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Além da Morte | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o remake de Linha Mortal!

Além da Morte | Crítica

Além da Morte (Flatliners) 

Ano: 2017

Direção: Niels Arden Oplev

Roteiro: Ben Ripley 

Elenco: Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton, Kiersey Clemons

É muito difícil assistir um remake sem compará-lo o tempo inteiro com a obra original. Principalmente quando o primeiro trata-se de um filme de qualidade que, apesar de antigo, funcionaria ainda nos dias de hoje. Linha Mortal é um filme tenso, assustador, com boas atuações e uma carga dramática muito convincente. Por ser de 1990, talvez o público jovem que o assista hoje em dia sinta alguma estranheza, mas acredito que a força da história compense aquele visual e tecnologias que possam ser considerados “ultrapassados”. Até porque alguns sucessos atuais do gênero estão justamente revisitando aquela época, como Stranger Things e It. Então, por que fazer outro? A única justificativa aceitável seria: para fazer algo melhor. Infelizmente, passou muito longe disso.

Com roteiro de Ben Ripley e dirigido por Niels Arden Oplev, Além da Morte nos apresenta Courtney (Ellen Page), uma estudante de medicina que, anos após sofrer um acidente traumático, fica obcecada por pesquisar a vida após a morte. Para isso, ela recruta alguns colegas para ajudá-la em um arriscado experimento: parar o próprio coração por alguns minutos para ser ressuscitada em seguida e, assim, gravar a atividade cerebral durante esta experiência de quase-morte. O procedimento funciona, no entanto, as consequências vão muito além do que eles poderiam prever. 

A premissa do roteiro é muito intrigante e, por isso, mesmo com as alterações em relação ao original de 1990, o filme tinha grande potencial. Algumas inovações nos “efeitos colaterais” da experiência de quase-morte foram muito bem pensadas, aumentando o impacto real daqueles eventos na vida dos jovens médicos. Infelizmente, a forma acelerada como se desenvolveu essa parte da trama, totalmente dissociada dos momentos de terror, acabou gerando uma oscilação muito prejudicial no ritmo e no clima do filme. A impressão é que assistíamos dois filmes diferentes simultaneamente.

Dessa forma, é óbvio que nenhum dos dois funcionou satisfatoriamente. Temos um primeiro ato e boa parte do segundo em que o filme apresenta alguns bons momentos. É uma pena que, mesmo os poucos acertos, são sabotados por atuações caricaturais ou pouco convincentes de todos os personagens principais. Diego Luna quase se salvou, mas os diálogos tenebrosos não permitiram isso.

Essa impressão de estarmos vendo dois filmes também se reflete na direção de Oplev. A única referência que eu tinha ao trabalho dele era o sensacional Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2009), que depois também recebeu um remake dirigido por David Fincher. Em Além da Morte, pouca coisa nos remete àquele excelente trabalho. Alguns bons movimentos de câmera, alguns enquadramentos eficazes para mostrar a confusão mental dos personagens em determinado momento e um bom timing em algumas cenas de terror. Por outro lado, foram diversos os equívocos. O principal foi não conseguir extrair de seus atores e atrizes praticamente nada que pudesse emocionar o público. Também foi inexplicável a opção por aplicar jump scares totalmente desnecessários, quebrando o clima de tensão que estava conseguindo criar para aplicar sustos rápidos e artificiais.

A montagem errática é outro sintoma (ou seria outra culpada?) da oscilação do filme. A evolução de uma cena para outra, por diversas vezes, ignorava totalmente o que aconteceu anteriormente. Logo no início do filme, vemos Courtney atender uma paciente que lhe fala algo um pouco perturbador. Aquela fala é solenemente ignorada durante todo o resto da projeção, como se fosse algo normal e corriqueiro. Em outro momento, um personagem sofre um grave ferimento na mão em uma situação de intenso perigo mas, antes que possamos ver como ele resolveu aquela questão, ele aparece em outro lugar, já com um curativo, conversando tranquilamente com seus amigos.

A maior decepção, no entanto, fica com a nulidade da carga dramática do terceiro ato do filme. Quando finalmente chegamos à conclusão dos arcos dos personagens, a diferença de tom e de aprofundamento entre eles soa como um desperdício do aspecto mais importante da história, que era justamente as consequências do experimento que eles realizaram. Para piorar, a pressa em encerrar algumas questões que mereciam maior desenvolvimento contrasta com o tempo dedicado à conclusão da história menos elaborada e verossímil entre todos os personagens. Esta conclusão, além de demorada, tenta dar ares de terror e suspense à trama, mas o faz de maneira totalmente ineficaz.

No final das contas, ao vermos Kiefer Sutherland (protagonista de Linha Mortal) fazendo uma ponta no filme e escutarmos Jamie pronunciar a célebre frase “Hoje é um bom dia para morrer.”, podemos concluir que Além da Morte realmente quis homenagear a obra original. Infelizmente, a melhor homenagem seria apresentar uma história digna da primeira versão, e não um drama de horror genérico que vai ser esquecido pouco após o término da sessão.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 1/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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