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Kingsman: O Círculo Dourado | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre a sequência do sucesso de 2014!

Kingsman: O Círculo Dourado | Crítica

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle)

Ano: 2017

Direção: Matthew Vaughn

Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn

Elenco: Taron Egerton, Colin Firth, Mark Trong, Hanna Alström, Julianne Moore, Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal

Todo filme é uma forma de expressão de ideias. Mal ou bem, ele passa uma mensagem. Por costume, esperamos encontrar reflexões mais profundas em dramas, ou filmes de ficção científica, enquanto filmes de ação ou comédia muitas vezes (ou na maioria delas) possuem histórias mais superficiais focadas unicamente na diversão. No entanto, é possível sim fazer filmes divertidos e que promovam questionamentos e novas visões sobre determinado assunto. Kingsman: O Círculo Dourado tentou fazer as duas coisas, entregou uma de forma relativamente satisfatória, e acabou dando na trave na outra.

Escrito por Jane Goldman e Matthew Vaughn, que é também diretor do filme, a história agora inicia com Eggsy (Taron Egerton) já como um agente bem mais experiente que, após a destruição do quartel-general do Kingsman e o assassinato de vários outros agentes, precisa se aliar com uma organização igualmente secreta localizada nos Estados Unidos, para enfrentar uma ameaça global.

Após o sucesso de Kingsman: Serviço Secreto (2014), era de se esperar que logo viessem continuações. E, como sempre, ficava a dúvida: será que o segundo filme vai conseguir manter a qualidade do primeiro? O curioso neste caso é que ele conseguiu manter a qualidade (e talvez até melhorar) na parte mais difícil que é o roteiro, e decaiu bastante no que seria natural que se mantivesse ou melhorasse, que é a direção.

Não que o roteiro seja uma maravilha. Não é. Mas o primeiro filme também possuía muitos problemas neste quesito, mas a insanidade das cenas de ação compensou muito, tornando-o extremamente divertido. Esta continuação, adicionou bons personagens, uma ameaça aceitável dentro do universo onde se passa a história e, principalmente, duas discussões muito importantes: uma delas é relativa ao combate às drogas, e a outra, abordada de leve, sobre a luta das mulheres para conquistarem igualdade em uma sociedade dominada pelos homens. Seria fantástico um filme de ação tão divertido colocar estes assuntos na pauta, se não tivesse sido de maneira tão equivocada.

No caso da discussão sobre os direitos das mulheres, é o típico caso do “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”. O primeiro Kingsman foi extremamente machista ao escantear uma agente mulher do momento mais importante do filme, sendo que ela havia provado antes ser muito mais eficiente do que o protagonista. Pior ainda foi o “prêmio” oferecido a ele pela princesa da Suécia (que recém o havia conhecido) por ter salvo o mundo. A continuação repete este comportamento. Personagens femininas totalmente escanteadas, indefesas ou submissas e, quando surge a discussão sobre a desigualdade de tratamento entre homens e mulheres, ela praticamente some, e segue tudo como sempre foi.

Sobre a guerra às drogas, o filme levanta em diversos momentos a discussão sobre o que está por trás da criminalização da venda e do uso de entorpecentes. Mesmo quando o tema é abordado pela vilã, que é uma mega-traficante, ele é abordado com bons e reais argumentos. Sem contar que as falas do presidente dos Estados Unidos no filme são o que podemos chamar de “sincericídio”. Por isso, é incompreensível que, justamente no final, alguns diálogos dêem uma ideia exatamente oposta do que foi falado até então, deixando uma mensagem um pouco confusa e que, me pareceu, totalmente intencional. A impressão que deu foi a que os realizadores não quiseram se comprometer com aquele discurso tão libertário. Sendo assim, mesmo o filme tendo se proposto a provocar uma reflexão, foi um tanto quanto covarde na sua conclusão.

No que diz respeito à direção, o maior problema está na dinâmica das cenas de ação, algo que realmente surpreende vindo de Vaughn, responsável por momentos memoráveis em Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010) e Kingsman: Serviço Secreto. Logo no início do filme, há uma luta violenta dentro de um pequeno carro, que se torna absolutamente confusa pela velocidade dos movimentos dos personagens e da câmera. Se voltarmos menos de dois meses no tempo, veremos Atômica com uma cena semelhante, mas sem dúvida, muito melhor dirigida. Existem algumas lutas que funcionam um pouco melhor, mas nenhuma chega perto do que foi feito na cena da igreja no filme anterior, por exemplo.

A direção de arte é um dos pontos altos do filme. Tanto os agentes da Kingsman quanto seus aliados da Statesman estão muito bem caracterizados. Se os ingleses são finos cavalheiros, os estadunidenses fazem mais o estilo caubói. As armas utilizadas por eles, em especial o laço elétrico, funcionam muito bem dentro daquela realidade dos agentes secretos com armas super tecnológicas. Poppy, a vilã do filme vivida por Julianne Moore, e sua base com uma estética um tanto quanto peculiar, criam uma atmosfera perfeita para o combate surreal que se passa lá. E quando falo surreal, não falo apenas dos equipamentos e habilidades incríveis dos agentes, mas também de algumas participações bem inesperadas. O vermelho, que domina tanto os cenários do esconderijo quanto o figurino da vilã, indica o quão violenta é aquela mulher, que não pestaneja em literalmente triturar seus inimigos ou alguém que a desagrade, e que exige de seus “seguidores” que realizem uma dolorosa (mas bem criativa) transformação.

É uma pena também que, como no seu antecessor, Kingsman: O Círculo Dourado insista em desperdiçar bons personagens os eliminando muito cedo, ou simplesmente esquecendo deles em algum canto escondido da trama. Unindo isso à covardia de se discutir de forma honesta os temas que se propôs a abordar, a impressão que fica é que, apesar de funcionar como filme de ação, entregou bem menos do que poderia. Quem sabe no próximo?

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 1.5/5]

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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