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O Formidável | Crítica

O Formidável | Crítica

O Formidável (Le Redoutable)

Ano: 2017

Direção: Michel Hazanavicius

Roteiro: Michel Hazanavicius

Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, Félix Kysyl

Não é fácil falar sobre Jean-Luc Godard. As mudanças que verificamos em seus filmes, se analisarmos sua trajetória desde À Bout de Souffle (1959) até Adieu au Langage (2014), talvez só possam ser bem compreendidas por algum grande conhecedor de sua obra, que não é meu caso. Assisti apenas seus primeiros filmes da Nouvelle Vague e depois os seus trabalhos mais recentes. Felizmente, tudo começa a fazer mais sentido quando, através do recorte de uma fase de sua vida que é retratada em “O Formidável”, conhecemos um pouco mais sobre a personalidade excêntrica, caótica e por vezes irritante deste que é um dos mais influentes cineastas da história.

Escrito e dirigido por Michel Hazanavicius, “O Formidável” é inspirado na biografia de Anne Wiazemsky, que foi esposa de Godard, e nos leva a 1968, pouco antes do lançamento de “A Chinesa”, longa do diretor que não teve a recepção esperada por ele. As críticas negativas e a má repercussão entre o público provocaram em Godard uma reflexão sobre seu trabalho. Isso, somado ao tumultuado contexto político na França, com o qual o cineasta se envolvia ativamente, fez com que ele buscasse uma nova forma de se expressar, com efeitos fortes na sua vida pessoal e profissional.

Michel Hazanavicius mostra novamente seu talento em nos transportar para o cinema de outra época. Vencedor do Oscar de Melhor Direção com “O Artista” (2011), naquela oportunidade ele nos levou à era do cinema mudo. Agora, ele nos leva, inicialmente, à nouvelle vague. É impressionante a imersão ao ambiente do final da década de 1960 proporcionada pelo filme. A direção de arte é muito eficiente ao retratar a época e, durante todo o tempo da projeção, temos a impressão de que estamos assistindo a um filme antigo. A caracterização dos personagens e locações, além da utilização de cores sólidas (o vermelho, o amarelo e o azul predominam na tela), porém levemente insaturadas,  nos dão esta sensação.

É fantástico também como o diretor brinca com elementos que remetem a Godard. A comédia que se dá de forma tão natural que soa quase involuntária. A imagem que contradiz ou debocha do que os personagens falam. Os diálogos maravilhosos que, com simplicidade, trazem consigo uma  espécie de sabedoria. “Por que inventar o cinema falado se não vão dizer nada?” pergunta Godard em determinado momento, criticando uma suporta futilidade das obras que não tratavam de assuntos que ele considerava fundamentais.

Impossível não destacar também as atuações de Louis Garrel e Stacy Martin, que dão vida aos protagonistas. Garrel nos apresenta um Godard paradoxal, que acredita ser um gênio do cinema e ainda assim se sente inseguro quanto à forma como as pessoas o enxergam, inclusive quanto à admiração que sua esposa nutre por ele. Apesar de ter convicção da qualidade da sua obra, demonstra frustração ao perceber que outros não concordam com ele, apenas para concluir posteriormente que aqueles é que estão “errados”. Além disso, demonstra ciúmes da sua namorada (e depois esposa) quando ausente ou quando esta conversa com outras pessoas, sendo que quando estão juntos não dá a ela a atenção desejada.

Martin compõe Anne como uma jovem apaixonada e sonhadora, que tenta a todo custo compreender o momento vivido por seu companheiro. No entanto, sofre silenciosamente por ser atingida direta e indiretamente pelos caprichos de Godard. Dessa maneira, é obrigada a amadurecer para encontrar sua própria voz, e sair da sombra daquele homem que ela tanto admira mas não lhe valoriza como gostaria. E este crescimento é demonstrado tanto nas suas atitudes quanto em seu visual.

Outro ponto alto do filme é a montagem. Em dois momentos, ela promove o diálogo entre o casal principal de maneiras bem diferentes. Na primeira, ao ilustrar uma discussão entre os dois através das capas dos livros que eles lêem, cada um em uma peça da casa. Os títulos das obras funcionam como os inter-títulos do cinema mudo, transmitindo o pensamento de cada um. Em outro momento, outra discussão. Dessa vez, os dois sentados próximos, frente-a-frente, mas são mostrados isoladamente, demonstrando o distanciamento emocional entre os dois. E a forma como se desenrola a conversa é fantástica, pois além das legendas do que eles estão falando, vemos também as legendas do que eles realmente queriam dizer. Certamente essa experiência fica ainda melhor se você compreender o idioma original e puder ler apenas as legendas “extras”. Infelizmente meu francês não vai além do “bonjour”.

No final das contas, o filme nos apresenta a reinvenção de um artista. A redescoberta após a reflexão sobre sua obra. Godard cria “um Vietnã dentro de si”, como ele cita diversas vezes. Segundo sua crença socialista de que “a revolução é um estado permanente”, ele aplica o conceito político à sua arte, tornando-se eternamente mutável.

Em dado momento, Jean-Pierre Gorin filosofa: “O cinema deve ser como um martelo. Uma ferramenta leve que todos devem saber manusear”. Eu concordo. E assim como o martelo pode servir para quebrar uma parede, também pode ser utilizado para esculpir as mais belas estátuas a partir da pedra bruta. E é extremamente gratificante quando, como nesse filme e no legado de seu protagonista, vemos a beleza surgir da simplicidade.

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[Total: 1    Média: 5/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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