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Mindhunter – 1ª temporada | Crítica

Mindhunter  – 1ª temporada | Crítica

Mindhunter  – 1ª temporada

Ano: 2017

Criador: Joe Penhall

Elenco: Jonathan Groff, Holt McCallany, Anna Torv, Hannah Gross 

A carreira do David Fincher é, em sua maioria, baseada em sociopatas. O diretor sempre demonstrou fascínio com a frieza e com a falta de empatia de seus protagonistas e criou personagens marcantes como John Doe, Arthur Leigh Allen, Lisbeth Salander, Frank Underwood e Mark Zuckerberg. Com Mindhunter, Fincher volta a trabalhar com serial killers e adiciona um novo sociopata à sua carreira, o agente especial Holden Ford (Jonathan Groff)

No final dos anos 1970, o termo serial killer ainda não era conhecido. Público e polícia não sabiam lidar com essa onda de homicídio cujo assassino não tinha relação com a vítima ou nenhum outro objetivo, como roubo, por exemplo. A sociedade não os compreendia, os categorizavam apenas como assassinos natos ou loucos – isso até os esforços de dois agentes do FBI e uma psicóloga que se dispuseram a entendê-los.

Negociador de reféns, Holden Ford é o melhor do seu trabalho no FBI, mas ele discorda dos seus colegas e superiores que não se importavam com os autores de crimes hediondos, encontrando satisfação apenas em prendê-los e afastá-los da sociedade; Holden queria compreendê-los. A curiosidade do jovem agente o levou a ingressar na psicologia e se juntar ao experiente Bill Tench (Holt McCallany), um experiente profissional do departamento de Ciência Comportamental, que trabalha viajando pelo país para oferecer a policiais locais dicas de como encontrar assassinos.

Como toda dupla policial já vista na ficção, os dois têm personalidades divergentes e não se batem no início. Holden é ingênuo e não vê problema ao entrevistar famosos e temíveis assassinos em série, função que Tench relutantemente aceita. A dinâmica dos dois é bem explorada, Bill com sua experiência tem maior conhecimento de como lidar com pessoas e criminosos ao passo que a dedicação de Ford faz a dupla progredir nos estudos. O terceiro membro da é a doutora Wendy Carr (Anna Torv), psicóloga que quer lançar um livro sobre assassinos perturbados para servir de guia para aqueles que querem capturá-los.

Apesar de não estar trabalhando com os seus usuais colaboradores (a trilha de Trent Reznor & Attticus Ross, bem como a fotografia de Jeff Cronenweth, faz falta), é possível ver o estilo do diretor ao longo da série, desde a paleta de cores frias aos lentos e envolventes movimentos de câmera. A precisão técnica de Fincher se estende à trilha sonora, desta vez realizada por Jason Hill, dando um tom desconcertante às conversas com os assassinos e estupradores. Essas cenas são o ponto forte da série. Cada entrevistado é único e tem seus próprios maneirismos, suas ações são doentias, mas, ainda assim, é possível criar simpatia por algum deles, o que não deixa o diálogo menos tenso.

Os serial killers são terrivelmente interessantes, tanto na sua misoginia quanto nos traumas de infância que os levaram ao lugar onde se encontram hoje. A composição de todos é diferente, mas, de certa forma, similar. Essas conversas também são bastante difíceis, não se sabe até que ponto as informações dadas pelos assassinos são verdadeiras. Apesar de não ter nada a perder, não é possível confiar totalmente neles. Esse jogo mantém a série sempre tensa e empolgante.

E não se engane, Mindhunter não é uma série procedural, mesmo que haja casos a serem solucionados – que dificilmente são o foco -, não há muito mistério a respeito de quem cometeu os crimes, o culpado é sempre evidente e a primeira opção dos agentes. O prazer de assistir reside nos modos que o assassino vai encontrar para se safar durante os interrogatórios e nos métodos empregados pelos investigadores para desmascará-los. Também não há uma única cena de ação ao longo dos dez episódios, o que não faz falta alguma. A série consegue segurar o espectador com diálogos inteligentes, personagens ambíguos e uma trilha digna dos anos 1970.

Os protagonistas são muito bem concebidos. Bill Tench é o clássico policial experiente casca grossa que viu muito durante os anos de carreira,mas ele é muito amigável e, rapidamente, sua relação com o Holden evolui. Um ponto tocante são os esforços dele se conectar com o filho adotivo, que é mudo seletivo, e ninguém sabe o que levou a criança a parar de falar. Mas Bill tenta manter uma boa relação com o garoto, que parece evitá-lo. Outro ponto forte dele, enquanto personagem, é a sua fuga para o golfe sempre que não sabe lidar com algo.

Já Holden Ford é o oposto, sua ingenuidade o faz crescer dentro do FBI, da mesma forma que o torna mais suscetível a ser manipulado. Holden amadurece muito no final da temporada e a sua simpatia com psicopatas se torna alarmante. Ele entende que tem que jogar o jogo deles para conseguir respostas, mas acaba se perdendo por ficar tanto tempo exposto a homicidas e estupradores, fazendo-o cometer erros que colocam a sua carreira e a vida de terceiros em risco, se tornando um personagem totalmente diferente e, acima de tudo, com falta de empatia.

Prometendo bastante para a segunda temporada (inclusive uma possível aparição de Charles Manson), Mindhunter é outra aposta segura da Netflix cujo resultado é altamente satisfatório. Fincher entende do que faz de melhor e não desaponta. Uma pena que ao invés de dirigir uma sequência de Millennium ele vai comandar a continuação de Guerra Mundial Z

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 14    Média: 3.8/5]

 

 

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Estudante de jornalismo, tem 18 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e é adepto ao estilo sul-coreano de vingança.

Comments

  1. Resta saber o que vem desse Guerra Mundial Z, mas vem cá, o que te faz considerar o Holden um sociopata? Não sei se concordo com essa afirmação.

    • Boa noite, Esdras então

      Não sei se você já terminou a temporada mas nos últimos episódios é perceptível ver a mudança do Holden depois de ficar tanto tempo exposto aos serial killers. Não só isso, mas ele entra dentro da mente deles, usa a mesma linguagem para conseguir que eles falam, mimica a misoginia e o ódio deles. Esse tipo de coisa afeta as pessoas.

      E dá pra ver no season finale que ele perdeu o controle de vez, foi super arrogante, discutiu com os seus superiores do FBI e terminou com a namorada, Holden quase não demonstra emoção.Sem contar todo aquele trauma de demitir o diretor da escola e destruir a vida da família do cara.

      Acredito que um dos focos da primeira temporada de Mindhunter é a construção do Ford, que era um ingênuo e brilhante agente, a sociopata.

  2. O que te faz considerar Holden um sociopata? Não sei se concordo com isso.

    Quanto a Guerra Mundial Z, resta saber o que nos espera. Já até cogitei uma piada do próprio Fincher e toda a dificuldade que ele vem enfrentando nos últimos anos com as produtoras e etc

  3. To assistindo e gostando muito, alguns podem reclamar devido à falta de ação ou aprofundamento nos casos surgidos, mas isso nunca me incomodou, os diálogos inteligentes e os choques de opiniões dos protagonistas te prendem

  4. Eu concordo com a noção de sociopatia do Holden. Desde o início percebe-se que ele não está dentro do ‘padrão comportamental’, por assim dizer, e isso só vai se acentuando a medida que a temporada progride. Ele tem um egocentrismo que dá as caras em diversos momentos.

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