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Como a AMC prejudicou The Walking Dead ao longo dos anos

Como a AMC prejudicou The Walking Dead ao longo dos anos

AMC já tinha emplacado sucessos de público e crítica com Mad Men e Breaking Bad, mas foi no Halloween de 2010 em que lançou sua série de maior audiência. Baseada nas histórias em quadrinhos criada por Robert Kirkman e Tony Moore, a emissora aprovou a primeira temporada com seis episódios com Frank Darabont, diretor de Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre e O Nevoeiro (três adaptações da obra de Stephen King), como showrunner.

A série foi um sucesso absoluto e um fenômeno que trouxe um novo fôlego ao subgênero zumbi. Apesar da audiência em constante ascensão, a qualidade da série é inconstante, Darabont foi demitido, showrunners entram e saem como um jogo de cadeiras, atores pedem para sair da série e seus personagens são mortos de maneira não satisfatória. Entenda tudo o que aconteceu fora das telas:

Dias passados

A queda de qualidade presente na segunda temporada é visível. Os episódios são parados, existem mais dramas desnecessários e repetitivos entre os personagens, cenas de ação são mais escassas e até mesmo a maquiagem dos zumbis parece menos elaborada. Todos os demônios que assolam The Walking Dead começam e terminam no mesmo lugar. A AMC deu a vida a serie, mas também a matou.

Assim como aconteceu com Breaking Bad, a primeira temporada teve poucos episódios e, com o sucesso adquirido, o número aumentou para 13 episódios. Em teoria, quando uma série se torna um sucesso, o orçamento por episódio aumenta ao passo que a audiência e o dinheiro gerado aumentam também. Não foi o caso de The Walking Dead: a primeira temporada teve um custo por episódio de US$ 3,4 milhões de dólares enquanto a segunda teve um orçamento de US$ 2,7 milhões, uma queda considerável mesmo depois de a série garantir uma audiência muito maior que a de Breaking Bad, que custava três milhões por episódio. Os cortes seriam tantos que a AMC considerou que os zumbis não aparecessem fisicamente em The Walking Dead, apenas os ruídos deles seriam ouvidos.

Essa foi a primeira vez que a AMC fez algo do gênero, mas não por falta de tentativa. Quem acompanhou Mad Men sofreu dos 17 meses de hiatus que separaram a quarta da quinta temporada. Apesar de manter a qualidade da série intacta ao longo da série, foram longos meses de brigas entre o showrunner de Mad Men, Matthew Weiner, e a emissora, que queria diminuir a duração dos episódios para permitir mais comerciais e diminuir o salário dos atores. No final, a qualidade de Mad Men foi mantida intacta. As três partes da discussão chegaram a um acordo. Três partes. A terceira parte sendo a Lionsgate, o estúdio que é dono de metade da série. O mesmo impediria, por exemplo, a AMC prejudicar Breaking Bad, já que Vince Giligan, criador da série, poderia recorrer a Sony, estúdio detentor de metade dos direitos. Infelizmente, The Walking Dead não goza da mesma sorte das duas anteriores – a AMC tem posse total da série.

Frank Darabont nas gravações da primeira cena da série

Três dias depois da San Diego Comic-Con de 2011, onde elenco e equipe de produção compareceram para promover a série alguns meses antes da estreia da temporada, Frank Darabont foi oficialmente demitido de The Walking Dead. Ele tinha sido demitido por baixo dos panos duas semanas antes. Apesar dos cortes no orçamento e de negarem seus planos criativos para a série, Darabont escolheu continuar e dar o melhor de si, mas isso foi recusado e ele foi demitido friamente da série que ele fez acontecer com o seu talento e dedicação.

Neste vídeo é possível ver o depoimento Sam Witwer, figurante da primeira temporada de The Walking Dead que teria uma participação maior na série caso a ideia original para o começo da segunda temporada. O episódio seguiria o ponto de vista de um soldado de Atlanta que estava ajudando na contenção quando uma horda de errantes começaram a desolar a cidade, ele iria ajudar uma família a escapar e iria acabar mordido no processo e, numa tentativa para se matar e não ferir ninguém como andarilho, entrou em um tanque de guerra onde pegou uma granada, mas ele perde a consciência antes de conseguir puxar o pino; em um flashfoward é revelado que o soldado é o walker que estava no tanque em que o Rick (Andrew Lincoln) entrou no piloto da série. Mas a AMC achou a ideia muito cara e a cortou. Witwer ainda dá a entender que Frank Darabont tinha mais ideias brilhantes que agora estão perdidas para sempre.

Outro ponto relevante tocado no vídeo foi como Darabont trazia seus amigos para atuar e produzir a série, o diretor trabalhava com pessoas com as quais foi colega no ensino médio. Quem assistiu O Nevoeiro com certeza reconheceu Laurie Holden (Andrea), Jeffrey DeMunn (Dale) e Melissa McBride (Carol Pelentier) no filme, apenas um exemplo de como o diretor reutiliza os seus atores. Witwer revela que a equipe de filmagens da série aceitaram ser pagos com um salário abaixo da média por serem amigos do Frank Darabont por acreditar nele e na sua visão. Muitos membros se demitiram após a saída do amigo, como Jeffrey DeMunn que disse não aguentar continuar na série sem Darabont (Vale lembrar que Dale morre bem mais tarde nos quadrinhos, na prisão) e Laurie Holden, que apesar do plano original da série era seguir o protagonismo da personagem nos quadrinhos foi morto de última hora pelos roteiristas e a posição de badass do grupo passou para a Carol.

