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Marvel, Snapchat e a era da efemeridade

Temos que falar: os atuais filmes do estúdio não são feitos para serem revistos!

Marvel, Snapchat e a era da efemeridade

Primeiramente, antes de você me odiar, gostaria de dizer que sou um grande fã do Universo Cinematográfico Marvel. É sério. Mas, mesmo assim, é preciso dizer: os atuais filmes do estúdio não são feitos para serem revistos. E, digo mais, nem é bom que você faça isso.

Podemos usar o Snapchat (ou o Stories, que está mais na moda) como exemplo: cada um dos longas da Marvel é construído para ser devorado na hora, dar muito dinheiro e, após, cair no esquecimento. E nada além disso. No máximo, eles prometem convergir para algo maior, mas que parece nunca chegar. E nem vai.

Não, não pare de ler o texto. O objetivo não é falar mal da Marvel, mas sim procurar entender qual a verdadeira finalidade do estúdio – além do lucro, é claro.

Se observarmos o início do universo criado pela empresa, lá em 2008, com Homem de Ferro –que tem bastante personalidade, diga-se de passagem –, percebemos que ali já não existe um vilão marcante. Não tem nada que nos deixe preso àquele filme, tirando o próprio Robert Downey Jr., o protagonista, que seguiu sendo o rosto principal do MCU.

No entanto, em Thor, Loki, o grande antagonista, caiu nas graças do público. E o que a Marvel fez? Levou ele adiante. Sim, eu sei que o vilão sempre foi muito presente nas HQs e isso faz total sentido. No entanto, outros grandes malvadões da Casa das Ideias foram pasteurizados nos cinemas, sempre entregando algo apenas ok, sem aprofundamento. O motivo? Ser facilmente igualado – ou superado – no próximo filme.

E quando a Marvel compreendeu que esse sistema funcionava, começou a entregar filmes cada vez mais descartáveis. Pegamos os exemplos de Homem-Formiga e Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Dois ótimos longas, quando vistos pela primeira vez. Em menor escala dos demais, mas embalados por personagens carismáticos e muitas piadas sensacionais, as aventuras se mostraram divertidas histórias de origem. No entanto, tudo foi passageiro.

Ao rever cada um dos filmes, o riso já não aparece e a previsibilidade incomoda. Se compararmos o novo filme do aracnídeo com o primeiro, fora do MCU, lá de 2002, sentimos uma diferença enorme. Mesmo assistindo ao longa do Tobey Maguire infinitas vezes, o espectador vai ficar tenso e torcendo pelo protagonista, mesmo já sabendo o desfecho. Há uma emoção duradoura ali, não uma fórmula. Não são algoritmos, são sentimentos.

Não, não estou dizendo que De Volta ao Lar não tenha emoção. Sim, tem. A cena do Peter nos escombros ou a tensão na conversa do carro são ótimos exemplos disso. Mas ela não se sustenta por duas, três vezes. É a mesma coisa que ver aquele snap do padre pop, que pode até ser engraçado na hora, mas perde força depois de algumas vezes, até ser esquecido – e “deletado” da nossa memória. A mesma coisa acontece com Homem-Formiga, Doutor Estranho, Guardiões da Galáxia Vol. 2, Homem de Ferro 2, Thor: O Mundo Sombrio, Capitão América: Guerra Civil, Vingadores: Era de Ultron

Desde que o estúdio encontrou a fórmula de fazer dinheiro e entreter o espectador por duas horas, só quer criar o próximo capítulo engraçado, para levar uma multidão aos cinemas e, depois, virar só uma peça esquecível no seu infinito – e muito bem planejado – caminho para o futuro.

E isso fica ainda mais evidente com a inserção das queridas cenas pós-créditos. Nós nem acabamos de ver o filme e a Marvel já está empurrando mais coisas. É como se dissesse: “gente, isso só é um aquecimento para o próximo, que será melhor”. E o ciclo se repete. Sempre. A empresa não quer reflexão, quer fazer mais longas e, consequentemente, mais milhões de dólares. Nem temos tempo de sentir o que acabamos de assistir.

Agora, vou abrir ainda mais a minha cova e fazer uma insanidade: comparar o estúdio com a Warner/DC. E o objetivo não é dizer qual é a melhor ou não (até porque prefiro a Marvel, mas não vem ao caso), mas os fatos precisam ser evidenciados. A DC, com toda a sua instabilidade e aparente desorganização, está criando um universo muito mais interessante e provocante (gente, eu não disse melhor, longe disso).

Alguém me diz aí qual filme da Marvel provocou discussões por mais de dois ou três meses? Sinceramente, eu não lembro. Agora, até hoje as pessoas discutem sobre O Homem de Aço, que foi lançado lá em 2013. Uma e duas, a conduta do azulão no longa gera intensos debates na internet. E Batman vs Superman: A Origem da Justiça, então? Todos os dias as pessoas falam sobre. Sim, todos os dias tem discussões acaloradas nos grupos do Facebook. E o filme estreou no início de 2016…

Até Esquadrão Suicida consegue movimentar os fãs de quadrinhos – geralmente, é para falar mal, mas é provocador. Mulher-Maravilha, que chegou agora, também já mostrou que tem fôlego para muito tempo de debate. Os filmes da “Distinta Concorrência” se arriscam mais, têm identidade própria, entregam algo além do que duas horas de diversão e risos, mesmo que a qualidade final não seja tão boa (ou seja, isso vai do gosto de cada um).

Agora, alguém ainda fala de Doutor Estranho? Alguma alma lembra da relevância de Thor: Mundo Sombrio? E as discussões sobre o importantíssimo Capitão América: Guerra Civil? Eu, infelizmente, não vejo nada. E sabe o motivo? Não há o que discutir. Até as motivações do Capitão e do Homem de Ferro foram amenizadas em Guerra Civil, tudo para que as pessoas não escolhessem lados, amassem todos, fossem para casa e aguardassem pelo próximo filme.

A Marvel se curvou à essa geração efêmera, que acha que tudo é passageiro e que só importa o agora, assim como as historinhas no Snapchat. É diversão momentânea, mas sem aprofundamento, o que é diferente das mensagens dos quadrinhos, que sempre instigaram a reflexão dos leitores. Não há emergência nos filmes do estúdio, não há necessidade de revisitá-los. É isso não é ruim para quem quer só diversão, mas ficaremos presos para sempre nesse limbo de ansiedade por algo maior que nunca chegará.

Enquanto isso, continuo aguardando pelo próximo filme da Marvel… Afinal, mesmo o estúdio fazendo a gente viver em um eterno teaser, a diversão momentânea que isso proporciona é maravilhosa!

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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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