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Entre Irmãs | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa nacional estrelado por Marjorie Estiano e Nanda Costa!

Entre Irmãs | Crítica

Entre Irmã

Ano: 2017

Direção: Breno Silveira

Roteiro: Patrícia Andrade

Elenco: Nanda Costa, Marjorie Estiano, Júlio Machado, Rômulo Estrela, Angelo Antônio, Letícia Colin

“Eu só abro a gaiola. Se vai ou se fica, é decisão dele”. Esta fala, utilizada por uma personagem como explicação ao ser confrontada por estar soltando os passarinhos da casa de um coronel, ilustra muito bem o que vivem as irmãs Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano), neste que é um dos mais belos filmes que o cinema brasileiro nos apresentou nos últimos anos. Presas à uma vida simples e sem perspectivas, de repente, suas gaiolas se abrem. A partir dali, elas precisam decidir para onde voar.

Entre Irmãs tem um ar épico em diversos aspectos, sejam eles técnicos ou artísticos. Uma fotografia belíssima e uma trilha sonora de tirar o fôlego fazem com que tenhamos uma ideia da grandiosidade do que será visto. Me senti como se assistisse uma espécie de E O Vento Levou ou Era Uma Vez no Oeste, mas com a cara do Brasil, a cara do nosso nordeste. E lá vemos um Brasil de verdade, mesmo que às vezes tão esquecido e desrespeitado. Um Brasil que mostra suas contradições. Paisagens lindas contrastando com a miséria. Homens e mulheres que precisam ser vilões para serem heróis, pois a justiça serve aos ricos às custas dos pobres.

Escrito por Patrícia Andrade e dirigido por Breno Silveira, o filme nos apresenta Luzia e Emília, duas irmãs que vivem com sua tia e trabalham como costureiras na pequena cidade de Taguaritinga do Norte, na década de 1930. Elas vivem na fazenda de um coronel e possuem personalidades bem diferentes. Enquanto Emília é romântica e sonha com um príncipe encantado que a leve daquele lugarejo, Luzia é corajosa e aventureira, e muito apegada à liberdade. Quando um grupo de cangaceiros, liderado por Carcará (Júlio Machado), invade a fazenda onde elas vivem, Luzia é forçada a partir com eles, deixando sua tia e sua irmã para trás. A partir de então, os destinos das duas jovens seguem caminhos opostos, e cada uma precisa enfrentar suas próprias batalhas e amadurecer dentro de sua própria realidade.

É um bom sinal quando um filme tão longo (mais de 160 min) consegue fluir tão bem, não sendo cansativo em nenhum momento. A coesão entre o roteiro, a direção e a montagem são fundamentais para isso. Muitas vezes, os filmes ficam mais longos do que poderiam (ou deveriam) ser, pois algumas cenas acabam servindo como “barrigas” na história. Neste caso, isso não aconteceu. O desenvolvimento das personagens é muito sensível e cuidadoso, e a montagem paralela nos traz uma quantidade enorme de analogias entre os mundos em que cada irmã está vivendo. Esta montagem também acaba por tornar o ritmo do filme agradável e muito funcional, e não cansativo como poderia ser em um filme desta duração. Quando vemos Luzia descobrindo que vai dormir no chão, ao relento, com os cangaceiros, vemos Emília conhecendo seu quarto enorme com lençóis impecavelmente brancos, na casa do jovem que conheceu e com quem se casou. Se vemos Luzia comendo com as mãos, vemos Emília aprendendo com qual taça deve beber água e quais talheres deve usar primeiro na hora do jantar.

Estas diferentes realidades, no entanto, não significam exatamente o que pode parecer em um primeiro momento. A segurança do lar é mostrada diversas vezes como a verdadeira prisão, em planos fechados, escuros ou em tons pálidos. De maneira contrária, ao vermos os cangaceiros, há a sensação de liberdade em grandes planos abertos com uma fotografia linda do sertão nordestino.

