Bode na Sala
Artigos

Os assédios silenciados de Hollywood

Por qual razão o castelo de Harvey Weinstein se manteve intacto durante trinta anos?

Os assédios silenciados de Hollywood

Você já deve ter visto o nome “Harvey Weinstein” pipocando nos noticiários recentemente. Este senhor é um poderoso magnata da industria cinematográfica americana. Fundou, em 1979, ao lado do irmão Bob Weinstein, a produtora Miramax e, posteriormente, em 2005, a The Weinstein Company. Juntas, as duas empresas produziram filmes  como Pulp Fiction, Bastardos Inglórios, Django Livre, Gênio Indomável, entre muitos outros.

Nas últimas semanas veio a tona uma série de acusações em relação aos assédios cometidos por Harvey Weinstein.  A reportagem corajosa da revista The New Yorker, escrita por Ronan Farrow, no último 10 de outubro, encorajou vítimas e testemunhas a relatarem casos de assédio cometidos por Harvey. Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne, Léa Seydoux e Lena Headey são só algumas das muitas vítimas que resolveram quebrar o silêncio. As declarações envolvem assédio físico, incluindo estupro, milhares de ameaças e tortura psicológica. A grande avalanche de denúncias culminaram no pedido de separação de sua mulher, Georgina Chapman, e na expulsão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Tudo isso aconteceu em uma semana, e começou com apenas uma reportagem.

Mas por qual razão o castelo de Harvey Weinstein se manteve intacto durante trinta anos? A verdade é que casos como esse são intrínsecos na indústria cinematográfica. Desde a Era de Ouro de Hollywood, atrizes como Jane Mansfield, Rita Hayworth, Marylin Monroe e tantas outras, foram exploradas física e moralmente, forçadas a dietas perigosas e tratamentos estéticos mirabolantes. Em declaração recente, o ex-marido de Judy Garland, Sid Luft, relata na biografia, Judy and I: My Life with Judy Garland, que a atriz, na época com 16 anos, era constantemente assediada pelos atores que interpretavam os Munchkins no clássico O Mágico de Oz. Desde essa época, são quase 80 anos de situações cabulosas, muitas ainda no anonimato, envolvendo o abuso de poder masculino.

Mas como diz aquela velha citação, “há males que vem para o bem”. As acusações contra Harvey, abriram espaço para reivindicar o poder da denúncia, principalmente na era das redes sociais, em que qualquer informação ganha proporções gigantescas. As acusações já não se restringem apenas ao produtor que se encontra como foco do escândalo, mas também são atribuídas a outros cineastas. Björk relatou, em sua página no Facebook, os abusos sofridos por Lars Von Trier durante as filmagens de Dançando no Escuro. Reese Witherspoon e Jennifer Lawrence não citaram nomes, mas também relataram comportamentos abusivos que sofreram no início de suas carreiras.

As investigações contra Harvey continuam, pois novas denúncias estão surgindo. Recentemente, após ter tido um chilique em frente aos fotógrafos, o produtor pegou um jato particular e foi para o Arizona se internar em uma clínica especializada em pacientes com transtornos sexuais. “Você sabe, todos nós cometemos erros, e eu espero ter uma segunda chance”, ele disse. Não sabemos o rumo que esse caso vai tomar, mas a verdade é que um espaço muito importante de reivindicações está sendo aberto. As cartas estão na mesa e o jogo é contra gente grande e, embora seja desafiador brigar contra potências que colocaram as mulheres em posição de vulnerabilidade por tantos anos na indústria cinematográfica, existe essa chance de virar o jogo e recriar um novo cenário, que conserve o brilho da sétima arte, em frente e por trás das câmeras.

 

The following two tabs change content below.

Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *