Bode na Sala
Críticas Filmes

Baú do Bode | Através de um Espelho (1961)

Confira a opinião de Cristiano Contreiras sobre o longa de Ingmar Bergman!

Baú do Bode | Através de um Espelho (1961)

Através de um Espelho (Såsom i en spegel)

Ano: 1961

Direção: Ingmar Bergman 

Roteiro: Ingmar Bergman 

Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Max von Sydow, Lars Passgård

A degradação psicológica, através de uma narrativa de três atos, que ocorre em 24 horas, na Ilha de Fårö, na costa da Suécia. Ingmar Bergman promove a desconstrução da aparência familiar, através de 4 personagem em uma situação de intimidade. Karin (Harriet Andersson) estabelece a problemática de acordo com as dores e crises da sua personagem que acaba de sair de um período no sanatório – pouco sabemos, mas fica claro que sofre de esquizofrenia.

“É terrível ver sua própria confusão e não entendê-la”. Bergman assume seu olhar que perpassa sensos habituais como as indagações sobre fé e existência; a fragilidade humana diante de tônicas inerentes ao oculto – os diálogos de Karin comungam as quesitos que vão desde dessa busca por afago familiar quando à uma divindade que a desorienta e também a agoniza.

Claramente, existe a desconstrução de uma feminina: Karin tenta, mas não consegue se ajustar sócio e afetivamente com ninguém. E Bergman exibe essa sua instabilidade emocional na maneira como a coloca em silêncios constantes (condizente representação já que faz parte do primeiro filme sobre a “Incomunicabilidade”); ou o uso do violoncelo de Bach que se contrapõe aos sons dos apitos de navios na ilha; cenas em que Andersson se isola em um barco em ruínas, tal qual sua consciência, que permanece atracado na costa da praia; as paredes cheia de rachaduras do sótão, tal qual sua alma angustiada, em que ela assume ver uma figura oculta: o que chama de “Deus-Aranha”. Enquanto o estado mental vai se deteriorando, a direção utiliza-se de jogos de luzes e sombras, da bela fotografia de Sven Nykvist, pra promover a ode ao que habita no obscuro da mente.

As sequências cênicas em que vemos a sua personagem em um monólogo com as “sombras”, com o que nós – e os demais personagens familiares ali não enxergam “fisicamente” -, é um dos momentos mais assustadores criados por Bergman para falar sobre a noção da angústia existência:

“Mas o Deus que apareceu era uma aranha. Ele veio em minha direção e eu vi o seu rosto. Era um rosto terrível, impassível. Ele veio rastejando, tentou entrar dentro de mim. Mas eu me defendi. O tempo todo, eu via seus olhos. Eram frios e calmos. Quando ele não pôde penetrar em mim, ele subiu pelo meu peito pelo meu rosto e subiu na parede. Eu vi Deus.”

O título do filme não poderia ser mais coerente com a ideia: referência ao 1 Coríntios 13:12: “Agora, pois, vemos apenas o reflexo obscuro, como espelho; mas, então, veremos face a face (…)” – que, por sua vez, traz relação com outro título que Bergman faria em 1972 com Liv Ullmann no papel principal. São interlocuções com dois filmes que tratam sobre doenças mentais – tanto Andersson quanto Ullmann dialogam com sua consciência, confundindo-se na realidade e no plano subjetivo da irrealidade, digladiando-se com os efeitos dos transtornos de situações que a devastam emocionalmente. Os “delírios” corroem as mulheres por dentro, como um bicho na mente que suga o que há de mais sereno.

Ironicamente, aqui, também, a indisposição parece planar nos demais personagens que rodeiam a Karin: Max Von Sydow com olhos marejados e entristecidos, personifica o médico e marido que tenta compreender o silêncio do sentimento, da libido e da alegria de sua esposa; Gunnar Björnstrand é o pai de Karin, um novelista em bloqueio criativo que parece não conseguir demonstrar atos de afetos, inclusive para seu filho mais novo – Lars Passgår, o único que demonstra maior aproximação com a alma difusa e o comportamento instável de Karin.

Todos esses quatro personagens sofrem por ter certas angústias, inquietações e fragilidades emocionais. E, bem verdade, a grande questão que Bergman traça, é que todos ali precisam quebrar certos silêncios para coexistir a compreensão. O silêncio que se estabelece na família é tão corrosivo quanto os efeitos que uma doença mental é capaz de incutir em alguém. Através da incomunicabilidade é que precisamos revelar sentimentos que permaneciam presos. Obra-prima.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]

The following two tabs change content below.

Cristiano Contreiras

Latest posts by Cristiano Contreiras (see all)

Comments

  1. Um dos poucos Bergman que não assisti e agora tornou-se absolutamente essencial. Encontra-lo será um desafio, mas a busca começa essa noite. Ótima digressão, e que venham outras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close