adversidades, do que na discussão que surge com maior urgência: como ajudar aquelas pessoas? Como resolver esta crise sem precedentes? São perguntas que certamente não teriam respostas definitivas, mas sem dúvida devem e merecem ser mais discutidas. Não é possível que se aceite, com tamanha naturalidade, que literalmente milhões de pessoas fiquem abandonadas à sua própria sorte, enquanto governantes do mundo inteiro simplesmente fecham as portas para eles. Ou pior: fecham os olhos.

Nota do crítico:

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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