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Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa escrito e estrelado por Danilo Gentili!

Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola | Crítica

Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola

Ano: 2017

Direção: Fabrício Bittar

Roteiro: Danilo Gentili, André Catarinacho e Fabrício Bittar

Elenco: Bruno Munhoz, Daniel Pimentel, Danilo Gentili, Carlos Villagrán, Fábio Porchat

“Falem mal, mas falem de mim”. Confesso que este é um lema ou uma filosofia de vida à qual eu não consigo entender. Claro que ninguém é perfeito e jamais vai ser, mas vejo como uma obrigação moral de quem passa pelo mundo, tentar dar o melhor de si, não só em benefício próprio, como de toda a sociedade. Já que todos vamos morrer mais cedo ou mais tarde, só o que vai restar de nós é a imagem e a história que deixamos. Essa é nossa imortalidade. Por pensar assim, eu não creio que um dia eu vá compreender o que motiva pessoas como Danilo Gentili a deixarem sua marca na história com as coisas que escrevem e falam diariamente. Falando agora de maneira bem específica, deixar sua marca na história do cinema com este filme chamado Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola.

Escrito por Gentili, André Catarinacho e Fabrício Bittar, que também dirige o filme, a trama nos apresenta Bernardo, um jovem que enfrenta problemas comuns de adolescência, e que um dia encontra um diário antigo escondido no banheiro da escola. No caderno, estão as dicas de como instaurar o caos na escola e acabar com a “ditadura” do “politicamente correto” imposta pelas regras do atual diretor.

Eu realmente não sei dizer o que é pior entre as premissas do filme. Poderia começar dizendo que é bizarra a ojeriza provocada pelo “politicamente correto” em Gentili. Na verdade, este termo é normalmente utilizado para definir falas, termos e comportamentos que não sirvam única e exclusivamente para ofender ou diminuir alguém. Reclamam que não podem chamar negros de macacos, ou debochar de homossexuais, ou colocar apelidos ofensivos em gordos ou qualquer pessoa que não se encaixe nos padrões que o “politicamente incorreto” acredita que deve ser seguido. Ou seja, ser politicamente correto é não ser uma pessoa escrota. E isso, por algum motivo, é considerado ruim.

Mas tudo bem. Vamos considerar que os heróis do filme, politicamente incorretos, fossem então uma espécie de anti-heróis. Vamos aceitar que eles não são perfeitos mas é por eles que nós torcemos. Como o Capitão Nascimento no primeiro Tropa de Elite. Apesar de muita gente ter entendido mal o que o filme queria mostrar, os métodos do Capitão Nascimento não são exemplos a seguir e isso era uma mensagem bem clara. No entanto, não é isso que acontece agora. A ideia de alunos rebeldes cometendo delitos de maior ou menor gravidade na escola não é nem um pouco original. Podemos buscar exemplos desde a nouvelle vague, com Os Incompreendidos, de François Truffaut, passando pelos clássicos da década de 1980 como Curtindo a Vida Adoidado e Porkys, até chegar a filmes mais atuais como alguns do estilo American Pie. Ou seja: nada de novo no front.

O que é novo e é o principal problema do filme é que, entre todos os citados, ele é o único que exalta como positivos, incentiva e justifica estes comportamentos típicos de adolescentes irresponsáveis, imaturos e egoístas. Vamos combinar que são características normais para adolescentes, mas são coisas que costumam sumir quando as pessoas ficam mais velhas. Isso se chama amadurecimento. Mas parece que Danilo Gentili não passou por este processo.

E a verdade é que o filme, tecnicamente, tinha potencial para ser algo bom, ou pelo menos divertido. Os atores Bruno Munhoz e Daniel Pimentel, que vivem os protagonistas, estão muito bem. A estética utilizada nas animações ficou muito legal, lembrando uma versão aprimorada daquelas do Diário de um Banana. Tem o Moacyr Franco e a Joana Fomm! Mais que isso: tem o Kiko do Chaves, Carlos Villagrán! Tem também o Fábio Porchat, apesar dele não conseguir no cinema fazer a mesma graça que faz nas esquetes do Porta dos Fundos. De qualquer maneira, o filme tinha material humano do que poderia extrair algo bom. Mas não fez, porque Gentili resolveu apresentar um panfleto para atacar esta suposta ditadura do politicamente correto por parte daqueles que seus fãs adoram chamar de “geração mimimi”.

Partindo daí, obviamente nada podia dar certo. Afinal de contas, além de participar no roteiro inspirado em seu livro homônimo, o apresentador de TV, autoproclamado comediante, também atua no filme, justamente no papel que representa de forma escancarada e exagerada tudo que ele divulga e propaga diariamente na TV e internet. Sua atuação é tão desastrosa ou pior do que aquilo que ele escreve. Além disso, a total inabilidade de trabalhar a ironia e de criar personagens, faz com que a escola imaginada e reproduzida na tela seja meramente um apanhado dos piores tipos de professores baseados unicamente no senso comum. Algo que chama muito atenção é como o filme decai a partir do momento em que o personagem de Gentili surge na trama. Até mesmo a montagem, que era um dos pontos positivos, muda e se torna ruim na sequência de apresentação do “pior aluno”.

Contando apenas com piadas de baixo nível, típicas de crianças desbocadas de 10 anos de idade, e o uso absurdamente repetitivo do xingamento “cabaço”  (sério, quantos anos tem esse cara?), o filme se torna insuportável para qualquer pessoa com o mínimo de maturidade e discernimento. É inacreditável como ele ainda apela para cenas grotescas, fazendo piadas de extremo mau gosto, como no momento em que faz com que um adolescente masturbe um pedófilo, ou quando, em uma briga, ele coloca o próprio saco escrotal na boca de outro jovem. Sim, isso é mostrado no filme. E por algum motivo aquilo deveria ser engraçado.

Sendo assim, é óbvio que o objetivo do filme jamais foi acrescentar algo, e nem sei se pretende divertir também. Fica muito claro o desejo dos produtores de difundirem um pensamento de que o bullying é uma coisa normal, que todos devem aceitar e revidar na mesma moeda, e que a escola não serve para nada. Sou professor há 11 anos e concordo que a escola precisa ser repensada e sofrer uma grande revolução, mas tenho certeza que a solução para nossa educação não está nos ensinamentos de Danilo Gentili.

Sobre o bullying ser mimimi, bom, um pouco de empatia, maturidade e informação poderiam esclarecer os efeitos que ele exerce sobre algumas crianças. Algumas que, na melhor das hipóteses, simplesmente aguentam o sofrimento durante todo período escolar. Outras que chegam a abandonar os estudos ou desenvolver depressão, muitas vezes levando ao suicídio. Mas qual é o problema, não é mesmo? O importante é zoar com os coleguinhas e ser o engraçadão da turma. Afinal, ele foi chamado de Palmito e não ficou traumatizado. Uau, Gentili, tu és realmente um vencedor.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 4    Média: 3.5/5]

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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Comments

  1. Pelas criticas contra o Danilo Gentili e contra o seu “politicamente incorreto”, este filme deve ser bom, comparado com as bombas de comedia brasileiras POLITICAMENTE CORRETAS, esse deve ser uma “obra prima” de entretenimento e que vontade de rir de VERDADE.

    • Sei lá, Jonata. Não consigo lembrar de uma comédia brasileira que se enquadre naquilo que denominam, de forma pejorativa, como “politicamente correto”. Vejo que as comédias brasileiras estão sim muito fracas. Pelo menos as que chegam ao circuito comercial. E esta agora é um outro exemplo. Em 2017 vi várias comédias nacionais das quais não gostei. De cabeça lembro de: “Internet, o filme”, “Os Penetras” e este “Como se tornar o pior aluno da escola”. Nenhuma delas é “politicamente correta” e são três filmes que em nenhum momento demonstram qualquer preocupação com a qualidade do conteúdo que será oferecido ao público. Muito obrigado por comentar e fique à vontade sempre que quiser opinar por aqui. Grande abraço.

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