Bode na Sala
Artigos Filmes

O dia em que entrevistei Juan José Campanella

O diretor de O Segredo dos Seus Olhos concedeu uma entrevista exclusiva ao Bode na Sala!

O dia em que entrevistei Juan José Campanella

Morando na Argentina desde junho, pude me aprofundar mais no mundo do cinema dos hermanos, fazendo alguns bons cursos na área e conhecendo alguns profissionais do setor. Além disso, muitas distribuidoras abriram suas cabines de imprensa para mim, um brasileiro que escreve para um site brasileiro, mostrando que a hospitalidade castelhana é grande – ao contrário das lendas que cansamos de ouvir. Com uma valorização imensa à cultura audiovisual, os nossos vizinhos são bem patriotas, do futebol ao cinema, torcendo e vibrando por ambos com a mesma emoção e devoção. Parece exagero, mas não é.

Era 25 de outubro e uma publicação patrocinada do Governo de Buenos Aires apareceu na minha timeline do Facebook. Nela, dizia que em dois dias aconteceria um encontro sobre cinema, com a presença de Juan José Campanella, diretor do oscarizado O Segredo dos Seus Olhos e que, atualmente, está em Hollywood, trabalhando na série Colony. Como era gratuito, me interessei e confirmei a minha participação. Não que não valesse a pena pagar para ouvir o cineasta, mas quando é de graça, a experiência fica ainda melhor, né?

Então, no encontro, era certo que eu iria. Mas, e se rolasse uma entrevista com o homem? Imagina! Seria, no mínimo, espetacular – profissional e pessoalmente.

Campanella com Ricardo Darín e Soledad Villamil no set de O Segredo dos Seus Olhos

Certo, mas como fazer isso? Na minha cabeça, chegaria ao evento, esperaria a hora de terminar e correria para tentar falar com o Campanella na saída. “Vai ser difícil, mas a tenteada é livre”, pensei.

Sendo assim, comecei a pensar nas possíveis perguntas, mesmo sem muita esperança de que a tal entrevista fosse realmente acontecer. Na quinta-feira, 26, enquanto passeava com o meu cachorro, recebo o telefonema de um assessor do evento, querendo saber se eu realmente iria comparecer. Disse que sim, obviamente. E já emendei: “Olha só, sou um jornalista brasileiro e tenho um site sobre cinema, existe alguma possibilidade de entrevistar o Campanella no dia do evento?”

O rapaz disse que não era da responsabilidade dele essa solicitação, mas sugeriu que eu chegasse mais cedo e, então, procurasse alguém da comunicação, para ver como realizar a entrevista. Me empolguei. Nem anotei o nome do cidadão. Dei tchau e saí pensando em como faria isso, já que parecia haver uma possibilidade – apesar de pequena.

Assim, pedi para a também jornalista Kyane Sutelo me acompanhar no dia do evento, por ter um espanhol melhor que o meu – e uma cara de pau de dar inveja. Então, elaborei as perguntas para fazer ao homem, com boas colaborações dos demais membros do Bode na Sala.

Chegou o dia. Carreguei a bateria da câmera. Esvaziei o cartão de memória. Testei. Tudo certo. Baixei um bom gravador de voz no celular. Testei também. Perfeito. Dei mais uma revisada nas perguntas. Davam para o gasto. Tomei um banho. Pegamos um táxi. Fomos para o encontro.

Chegando lá, quase uma hora antes, como o sugerido pelo homem sem nome do telefone, eu e a Kyane nos deparamos com uma impressionante fila na calçada. Sim, várias pessoas já esperavam para participar da conversa com Campanella, uma hora antes do evento. “Tudo certo. Somos imprensa, vamos passar direto”, pensei. Só pensei.

O buraco era mais embaixo. Eu já tinha ouvido falar que, na Argentina, Campanella é tido como um grande ídolo. E, com a fila quilométrica que se formava em frente ao local do evento, vi que isso não era um exagero.

Tentamos explicar a situação para o guarda. Não adiantou. Ele afirmava que ninguém da equipe do diretor estava ali ainda. Então, fomos para a fila. Sem entrevista, pelo menos veríamos o encontro. Alguns minutos depois, a Kyane me deixou guardando o nosso lugar e foi lá falar com uma galera nervosa, que andava de um lado para o outro no pátio de onde se daria o evento. Pareciam ser da coordenação. E eram mesmo.

Depois de um bom tempo de diálogo com aquele pessoal, ela volta para a fila. Não sabíamos se falaríamos com o homem. A equipe não deu certeza de nada. Disseram para procurarmos por eles no fim do evento. Ficamos esperando. Abriram os portões. Entramos.

