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Divórcio | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa nacional estrelado por Murilo Benício e Camila Morgado!

Divórcio | Crítica

Divórcio

Ano: 2017

Direção: Pedro Amorim

Roteiro: Paulo Cursino, Angélica Lopes

Elenco: Murilo Benício, Camila Morgado, André Mattos, Márcia Cabrita

 É claro que ninguém possui a receita milagrosa para produzir um filme maravilhoso. Grandes diretores, roteiristas, atores e atrizes já participaram ou realizaram obras de qualidade um tanto quanto duvidosa e nem por isso devem deixar de ser reconhecidos pelos ótimos trabalhos dos quais fizeram parte anteriormente ou que farão depois. No entanto, é muito mais fácil prever quando um filme tem grandes chances de dar errado. E, infelizmente, Divórcio parece ter se esforçado para preencher vários requisitos para que isso acontecesse.

Se analisarmos o currículo do roteirista Paulo Cursino, algumas vezes sozinho e outras acompanhado da co-roterista do filme Angélica Lopes, vamos encontrar exemplares das piores comédias que o Brasil lançou no circuito comercial nos últimos anos, como De Pernas para o Ar (2010), Até que a Sorte nos Separe (2012) e O Candidato Honesto (2014). Isso sem citar alguns trabalhos mais antigos como os pavorosos filmes do Didi e episódios de séries de TV também de humor questionável. O diretor, Pedro Amorim, possui pouca experiência no cinema, e muito pouco poderia fazer com o material que recebeu.

Divórcio conta a história de Júlio (Murilo Benício) e Noeli (Camila Morgado). Ela era a filha de um rico fazendeiro de Ribeirão Preto que é “salva” por Júlio de um casamento arranjado, e os dois fogem para viverem seu amor. Para se sustentar, o casal passa a fabricar molho de tomate caseiro e acabam abrindo uma fábrica que faz muito sucesso e se torna a maior indústria do país nesta área. Anos depois, vemos os dois com muito dinheiro, duas filhas, mas em um casamento infeliz. O distanciamento e o egoísmo de Júlio fazem com que Noeli decida pedir o divórcio e, a partir daí, os advogados dos dois transformam uma separação relativamente pacífica em uma verdadeira guerra. Eu ouvi alguém comentar Guerra dos Roses? Pois então. O roteiro parece ter uma não tão leve inspiração neste filme de 1989.

O maior problema não é esta inspiração em um filme antigo. Isso é mais do que comum. Muitos filmes se inspiram em outros bem mais recentes e às vezes até funcionam. O grande problema é, sem dúvida, tentar simplesmente transpor para a tela de cinema o tipo de humor e atuações que o público está acostumado a ver na TV. Não tenho dúvidas de que Divórcio vai agradar a muitos fãs de seriados como Sai de Baixo e Sob Nova Direção, entre os quais eu não me incluo. A questão final é: não acrescenta em nada, nem por qualidade, nem por originalidade e muito menos como linguagem.

Se algo merece destaque na direção de Pedro Amorim é sem dúvida as cenas de ação (que talvez seja uma palavra forte), em especial em dois momentos nos quais vemos carros em alta velocidade por entre as plantações de tomate. Um esforço admirável para oferecer algo emocionante para o público. De resto, é uma sucessão de equívocos que passa desde a construção dos personagens até as vergonhosas atuações tanto dos protagonistas como de praticamente todo o elenco de apoio.

Murilo Benício e Camila Morgado já provaram em outros momentos que não são desprovidos de talento. Muito pelo contrário, possuem bons trabalhos tanto na TV quanto no cinema. Por isso, é quase incompreensível o que vemos em seus Júlio e Noemi. Vamos começar por Júlio. Murilo Benício consegue nos apresentar um novo tipo de problema de continuidade: a falta de continuidade de trejeitos. De uma cena para outra, Júlio muda de personalidade, de sotaque e até de tiques (todos absolutamente forçados, diga-se de passagem). Parece ter feito sua composição misturando todos os personagens “cômicos” (com aspas bem importantes) que viveu nas novelas da TV. E se alguma vez ele teve timing para as piadas, bom, ele passou longe de relembrar estes momentos.

Já Camila Morgado consegue ter alguns momentos mais inspirados. Infelizmente, o exagero em mostrar Noemi tropeçando ou se desequilibrando pelo menos uma dezena de vezes durante o filme, torna-se um artifício constrangedor para arrancar risadas do público. Isso porque, se a intenção era mostrar ela como uma pessoa “desastrada”, esta característica não aparece em nenhum outro momento. Bem pelo contrário. Ela é, inclusive, uma atiradora muito talentosa. A habilidade com armas não combina muito com uma pessoa atrapalhada.  E se estes desequilíbrios e tropeços são feitos justamente para se contrapor à paixão dela por sapatos caros (os quais ela sequer saberia usar), o que eu imagino que seja, a artificialidade com que eles ocorrem sugere muito mais uma comédia pastelão, tal qual o extintor de incêndio da Turma do Didi, do que algo mais interno e profundo.

Algo que poderia passar batido se o filme ajudasse, mas acaba ressaltando o desleixo da produção, é a maquiagem (ou falta dela) para mostrar os personagens no passado e no presente. O Júlio quando “jovem” (as aspas são fundamentais neste texto) resume-se ao Murilo Benício com um cabelo bagunçado e a pele à la Donald Trump, mas com todas as rugas que o personagem mantém quando mais velho. Noemi está absolutamente igual no passado e no presente, mudando apenas a roupa. E a cereja do bolo é o pai de Noemi que parece mais jovem no presente do que na cena do passado.

Sendo assim, Divórcio acaba sendo outra comédia caça-níqueis que serve como argumento para as pessoas que detestam o cinema nacional, até por terem pouco acesso às obras mais relevantes que produzimos ano após ano e que, muitas vezes, passam batidas pelos cinemas.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 2.5/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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