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Terra Selvagem | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o longa de Taylor Sheridan!

Terra Selvagem | Crítica

Terra Selvagem (Wind River)

Ano: 2017

Direção: Taylor Sheridan

Roteiro: Taylor Sheridan

Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Kelsey Asbille, Gil Birmingham, Julia Jones, Teo Briones, Jon Bernthal

“Aqui, ou você sobrevive… ou você se rende”, diz Cory Lambert (Jeremy Renner) em um determinado momento de Terra Selvagem, destacando a inospitalidade daquele lugar que, apesar de lindo, não é para qualquer um. Na região, cercada por uma espessa camada de neve e montanhas, as leis do mundo externo não são aplicadas da mesma maneira, transportando o espectador a uma viagem por um velho oeste moderno e gelado, em que a “justiça” prevalece acima do que é certo e do que é errado.

Taylor Sheridan, que vem dos excelentes roteiros de Sicario e A Qualquer Custo, agora, além de escrever a história, dirige Terra Selvagem, seu segundo longa-metragem. E o cineasta, aqui, emprega uma visão mítica do oeste norte-americano, mais precisamente no estado do Wyoming, em que cowboys e índios construíram sua própria sociedade, sobrevivendo por suas regras. A bandeira dos Estados Unidos de cabeça para baixo, logo na entrada da reserva indígena Wind River (título original do filme), em que a trama toda se passa, esclarece a situação daquele lugar.

No longa, Cory, o personagem de Renner, é um agente de Pesca e Vida Selvagem, responsável por livrar aquelas terras de predadores, salvando, assim, os animais indefesos. Sim, ele é o herói, o caçador, o protetor dos mais fracos. E, enquanto fazia o seu trabalho, ele encontra o corpo de Natalie Hanson (Kelsey Asbille), uma jovem indígena. A situação, que já seria pesada o suficiente, se torna ainda pior para o homem, que identifica a moça como amiga de sua filha, morta há três anos – também de maneira misteriosa.

Logo, a agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) é deslocada para o local. E, realmente, a palavra deslocada é a que melhor se encaixa com a situação da jovem. Sendo a mais próxima para atender ao chamado, Jane acaba caindo ali de paraquedas. Nem roupas quentes para enfrentar aquelas baixas e brutais temperaturas a moça tem. Sozinha como a autoridade máxima do caso, ela, que demonstra sua inexperiência, apesar de ser uma mulher forte e segura, resolve pedir ajuda a Cory, que aceita ser seu guia naquelas terras hostis.

É interessante notar que Olsen e Renner, colegas em Vingadores, criam uma boa química na tela, mas o diretor não cai na mesmice de tornar isso algo apelativo. Ela, em seu papel mais adulto até aqui, está muito bem em cena. Sua atuação entrega tudo aquilo que sua personagem pede, apesar de não ser tão exigida. Renner, por sua vez, mostra novamente que é, sim, um grande ator, com ótimos diálogos e silêncios ainda melhores. Não há qualquer momento em que não se acredite na dor de seu personagem. Sem dúvidas, a força principal do longa.

Falta, no entanto, um aprofundamento no drama principal do filme: a morte de Natalie. A inserção da família da jovem, apesar de render ótimos momentos entre o patriarca Martin (Gil Birmingham) e Cory, não demonstra a gravidade da situação. Tudo é resolvido com muita rapidez, liberando espaço para a investigação. Apesar de ficar tudo evidente, falta uma ligação mais forte entre o assassinato, o pai de Natalie e Cory, que é o encarregado de vingar aquele crime. O personagem de Renner tem que criar esse elo sozinho. Sim, sabemos que aqueles são homens de poucas palavras e sentimentos reprimidos, mas a história pedia algo mais.

Há, também, em um momento-chave do longa, a inserção de um único flashback. Mesmo sendo essencial para a conclusão da história, dentro do contexto apresentado por Sheridan, o recurso fica completamente deslocado, quebrando o ritmo e causando estranheza. Apesar desse deslocamento narrativo aumentar o impacto do clímax, soa gratuito e desleixado, como se não soubessem o que fazer com aquele trecho do filme e, por isso, enfiaram de qualquer maneira ali.

Apesar dessas inconsistências, a trama apresenta uma narrativa interessante, como o clima de tensão que vai crescendo em meio a uma investigação lenta, porém interessante, e acaba culminando em uma inesperada rajada de violência. Tudo refletido por um pano de fundo que expõe a invasão do homem branco a terras que não lhe pertencem, com sua insaciável sede de tomar tudo o que há em sua volta, sempre agindo com a arrogância de quem acha que é dono daquilo em que toca.

Terra Selvagem, que é baseado em fatos, se destaca por apontar para problemas emergenciais, como o desamparo às mulheres indígenas, que desaparecem e o governo sequer as contabiliza. E o roteiro preciso de Sheridan, além de sua direção firme e que, facilmente, cria uma atmosfera de desolação, consegue passar uma poderosa mensagem de maneira concisa. Seja com diálogos bem estruturados, uma vastidão inóspita de gelo ou um olhar perdido em um sofrimento que jamais vai embora, o cineasta sabe o que quer mostrar na tela – e faz isso muito bem.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 4.3/5]

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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

Comments

  1. Rio de Vento é um filme razoavel, pois como é produzido dentro dos USA toca no assunto native american como muita sutiliza e sem maiores detalhes. É uma pena que acaba transformando-se em uma narrativa de brancos sobre situações acontecidas por pessoas da comunidade indigena, como sempre preconceituosas e superficiais.

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