No salão de atos, conseguimos driblar aquela multidão que se debatia na porta. Sentamos na primeira fila. O evento, marcado para às 18h15, começou somente por volta das 18h45. O espaço estava abarrotado de pessoas, que se escoravam nos cantos, se ajeitavam pelo chão, se apertavam para conseguir um bom ângulo para ver o diretor.

Quando Campanella surgiu, um ensurdecedor som de palmas entusiasmadas e gritos vibrantes tomaram conta do espaço. O teatro era como um estádio de futebol. E o diretor, que caminhava em direção ao palco, era como Messi driblando os seus adversários em um jogo da Argentina, levando a arquibancada ao delírio.

Ele e mais dois políticos argentinos, que proporcionaram o encontro, se sentaram nas três cadeiras dispostas no palco. No telão, que ficava atrás deles, cenas dos filmes do diretor passavam randomicamente. Ricardo Darín, a todo momento, surgia ali, refletindo as parcerias de sucesso entre os dois maiores nomes do cinema argentino da atualidade.

O mestre de cerimônia apresentou os três integrantes do evento. E, sem delongas, todos que estavam presentes cederam a palavra para a estrela da noite. Estavam cientes da importância da figura ali presente. O apresentador do encontro faz algumas perguntas pertinentes a Campanella, que demonstrava uma grande desenvoltura nas respostas e dominava a arte de contagiar aquela multidão que ali estava.

Entre variados assuntos, o diretor argumentou sobre como a internet mudou a forma de consumirmos conteúdo audiovisual, a crescente qualidade da televisão e a burocracia para se fazer cinema nos dias de hoje. Quando o microfone foi aberto para a plateia, que era formada por uma grande quantidade de estudantes e cineastas argentinos, muitas mãos foram jogadas ao ar, querendo o seu momento “a sós” com o diretor.

Um jovem sentado na terceira fileira do auditório perguntou para Campanella o que ele pensava da palavra “perseverança”. Então, o cineasta soltou a seguinte frase: “Muitas pessoas já se deram bem sem talento, mas, sem perseverar, nenhuma”. A plateia, obviamente, foi ao delírio. E assim foi durante toda a participação do diretor. A cada piada, palmas. A cada história, palmas. As pessoas aplaudiam o momento, só pelo fato de estarem vendo o seu ídolo ali, a poucos metros. Algo impressionante.

Sentado mais para o fundo do auditório, um outro jovem contou que já tinha feito alguns curtas, mas que nunca havia tido o reconhecimento que desejava. Campanella, então, perguntou qual era a idade do rapaz. Ao ouvir “19 anos”, o diretor logo respondeu: “Trocaria todos os meus filmes pelos seus 19 anos. Comecei a estudar cinema com essa idade e só pude viver disso aos 42. Mesmo assim, faria tudo isso de novo”, disse o diretor, hoje com 58 anos.

Se aproximando do fim do encontro, eu e a Kyane resolvemos sair dos nossos lugares e irmos encontrar a equipe que organizava o evento, para ver se conseguiríamos a tal entrevista. Após alguns “fala com fulano” e “pergunta para o cicrano”, achamos aquele que realmente poderia resolver a questão – positiva ou negativamente. O big boss, que era bem jovem para o seu cargo, andava no pátio, de um lado para o outro, fazendo aqueles típicos telefonemas de gente importante.

Ao se desocupar, veio falar com a gente. Contamos toda a história. Ele pediu para aguardamos. Depois de sumir nos bastidores, ele volta. Veio nos buscar. No caminho, ele conta que vai nos levar até a saída do palco e é ali que teremos que “pegar” o Campanella. Se o diretor estiver disposto a dar a entrevista, ok. Se não estiver, bom, pelo menos teríamos visto esse “herói argentino” de perto.

Ele nos leva até uma salinha mal iluminada e feia, bem diferente da estrutura em que o evento estava acontecendo. A saída do palco era ali. Aquele teria que ser o cenário da entrevista. Para fazer algo em vídeo, com aquela luz e aquele ambiente, seria um belo de um problema. “Ok, não importa. Falando com o diretor era a conta”.

Quando se aproximava do fim do encontro, o chefão do evento nos sugere fazer uma, no máximo duas questões a Campanella. Se ele não quisesse parar, que saíssemos andando atrás dele e fizéssemos as perguntas assim. O evento termina. O diretor surge na salinha, rodeado por uma gangue de assessores e jornalistas. O rapaz que havia nos levado até ali comenta com o cineasta que queríamos conversar rapidamente com ele. O diretor vem até a gente.

