Bode na Sala
Críticas Filmes

Bom Comportamento | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa estrelado por Robert Pattinson!

Bom Comportamento | Crítica

Bom Comportamento (Good Time)

Ano: 2017

Direção: Benny Safdie e Josh Safdie

Roteiro: Ronald Bronstein e Josh Safdie

Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi, Taliah Webster

Fico muito feliz quando vejo artistas que conseguem superar estigmas, dar a volta por cima e provar o seu valor em filmes de qualidade. Robert Pattinson havia se tornado uma espécie de Cigano Igor para o grande público após a saga Crepúsculo. Mas, convenhamos, o que o ator poderia fazer com um vampiro que brilha no sol? Confesso que já havia escutado elogios a atuações dele em outros filmes que, infelizmente, até o presente momento, não tive a oportunidade de assistir, mas nenhum atingiu o destaque e respeito que Bom Comportamento conquistou. Então, creio que ele deve agradecer a Benny e Josh Safdie, os diretores do filme.

Josh Safdie ainda assina o roteiro, ao lado de Ronald Bronstein, e nos traz a história de Connie Nikas (Pattinson), um rapaz desajustado que cuida do seu irmão mais novo Nick (Benny Safdie, sim, o diretor do filme), ou pelo menos acredita que sim. Na verdade, acaba envolvendo seu irmão em seus crimes e, em um assalto a banco que não sai como planejado, Nick é capturado e vai parar na prisão. Connie não aceita a ideia de ter seu irmão na cadeia e, por isso, decide fazer o que for preciso para arranjar o dinheiro da fiança ou, ainda, tomar atitudes mais drásticas.

A partir do momento em que Connie passa a se dedicar à busca da libertação de seu irmão, a história toda se passa em uma única noite. E, nesse período, as atitudes dele se tornarão uma sucessão de equívocos e tentativas frustradas de ajudar seu irmão e que, na verdade, acabam apenas por piorar a sua própria situação e a de todas as pessoas às quais ele envolve em seus planos.

Durante as horas pelas quais ele vive suas desventuras, o ritmo e até a fotografia do filme remetem a Colateral (2004), de Michael Mann. No lugar do táxi dirigido por Jamie Foxx, agora temos um ônibus, um carro “emprestado” e qualquer outra forma que o protagonista empregue para se locomover pela cidade enquanto busca soluções cada vez mais desesperadas para o seu problema. E, nisso, o roteiro é extremamente eficaz. Ele mostra que a urgência de Connie afeta cada vez mais o seu discernimento, passando da busca de formas mais simples de arranjar o dinheiro para a fiança, até as ideias mais absurdas e perigosas para evitar que Nick passe sequer mais um dia na cadeia.

A dinâmica do relacionamento entre os dois irmãos é fantástica, e isso se deve muito às atuações exuberantes de Pattinson e Safdie. O Nick de Safdie é um jovem com deficiências físicas e intelectuais. Na sua primeira aparição, já na primeira cena, acompanhamos sua conversa com um psiquiatra. Durante o diálogo, predominantemente em planos detalhe, vemos alterações sutis de expressão, pequenos movimentos faciais e corporais que indicam a confusão mental do personagem, que também sofre mudanças rápidas de humor. Por diversas vezes, vemos sua ingenuidade se transformar em violência.

Pattinson, por sua vez, compõe Connie como um rapaz constantemente angustiado. E é incrível como ele consegue transmitir a dissimulação de seu personagem que esconde tudo que está sentindo em questão de segundos, sempre que precisa enganar alguém ou convencer as pessoas a ajudá-lo. Entre essas pessoas, destaque total para Jennifer Jason Leigh. Ela interpreta Corey, uma mulher com claro atraso intelectual que Connie manipula e explora.

A direção dos irmãos Benny e Josh também merece elogios. O filme é quase todo em planos fechados, que nos traz a proximidade com os personagens mas, ao mesmo tempo, cria um ambiente claustrofóbico, que passa a sensação de uma prisão, mesmo quando ao ar livre. Entendemos que eles estão presos àquela realidade, àquela situação e, não por acaso, talvez o plano mais aberto do filme seja justamente em sua conclusão. Também são muito eficientes em promover um aumento gradual da tensão, não permitindo nunca que o filme, apesar de muitas vezes lento, se torne chato.

Bom Comportamento é um filme angustiante e sensível ao mesmo tempo. Ele consegue, através de um pequeno recorte da história de seus personagens, construir uma narrativa coesa que nos prende até o último segundo. É um grande recomeço para Pattinson, e um passo certeiro na carreira dos irmãos Safdie.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close