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Feito na América | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o novo filme de Tom Cruise!

Feito na América | Crítica

Feito na América (American Made)

Ano: 2017

Direção: Doug Liman

Roteiro: Gary Spinelli

Elenco: Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sarah Wright, Jesse Plemons, Caleb Landry Jones, Alejandro Edda

Nem só de correria vive Tom Cruise. Quando vemos que o ator vai estrelar uma nova produção, já o imaginamos na sua tradicional corridinha fugindo de monstros, alienígenas ou de espiões e assassinos. E se, normalmente, seus filmes vêm recheados de ação, mas carentes de conteúdo, Feito na América quebra esta escrita, e consegue entregar uma obra elucidativa apesar do ritmo frenético que é perfeito para ilustrar uma fase surreal da vida de Barry Seal, o protagonista da trama.

Escrito por Gary Spinelli e dirigido por Doug Liman, o filme é baseado na história real de Seal (Cruise), um piloto da TWA que é contratado pela CIA para fazer voos de espionagem na América Central durante a Guerra Fria, mas acaba se envolvendo com o Cartel de Medellín e utilizando suas informações privilegiadas sobre as rotas aéreas não vigiadas para traficar cocaína da Colômbia para os Estados Unidos. É uma situação tão surreal que parece totalmente fictícia, mas, por mais incrível que pareça, esses são os fatos reais da história.

Spinelli deve ter aberto um largo sorriso quando descobriu o material que teria para escrever este roteiro. A realidade já era mais do que suficiente para se contar uma boa história. É difícil saber o quão próximo da realidade estão alguns fatos, mas a verdade é que eles funcionaram muito bem no filme. Feito na América traz informações, de maneira didática, de como os Estados Unidos interferem em países distantes nos quais eles possuem interesses, sejam estes políticos ou econômicos, utilizando-se de métodos ilegais desde que seja para ajudar “os mocinhos”.

O título do filme acaba mostrando exatamente o que é Barry Seal: uma criação da política externa norte-americana. Ele evolui de um mero piloto de aviões comerciais, que contrabandeava uma ou outra caixa de charutos cubanos, para se tornar simplesmente o homem que alavancou praticamente sozinho o poder e alcance do Cartel de Medelín, que na época ainda era apenas formado por aquilo que ele chamou de “homens de negócios”.  Sobram algumas pontas soltas no roteiro, como personagens que são apresentados e simplesmente desaparecem, ou a falta de desenvolvimento das consequências de algumas situações (a morte de um personagem, por exemplo, é tratada com mais naturalidade do que deveria). No entanto, estes furos não chegam a prejudicar a história, pois pouco interferem na trama principal, apenas soando um pouco estranhas ou desnecessárias.

Diferente da maior parte das produções cujas histórias se passam nos anos 1980, dessa vez as músicas características da época não são utilizadas para embalar momentos importantes e sequer nos situar no tempo. Em vez disso, a estratégia foi fazer um competente trabalho de direção de arte, que desde os figurinos até as locações e objetos cênicos, nos insere perfeitamente naquele final de década de 1970 e início da década de 1980. Outro recurso bem explorado são os programas de TV, em especial os discursos de Ronald Reagan. Além disso, já desde o logo da Universal, a imagem muda e os créditos ficam com aquela aparência de fitas VHS.

Cruise compõe seu personagem com uma constante expressão de incredulidade sobre as situações que se passam com ele. O recrutamento por parte da CIA, o encontro com os traficantes colombianos, as novas missões que recebe, as quantias absurdas de dinheiro com as quais precisa lidar. Tudo parece acontecer de uma maneira inesperada e que ele vai apenas seguindo a maré, até se transformar no “gringo louco” que resolve as coisas para todo mundo, influenciando diretamente no contexto político da América do Sul e América Central e sua relação com os Estados Unidos.

No resto do elenco acabamos vendo poucos destaques. A esposa de Barry, Lucy (Sarah Wright), não tem o desenvolvimento adequado, pois não se percebe exatamente o momento no qual ela passa a aceitar a nova vida do marido. Caleb Landry Jones interpreta JB, irmão de Lucy, e seu jeito “esquisitão”, que não deixa claro se é sequela de drogas ou algum problema mental, funciona muito bem no desenvolvimento da narrativa. Se Domhnall Gleeson, deixa seu Schafer, o agente da CIA que recruta Barry, um tanto quanto unidimensional nos tons sarcásticos e bem humorados o tempo todo ao lidar com qualquer situação, o mesmo não pode ser dito de Alejandro Edda. Este compõe seu Jorge Ochoa de forma inicialmente enigmática. Não sabemos suas reais intenções no início. E mesmo quando já o vemos como “aliado” de Seal, em nenhum momento se tem a segurança de até onde vai essa amizade.

A direção de Doug Liman é eficiente em acompanhar praticamente o tempo inteiro o protagonista e suas reações ao que acontece ao seu redor. Assim, nos colocamos quase todo o tempo no lugar de Barry em meio às situações de perigo nas quais ele se envolve e, através de cortes rápidos ou uma instável câmera na mão, percebemos a sua urgência e desespero nestes momentos. Com cenas que remetem a O Lobo de Wall Street, Narcos e até mesmo Breaking Bad, o diretor nos mostra de maneira bem-humorada quase todo o tempo esses bastidores sujos da política externa americana.  Além disso, brinca com a famosa ignorância estadunidense em questões geográficas como ao mostrar Seal confundindo a Nicarágua com El Salvador.

Com algumas sequências muito divertidas, como em uma aterrisagem pouco usual de um avião, e tratando com leveza algumas situações de perigo, Feito na América se torna um filme com potencial para agradar um público bem amplo, desde aqueles que gostam de uma aventura com conteúdo até aqueles que só querem se divertir e dar risadas.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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