Campanella chega perto e estica a mão para me cumprimentar. Ok, é um gesto simples, mas não para um jornalista que nunca havia feito uma entrevista dessa magnitude. No momento, eu só lembrava daquele homem subindo ao palco do Kodak Theatre, em frente aos maiores nomes do cinema mundial, representando a América Latina para todo o planeta. Aquela mão apontada em minha direção havia apertado as de Pedro Almodóvar e de Quentin Tarantino, segundos antes de segurar uma estatueta do Oscar. Agora, estava eu ali, frente a frente com ele.

Certo, eu tinha que parar com os devaneios e retribuir o gesto. Apertei a mão de Campanella. Me apresentei – ou tentei –, visto que o meu espanhol já era ruim e, naquele momento, deve ter saído apenas balbucios incompreensíveis. Aparentemente, ele entendeu. Ou fingiu bem. Retribuiu, dizendo o seu nome – como se precisasse.

A Kyane se apressou, no meio daquela multidão que cercava o diretor naquele espaço minúsculo, e se posicionou da melhor maneira que pode, apontando a câmera para nós dois. A qualidade, ali, mesmo que fosse o próprio Campanella filmando, não teria como sair boa. Mesmo assim, seguimos em frente. O diretor, “para ficar melhor no vídeo”, pediu um segundo, vestiu sua jaqueta e deu uma ajeitada no boné. Pronto. Vamos lá.

Sem mais delongas, disparei a primeira pergunta. Havia separado oito, mas só poderia fazer duas – se ele respondesse rápido, arriscaria uma terceira. Questionei qual era diferença entre fazer cinema na Argentina e dirigir produções audiovisuais nos Estados Unidos. O diretor, enaltecendo a atual qualidade da televisão norte-americana, disse que já não havia diferença entre as duas mídias. Então, disparei a segunda, que sabia que traria uma resposta interessante.

“O que você acha do remake norte-americano de O Segredo dos Seus Olhos?”

O rosto dele, naquela fração de segundo, virou uma incógnita. Pensei: “Será que essa é uma pergunta proibida e que todos os argentinos sabem disso, menos eu?”. Imaginei que a entrevista fosse acabar ali mesmo. Mas não. Ele respondeu. Ou quase.

A resposta foi “não posso falar sobre isso”. No entanto, o diretor quis dizer algo mais e, tentando justificar o insucesso da refilmagem de seu maior filme, disse: “Parece que tem uns plot twists novos, mas…”. Não precisava falar mais nada. Todos entendemos.

Logo, me arrisquei numa terceira pergunta. Apesar de ter uma multidão nos cercando naquele pequeno cubículo, Campanella parecia não estar incomodado com a entrevista. Soltei: “E como você vê o crescimento do cinema sul-americano no exterior?”, visto que muitas produções dos nossos países estavam se saindo bem lá pra cima.

“É uma coisa que me preocupa, porque, sim, modestamente está crescendo, mas, lamentavelmente, esse crescimento foi sendo freado pela mudança de distribuição com streaming, internet e tudo isso. Mas tem uma coisa que me preocupa muito e acho que deveríamos enfatizar: conseguir que, na América Latina, conheçamos mais os nossos produtos. Talvez, fazer uma Netflix latino-americana, em que possamos conhecer os atores de vocês, vocês os nossos. E, no caso dos países que falam castelhano, possamos ouvir nossos acentos, que entendamos nossas diferenças, para poder erradicar uma linguagem neutra. Na verdade, para mim, isso seria genial, porque o lugar mais difícil para vender um produto latino-americano é a América Latina”, respondeu o diretor.

Pronto. O nosso tempo já havia estourado. Eu tinha que liberar o homem. Agradeci a atenção e paciência dele e, obviamente, pedi para tirar uma foto. Ele atendeu a demanda, me cumprimentou e se misturou ao numeroso grupo de pessoas que nos rodeavam. Se foi. Acabou. Entrevista feita. Coração saindo pela boca. Qualidade do vídeo? Horrível! Da foto? Pior ainda. Mesmo assim, foi a melhor entrevista de todas.

Provavelmente, Campanella nem lembra mais da nossa conversa. Para este que vos escreve, foi um dos momentos mais importantes de seus 25 anos de vida.

Confira a entrevista:

The following two tabs change content below.
Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 25 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

Comments

  1. sensacional! O aprendizado nesse período você vai levar e usar para o resto de sua vida, mas imagino também a felicidade ao entrevistar um dos grandes nomes da 7ª arte.

    Parabéns, Redel!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *