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Blade Runner 2049 | Crítica

Confira a opinião de Elaine Timm sobre o longa de Denis Villeneuve!

Blade Runner 2049 | Crítica

Blade Runner 2049

Ano: 2017

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green

Elenco: Ryan GoslingHarrison Ford, Ana de Armas, Jared Leto, Dave Bautista, Robin Wright, Mackenzie Davis

Em 1982, Ridley Scott elevou o romance de Philip K. Dick, “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, a nível cinematográfico e entregou, além de uma obra tecnicamente fantástica, o questionamento que move a trama e nossos mais profundos pensamentos: O que é ser humano? O que me torna um ser humano? Em 2017, Dennis Villeneuve entrega uma continuação, consagrando algo que vai muito além de uma mera sequência, mas a evolução do universo criado por Scott anteriormente, trazendo novamente à tona a questão existencialista que guia o destino de suas personagens.

Na Califórnia de 2049, a possibilidade de que replicantes possam se reproduzir, levam o agente e também replicante K. (Ryan Gosling) a uma investigação que resulta na leitura de si mesmo, buscando por respostas sobre sua existência e humanidade. Ao se deparar com a missão que o incumbe de caçar uma criança proveniente da reprodução entre replicantes, ele indaga a sua chefe de polícia, tenente Joshi (Robin Wright): “Eu nunca cacei alguém que nasceu”.

A partir dessa reflexão, K. se abre para uma série de questionamentos em relação a sua própria identidade. A relação com Joi, (Ana de Armas), uma amante holográfica que se apresenta de acordo com as vontades de seu dono, provoca em K. a vontade de buscar por sentimentos diferentes, se sentindo impotente em relação ás emoções que Joi não tem condições de demonstrar devido sua natureza. A relação entre Joi e K. demonstra o ponto em que Blade Runner é mais persistente em sua proposta emocional. A busca por algo a mais. Ao ser presenteada com uma tecnologia que lhe permite uma certa “liberdade”, Joi desenvolve desejos inerentes a sua nova condição, uma alegoria inteligente ao comportamento humano que mede seus desejos de acordo com o tamanho de sua liberdade física e emocional. Mas se até um aplicativo carrega a possibilidade de se reinventar, o que separa essa inteligência artificial de um raciocínio humano?  A reflexão é contínua.

Ao que tange o quesito técnico, Blade Runner 2049 é uma obra de contemplação absoluta. O crédito é todo do diretor de fotografia Roger Deakins, que eleva o filme a um patamar de grande beleza. Sem perder a essência da obra anterior, Deakins desenha uma metrópole cinza e melancólica contrastada com os coloridos do neon, a megalomania da cidade grande, carros voadores e a solidão de cores quentes do deserto. Um abuso de luzes e sombras muito bem coordenadas com uma lentidão proposital que hora te acalma, hora te deixa tenso.

A trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch não é tão marcante quanto a de Vangellis, que deu a identidade sonora para obra de 1982, mas ainda assim é muito bem executada ao climatizar o expandido universo distópico e os conflitos de seus personagens. Além da trilha instrumental, o longa conta com dois momentos em que a trilha cantada complementa a cena, muito além de sua premissa. Um desses momentos acontece quando uma representação holográfica de Elvis Presley canta um trecho da música “Can’t Help Falling In Love”, minutos após o encontro entre K. e o velho Rick Deckard (Harrison Ford). Após um momento de estranhamento, os dois são centralizados no plano em momento de reflexão e ao fundo Elvis canta o trecho: “some things are meant to be”, ou seja, “algumas coisas estão destinadas a acontecer”.

Blade Runner 2049 é um feito marcante na história do Cinema, pois além de sequenciar, evolui e homenageia a obra de 1982. Mas acima da contemplação visual, está a contemplação filosófica, quando nos são apresentados esses seres criados artificialmente que parecem mais humanos do que os próprios humanos e, parafraseando Sartre, “não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. Eis a condição dos replicantes, tanto na primeira quanto na nova versão, e eles parecem querer entender essa ideia cada vez mais. Nesse ínterim, assistir a Blade Runner 2049 se torna essencial para qualquer fã de Cinema que tenha interesse em se admirar com a beleza da obra e com seu provocativo teor de reflexão. “É uma pena que ela não vá viver… Mas quem vive?”

Nota da crítica:

Nota dos usuários:

[Total: 4    Média: 4.8/5]

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Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

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