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Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o filme de Noah Baumbach estrelado por Adam Sandler!

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe | Crítica

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (The Meyerowitz Stories (New and Selected))

Ano: 2017

Direção: Noah Baumbach 

Roteiro: Noah Baumbach 

Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten

Provavelmente, você quer saber se o Adam Sandler realmente está bem nesse filme, certo? A resposta é: sim, ele está ótimo! Bom, agora que já matamos essa curiosidade, vamos falar da trama de Os Meyertowitz: Família Não Se Escolhe (Histórias Novas e Selecionadas), longa de Noah Baumbach que foi aplaudido em Cannes e, além disso, desencadeou a discussão se produções da Netflix devem ou não participar de festivais de cinema.

O longa, como o título já diz, acompanha a história dos Meyerowitz, uma família que tem o escultor e professor de arte aposentado Harold (Dustin Hoffman) como patriarca. Por conta de seus quatro casamentos (desculpe, são três, já que um foi anulado), acabou tendo três filhos, sendo que Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel) são da mesma mãe, mas Matthew (Ben Stiller) não. Todos os irmãos têm características bem diferentes, mas compartilham algo em comum: frustrações relacionadas ao pai. E esse é o fio-condutor do longa.

Com uma pegada de Os Excêntricos Tenenbaums (compreensível, uma vez que Baumbach roteirizou filmes para Wes Anderson), Os Meyerowitz começa nos apresentando Danny e sua filha Eliza (Grace Van Patten, uma grata surpresa) indo para a casa de Harold. A sequência do personagem de Sandler tentando estacionar o carro é ótima e dá o tom do filme, que é dividido em histórias envolvendo os personagens principais, mas todas em torno da mesma temática: Harold.

O Danny de Sandler é, sem dúvidas a melhor coisa do filme. Ao ter que ir para a casa do pai após o seu divórcio, o músico fracassado – e manco – também perde aquilo que lhe dá sentido na vida: a filha, que vai para a faculdade. Danny, com um grau de “coitadismo” no ponto certo, guarda ótimas recordações do lar dos Meyerowitz, mesmo tendo passado pouquíssimo tempo ali, uma vez que foi Matthew quem pode crescer na casa, ao lado de Harold.

Aliás, essa é uma das grandes questões que precisam ser resolvidas durante a trama: a casa dos Meyerowitz. Matthew, que viveu toda a sua infância ali, quer que Harold venda, juntamente com suas obras de arte. Já Danny não quer que isso seja feito. Ao decorrer do longa, isso toma contornos dramáticos excelentes. As motivações dos irmãos são completamente compreensíveis e fazem total sentido. O que foi abandonado quer manter a única ligação afetiva que tem de sua infância com o pai. No entanto, aquele que teve toda a atenção para si, quer se desprender dos fantasmas que lhe assombram.

O sucesso e o fracasso são apenas pontos de vista distintos dentro da realidade dos Meyerowitz. O personagem de Harold, interpretado de maneira excepcional por Hoffman, sempre se deu importância demais. Percebemos isso claramente nos diálogos, em que ele simplesmente ignora o que os outros estão falando e conta uma história paralela, de seu interesse. Além disso, o patriarca da família crê ser um escultor muito melhor do que realmente é, além de achar que ser artista deveria ser regra entre os Meyerowitz. No final das contas, as atitudes de Harold construíram as personalidades de seus filhos, para o bem e para o mal.

O reflexo que isso tem nos três irmãos é muito bem construído. Em um determinado momento do filme, Matthew diz que Danny recebeu a ira de Harold, Jean não teve nem isso e ele ficou com toda a atenção para si, que também acabou prejudicando-o. Assim, em um contraponto excepcional, Danny se torna um pai extremamente presente na vida de Eliza, dando toda a atenção possível e criando um lindo laço com ela – há cenas tocantes entre os dois. Matthew não tem isso com o seu filho, conversando com a criança por um aplicativo de celular, deixando-o sempre em segundo plano. Já Jean, apesar de ser uma boa pessoa, não teve nem um caminho oposto para seguir, vivendo apenas com os seus traumas internos.

É impressionante como Baumbach consegue tirar exatamente o que precisa do seu elenco. Todos estão excepcionais. O destaque, obviamente, é Sandler, que já provou ser um grande ator de drama nos ótimos Embriagado de Amor, Tá Rindo do Quê? e Reine Sobre Mim. No entanto, aqui, ele dá um passo mais longe, figurando entre as melhores atuações do ano, entregando momentos memoráveis, muitas vezes sem nem precisar falar para entregar o que está sentindo. Hoffman, como sempre, está ótimo e extremamente convincente no papel de Harold. Stiller, que já é parceiro de Baumbach de outras películas, surpreende com o seu Matthew, dando a carga dramática necessária para ele.

Temos também as ótimas Grace Van Patten e Elizabeth Marvel, que mereciam mais destaque, mas são excepcionais quando aparecem. Emma Thompson também está no elenco principal, apesar de ter menos tempo de tela. Interpretando a nova esposa de Harold, a atriz consegue dar vida a uma hippie alcoólatra como ninguém. É sempre um deleite vê-la em cena.

A relação entre os irmãos, quando eles precisam ficar próximos, vai se despindo daquele peso sempre infringido pelo pai e eles vão criando (ou recriando) laços perdidos, em uma união que transcende todas as diferenças. Quando Matthew e Danny se unem para uma vingança contra alguém que fez mal para Jean no passado, é hilário ver dois homens na casa dos 50 anos agindo como crianças levadas – mas, em suas cabeças, bem-intencionadas -, tomando uma atitude que seu pai não teve há muitos anos.

O filme, como citado acima, tem um quê de Wes Anderson e, também, de Woody Allen. Baumbach consegue criar personagens interessantes, estranhos e com profundidade, intercalando drama e comédia, de maneiras bem dosadas. Dividido por várias histórias, o longa faz as transições de maneira interessante, geralmente saltando de uma para outra cortando diálogos – ou gritos – pela metade. É como se o diretor não quisesse que vejamos a pior faceta dos protagonistas, mas deixa uma pontinha ali, para saber que ela existe.

Baumbach cria em Os Meyerowitz uma agridoce história familiar, com momentos engraçados – mas nem tanto – e um drama bem dosado. É uma ótima reflexão sobre relacionamentos de pais, filhos e irmãos. Sobre não repetir os erros do passado. Sobre se desprender das cobranças daquilo que somos, não somos ou poderíamos ser. Enfim, é sobre família e todas as suas particularidades, frustrações, alegrias e maluquices – e isso não se escolhe, como já diz o título brasileiro.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 4/5]

 

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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 25 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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