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Baú do Bode | A Princesa e o Plebeu (1953)

Confira a opinião de Cristiano Contreiras sobre este doce filme estrelado por Audrey Hepburn!

Baú do Bode | A Princesa e o Plebeu (1953)

A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday)

Ano: 1953

Direção: William Wyler

Roteiro: Ian McLellan Hunter, John Dighton, Dalton Trumbo

Elenco: Gregory Peck, Audrey Hepburn, Eddie Albert, Hartley Power, Harcourt Williams, Margaret Rawlings, Tullio Carminati

Não existe uma vida satisfatória se há a ausência do prazer. Viver para amar, saborear as pequenas verdades do destino, de acordo com as vontades íntimas. Sem o prazer, o ser humano imerge numa jornada sem esperança, permanente na tristeza, na completa desilusão persistente. Sem prazer, não há gozo em vida. Sem vida, não existe o orgasmo vital.

Filme que deu o primeiro e único Oscar de Melhor Atriz a Audrey Hepburn, com então 24 anos de idade, A Princesa e o Plebeu é um marco clássico de doçura, sentimental e romantismo. Dirigido por William Wyler, a produção exerceu um enorme sucesso em Hollywood na década de 1950. A entediada princesa Ann (Hepburn) está cansada de sua vida formal, repleta de compromissos e deveres sociais da realeza. Seu sonho é ter uma vida “normal”, sem a rotina parlamentar que tanto condiciona sua vida e aprisiona seus sonhos juvenis.

Após uma crise nervosa, Ann resolve burlar a segurança do palácio que habita e fugir, disposta a viver anonimamente nas ruas de Roma, sem se preocupar mais com nada que remeta à sua realidade de princesa. E, sob essa disposição, o filme encontra seu melhor argumento: nas ruas romanas, o jornalista Joe Bradley (Gregory Peck) se esbarra, por acaso, com a única pessoa que conceberá a oportunidade única para sua profissão. Contudo, o que parecia apenas um “furo jornalístico”, torna-se um envolvimento, quando Joe sente-se atraído pela misteriosa jovem que foge de sua vida de princesa.

Fundamentado na estrutura de uma história de amor, é óbvio que o roteiro tenta ao máximo articular a intimidade — e a atração, sentimento e admiração mútua — de Ann com Joe. Sob a estonteante beleza da cidade romana, bem mais de acordo com o título original do filme, o filme percorre as ânsias da princesa que não consegue se adequar a sua vida artificial, por isso busca na sua oposta realidade social, um conforto de espírito e prazer incondicional. Enquanto Ann sente-se como uma “garota da plebe”, sem preocupações e compromissos, busca vivenciar os pequenos prazeres que só uma vida comum pode oferecer: tomar um sorvete, dormir até tarde de pijamas, andar pelas ruas sem ser notada, não ter ninguém para regular seus passos. Em contrapartida, Joe Bradley torna-se seu companheiro nessa empreitada, inicialmente disposto a aproveitar-se da situação para sugar o seu objeto de reportagem, mas que se arrepende ao converter seu senso de oportunista num sentimento que nem ele previa.

A sexualidade sutil de William Wyler consegue ser expressiva, ainda que sob o verniz levemente adocicado do filme. A aparência virginal de Ann, sua beleza delicada e carisma juvenil de mulher feminista que não se condiciona ao papel de mulher submissa imposto pela sociedade, tudo traz à tona os valores de uma sexualidade que necessita ser imposta. Audrey Hepburn figura seu talento em cena, em momentos que sua personagem sente-se atraída pelo novo amigo Joe — este, um homem confuso pela atração que sente pela princesa e a indecisão de usá-la ou não para seus propósitos profissionais.

Bem verdade, Gregory Peck utiliza-se da posição máscula interpretativa que convence; há uma química gostosa dele com Hepburn que são reforçados em diálogos carinhosos à medida que seus personagens aproximam-se mais. Há cenas que evidenciam a tensão sexual entre os dois, mas, assim como os beijos rápidos, evitam externar uma malícia muito concentrada, afinal nada era “carregado” nos moldes do cinema clássico — troca de olhares de Ann com Joe; a intimidade crescente ou mesmo a breve sequência de Ann de toalha, após sair do banho, promovem a sensação de desejo carnal na narrativa. Interessante que, em tão pouco tempo, os dois vivem algo deveras intenso, fica evidente o quão passionais são. Em particular, a sequência do primeiro beijo de Ann com Joe, os corpos molhados, após um banho no rio, é a prova da magia da sedução clássica cinematográfica; eis a chama romântica atemporal deste filme.

E há possibilidade de amor entre duas pessoas de vidas tão opostas? O que fazer para o destino compreender e favorecer a união de classes tão antagônicas? O roteiro garante essas reflexões. A sintonia de Gregory Peck e Audrey Hepburn é bem auxiliada por uma fotografia que compreende a necessidade de intimidade dos dois personagens, em função disso o filme funcione melhor em closes diretos nas faces dos atores, como forma de captar a áurea romântica que a fita transparece, incessantemente.

Quase 65 anos de lançamento, ainda permanece intacto por mostrar bem a necessidade do indivíduo encontrar-se em seus objetivos de vida e, acima de tudo, buscar o prazer como forma de existir plenamente como ser humano. Audrey Hepburn garante uma presença luminosa aqui, sem os vícios teatrais tão habituais na caracterização interpretativa daquele tempo. Suas cenas afetuosas com Gregory Peck reforçam o tom delicado e sensível da película, decerto um dos casais mais bonitos de se ver na tela, ainda mais sob os pontos turísticos de Roma. O final realista é prova de que a vida é um aprendizado, e que mesmo o amor não é capaz de mudar tudo, a não ser nós mesmos.

Nota do crítico:

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Cristiano Contreiras

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Comments

  1. Delicioso texto do Cris! Sou fã desse menino!

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