A direção de arte do filme é impecável ao apresentar o cangaço e a capital Recife da década de 1930. No sertão, vemos os flagelados da seca, os cangaceiros com suas vestes características, as casas um tanto escuras, iluminadas de dia pelo sol que entra por suas janelas e, à noite, apenas pela luz de velas. Na capital, vemos a modernidade daquele início de século XX. Os automóveis coloridos, as grandes construções, os ventiladores e vitrolas, a novidade da luz elétrica. A ambientação de época é fantástica, e a associação com eventos e personagens históricos nos remete àquele universo. Os figurinos também são cuidadosamente utilizados para nos apresentar personagens, como a sensual Lindalva (Letícia Colin) com seu vestido vermelho, ou mostrar sua evolução, no caso de Emília. Esta chega a Recife frágil e apática, com roupas em tons claros de azul ou amarelo, mas ganha força e amadurecimento com o passar do tempo, sendo representada desta maneira também em suas vestes.

Também é muito eficaz para o nosso envolvimento com a trama, a familiaridade proporcionada pelos eventos e personagens claramente inspirados em situações históricas. No filme, o presidente Tenório Vargas declara guerra ao cangaço, da mesma forma que fez Getúlio durante o Estado Novo. Temos ainda a passagem do Graf Zeppelin pelos céus do Recife. Tudo isso servindo como um excelente pano de fundo que nos contextualiza da época na qual estamos inseridos. E, é claro, Carcará e Luzia lembram muito Lampião e Maria Bonita, inclusive em alguns detalhes bem específicos da história do casal, que valem a pena ser pesquisados por quem tiver curiosidade.

No entanto, tudo isso só provoca o efeito desejado em função do magnífico trabalho do elenco. Marjorie Estiano e Nanda Costa nos entregam atuações fortes e emocionantes. Marjorie mostra uma evolução incrível de sua personagem, que vê seus sonhos desmoronarem ante à realidade. Na cena em que ela sofre uma rejeição inesperada em seus primeiros dias na capital, vemos sutilezas de sua expressão de surpresa e decepção escondidas em um leve e forçado sorriso. Nanda Costa, por sua vez, atua o tempo todo com um braço paralisado por um acidente de sua personagem na infância, e consegue nos passar muito realismo na forma como se adapta àquela condição. Ela realiza todas as suas atividades de forma dificultada, mas jamais se queixando ou utilizando como desculpa para nada. Ela também demonstra muito bem a evolução de sua personagem, desde o momento em que toma coragem e decide aceitar partir com os cangaceiros, até cada aprendizado e adaptação pelas quais precisa passar para se tornar parte do bando. Merece destaque também a atuação de Júlio Machado. Carcará é um homem que vive em um mundo violento, mata quando acha necessário, mas possui um código de ética muito forte. Machado consegue representar isso muito bem ao mostrar doçura em um semblante forte, e autoridade inquestionável em uma voz quase sempre calma.

A direção de Breno Silveira é muito sensível ao realizar rimas visuais ou temáticas em importantes momentos do filme. As irmãs vivem diversas situações parecidas, cujos significados e sentimentos são muito diferentes. Seja a primeira noite de amor com seus homens, o que pensavam em relação a filhos, ou os motivos que as levaram a cortar o próprio cabelo. Além disso, vemos como o ofício de costureira das duas foi importante e as manteve ligadas o tempo inteiro. Em determinada cena, Emília afirma que “ninguém deixa de ser costureira”, e isso realmente é mostrado no destino das duas. Mesmo no pior dos momentos, a “costureira” está lá presente. Inclusive, uma cena de dança ao som de “Por una Cabeza”, de Carlos Gardel, gera uma rima temática muito forte e significativa.

É curioso e triste perceber como alguns “valores” da década de 1930 continuam vivos até hoje. O filme mostra uma sociedade desigual que não enfrenta essa desigualdade e, sim, a alimenta. Mostra um machismo enorme e as mulheres sendo forçadas a se submeter a ele, e como manter as aparências é mais importante do que ser honesto sobre si. Luzia fala em certo momento que os pássaros cantam pra eles mesmos e não para agradar os donos que os aprisionam. E isso faz muito sentido sobre a vida que ambas acabaram levando, e sobre o destino final de cada uma delas.

Nota do crítico:

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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