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Baú do Bode | Léon Morin, O Padre (1961)

Confira a opinião de Cristiano Contreiras sobre o longa de Jean-Pierre Melville!

Baú do Bode | Léon Morin, O Padre (1961)

Léon Morin, O Padre (Léon Morin, prêtre)

Ano: 1961

Direção: Jean-Pierre Melville

Roteiro: Jean-Pierre Melville

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Emmanuelle Riva, Irène Tunc, Nicole Mirel, Gisèle Grimm

Abordagens que exploram o senso da dificuldade afetiva ou das relações firmadas em barreiras, se bem concretizado, são efeitos de transformação no espectador. Tido como uma obra menos padrão e mais atípica da filmografia do cineasta francês Jean-Pierre Melville, Léon Morin, O Padre é um trabalho bem provocador de 1961.

Aqui temos o discurso perfeito do diálogo da religião e sexualidade. Emmanuelle Riva personifica uma viúva militante do comunismo durante o terreno da Segunda Guerra Mundial. Barny busca um sentido existencial diante da dúvida quanto à divindade através do contato com o catolicismo, no caso firmado na figura do padre Léon (Jean-Paul Belmondo). Melville instala o debate que vai além, ao promover a questão de “amor impensável e proibido” diante da ateia e do padre, na França dominada pelas forças do Eixo (Itália e Alemanha) em plena ruína.

Ainda que o título leve ao atrativo da figura do padre, na verdade o belo roteiro centra-se nas dúvidas e ânsias da comunista Barny. É um filme feminino. Melville promove um olhar singelo, bem sensível e firmado nas perspectivas dessa mulher — logo no início o público percebe, através da narrativa em off, pontuando as visões pessoais da protagonista, que existe ali uma história situada no olhar dessa mulher em busca de fé, crenças, afirmações, espiritualidade e, claro, nas motivações da sexualidade que hão de cercá-la, gradualmente. E são justamente esses tais conflitos expostos, com propriedade e certa tensão sutil, é que torna essa obra indispensável.

Interessante que o roteiro constrói a relação da ateia com o padre através de diálogos reflexivos, fortes e diretos — como na sequência inicial que ambos se conhecem, dentro do confessionário, através de uma divisória, num traquejo de câmeras bem originais, promovendo várias angulações diante dos respectivos olhares dos dois. O público percebe ali o contato imediato e o centro do debate proposto por Melville: a mulher descrente de tudo, com opiniões próprias, indagando questões que envolvem a manifestação de Deus e a relação com o homem; contrapondo-se com as opiniões incisivas do padre que sempre responde à altura, disposto a exemplificar a determinação do cristianismo. Dois humanos tão díspares, mas ligados. Os diálogos são bem lúcidos, poéticos e até subjetivos.

Ao passo que o Léon Morin, O Padre manifesta a aproximação dessa mulher com o padre, o contorno dramático passa a estimular uma vertente mais além: o desejo. Barny passa a se interessar pelo padre. Existe ali um interesse mais afetivo que se mistura ao caráter libidinal, visto que Jean-Paul Belmondo representa, obviamente, o homem generoso, exímio bondoso, de beleza ímpar e atitude masculina — ou seja, capaz de promover qualquer tesão em uma mulher carente. O que parecia ser uma troca de confidências e ajuda-existencial, atua como ponto de ebulição carnal. A provocação de Melville é nítida e não tem receios.

A bela presença e química interpretativa de Riva com Belmondo faz com que esse tal apelo da sensualidade, ainda que elegante e não exagerada, ganhe forma e eleve o filme a uma potência sexual. O interesse feminino pelo masculino; o despertar das sensações; a mulher que oculta o anseio que sente pelo homem da batina surrada, do rosto angelical — a presença tão masculina corrói essa mulher solitária, diante de uma vida morna que teve que se acostumar após a perda do marido. A cena em que Barny sonha com Léon em seu quarto, culminando num beijo tão profano e sagrado, é o ápice do erotismo proposto.

A dualidade é polêmica — será ali uma relação alimentada pelo intelecto-espiritual ou físico-emocional? O filme é um exercício de diálogos que recorre às questões da moralidade, dos preceitos religiosos e das intenções da redescoberta do sexo — enquanto a relação de sentimento e apreço pela filosofia entre Barny e Léon ganha forma, aos olhos do público há o clamor de algo maior: o desejo de torcer para que haja um relacionamento amoroso por conta desse casal tão improvável.

A ótica de Jean-Pierre Melville, ainda que revele certas tônicas sensíveis de apelo romântico, jamais foge da realidade ao qual a narrativa se fundamenta. Existe ali uma relação proibida diante do mundo ao redor imerso em dores, fragilidades e caos por conta da guerra. Sabiamente, o contexto histórico é priorizado, jamais tornando a obra um mero elemento fantasioso e banal. A fotografia em preto e branco torna ainda mais o desenvolvimento imagético um ato de beleza aos olhos. Sem dúvida, um filme necessário.

Nota do crítico:

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Cristiano Contreiras

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