 

O que nos tornamos

Após a demissão de Frank Darabont, Glen Mazzara assumiu a cadeira deixada pelo diretor. Cargo que ocupou por apenas duas temporadas antes de sair da série. Kurt Sutter, showrunner de Sons of Anarchy e The Shield, série em que trabalhou com Mazzara, diz que o motivo da saída do amigo foram desavenças com o criador dos quadrinhos, Robert Kirkman, declarando que este último era muito protetor com a sua visão e não entendia como uma série de TV funciona. Tanto Kirkman quanto a AMC negaram esses comentários. Da segunda para a terceira temporada é possíver ver uma enorme diferença criativa: no final da segunda, Rick deixa bastante claro que se o grupo quiser continuar seguindo a liderança dele “Isso não será mais uma democracia“, dando a entender que no futuro próximo ele seria um líder mais impiedoso; logo no começo da temporada seguinte, Rick abandona a liderança e forma-se um comitê para tomar as decisões em conjunto.

Enquanto isso, The Walking Dead se tornou a série da TV a cabo de maior audiência por cinco anos e deu início a uma sequência de bater seus próprios recordes.

Na quarta temporada foi a vez de Scott M. Gimple de assumir o cargo com tanta rotatividade que poderia ser confundido com o emprego de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas; Gimple continua até hoje. Mesmo com um começo, a temporada encontrou forças e conseguiu manter um padrão de qualidade que não oscilava, o retorno e o fim do Governador deu vida a um dos mais intensos e repletos de ação episódios da série, a decisão de separar os personagens e focar nos seus conflitos individuais se mostrou uma opção surpreendentemente acerta e tudo parecia correr muito bem. A quinta temporada também representou outro ano positivo para a série, excluindo o arco do hospital, que foi um grande e nada inspirado filler. Os altos e baixos se tornaram cada vez mais frequentes ao ponto da sétima temporada da série se tornar insuportável.

A fórmula de The Walking Dead ficou visível e repetitiva. Toda temporada tem um excelente começo para prender o espectador, seguido de um punhado de episódios mornos com alguns bons no meio, um oitavo episódio que recupera a ação e a emoção da série e faz com que o público ansiosamente espere sete meses para ver a outra metade da temporada que, por sua vez, vai repetir a fórmula. A série não tem conteúdo o suficiente para justificar os 16 episódios. Próxima temporada, mesmo esquema. Um loop infinito.

Apesar de ter uma galeria extensa de personagens, The Walking Dead sempre teve problemas em equilibrá-la. Um exemplo são os episódios focados em apenas um núcleo. Se você pegar Game of Thrones como exemplo, todo episódio mostra diferentes núcleos e todos movem a trama para frente. Já em The Walking Dead, alguns destes episódios até funcionam por mostrarem algum personagem ou núcleo interessante, mas, em alguns casos como, por exemplo, aquele episódio em que 48 minutos foram exclusivamente dedicados para os Salvadores tentado convencem o Daryl (Norman Reedus) a ser tornar um deles se mostra mortalmente problemático e aborrecido.

Outro problema constante da série são os cliffhangers. Alguns deles são muito bem executados, como quando o grupo do Rick foi capturado pelo Terminus porque o episódio seguinte foi tão bom que fez valer a espera. O que não é o caso do temível final da sexta temporada, oito episódios foram inteiramente dedicados à ameaça do Negan (Jeffrey Dean Morgan) e houve uma construção excelente acerca da introdução do personagem. A cena em que o Negan finalmente aparece para o público é de tirar o fôlego, tudo ali foi excelente, exceto o minuto final que se recusou a mostrar quem foi a vítima da temida Lucille. Foi necessária uma espera de sete meses para que o espectador descobrisse quem morreu e um episódio inteiro foi dedicado a isso.

 

Fomos muito longe

Nenhuma ação permanece sem reação. Em agosto deste ano foi registrado em Los Angeles um processo contra a AMC feito por Frank Darabont, Robert Kirkman e os produtores Glen Mazzara, Gale Ann Hurd e David Alpert que pode resultar em um total de um bilhão em danos para a emissora. Darabont sozinho exige 280 milhões por ser injustamente demitido da série durante a metade das gravações da segunda temporada, os outros alegam que a AMC negou uma parte maior de participação nos lucros, o que é comum para produtores e atores de séries de grande repercussão.

Este caso surge da falha de um grande conglomerado do entretenimento de honrar as suas obrigações contratuais para com o seu pessoal criativo – o talento, no jargão da indústria – por trás do grande sucesso, altamente rentável e de longa duração série de televisão The Walking Dead” este é o argumento de abertura da queixa registrada na Corte Superior de Los Angeles. Darabont e seus agentes conduziram seus experts financeiros no que deve resultar em US$ 30 milhões por episódio. O restante ainda não decidiu qual valor deve ser. O processo está sendo conduzido pela agência Bird Marella, que tem décadas de experiência com acusações na indústria do entretenimento.

Em resposta às acusações, a AMC se pronunciou: “Esses tipos de processo são comuns no entretenimento e eles todos tem uma coisa em comum – eles querem sucesso. Virtualmente todo estúdio tem sido alvo de um litigo como esse […]. Nós temos um respeito enorme e apreciação por essas partes queixosas e nós vamos continuar a trabalhar com eles como parceiros, mesmo quando nós vigorosamente nos defendemos deste processo sem base e previsivelmente oportunista

É difícil saber o que esse processo significa para o futuro de  The Walking Dead, que ainda conta com um spin-off e um aftershow ao vivo. Apesar da queda de audiência vista na última temporada, ainda permanece uma das séries mais assistidas da TV. Caso os produtores vençam, os danos serão monetariamente astronômicos para a AMC, que no momento conta com catorze séries originais e diferentes programas . Para a oitava temporada, os produtores aprenderam que o ritmo arrastado da último fez a série perder espectadores e prometeram um ritmo mais acelerado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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