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Como Nossos Pais | Crítica

Confira a opinião de Elaine Timm sobre o longa de Laís Bodanzky!

Como Nossos Pais | Crítica

Como Nossos Pais

Ano: 2017

Direção: Laís Bodanzky

Roteiro: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi

Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri

Transgressão. Ação humana de atravessar, ultrapassar, exceder. Em Como Nossos Pais, o ato de transgredir provoca a protagonista a transbordar-se em si mesma, causar uma ruptura no mundo a sua volta e não mais se conter diante daquilo que até então lhe parecia suportável. Esse é o cerne da obra mais recente de Laís Bodanzky, cineasta que, além de dirigir, assina o roteiro em parceria com Luiz Bolognesi.

O grande trunfo de Como Nossos Pais é abordar um tema simples, mas que revela complexidade quando é exposto num contexto provocador e redentor. Todos os fatores ali representados, que oprimem e causam desconforto, acabam se tornando uma catarse na vida da protagonista. Essa abordagem inteligente e estratégica está atada principalmente aos brilhantes trabalhos de direção, atuação, fotografia e roteiro.

Quando Laís Bodanzky nos apresenta, logo na abertura, um típico almoço na casa da matriarca da família, ela está nos convidando à identificação. Esse sentimento é cultivado no espectador através de uma série de elementos que trazem naturalidade para as cenas, como quando o burburinho das crianças é deixado vazar enquanto os adultos conversam, ou o barulho da chuva ouvido de dentro da casa, o tilintar dos talheres, o recolhimento das louças, o espaço para o improviso, são todos elementos que nos aproximam das personagens. É bem possível que, em certo momento, o espectador se esqueça de que está assistindo a um filme, tamanha a sensação imersiva que a obra provoca.

Quando gerada a identificação, Bodanzky nos apresenta Rosa, essa mulher de 38 anos, esmagada pela família, pela carreira e por si mesma. Maria Ribeiro é uma força, do inicio ao fim. A atuação é intimista, orgânica, empática e segura. Emociona até quando é apenas uma silhueta no escuro, como na cena em que Rosa põe as filhas para dormir. Apenas essa silhueta no silêncio e uma tristeza que não precisa ser vista para ser sentida. Então, toda essa pressão vai se dissipando com o desconstruir da personalidade, e é com um domínio preciso das emoções de sua personagem que Maria transborda a Rosa que irá segui-la até o fechamento do filme.

Para reforçar a sensação de sufocamento da personagem, a fotografia constrói planos em que Rosa está sempre posicionada entre dois objetos, contraída, escanteada na tela, enquanto os homens aparecem em planos abertos ou com boa parte do plano para si. O roteiro de Laís é fluente e se desenvolve no ritmo do desdobramento de sua protagonista e, mesmo que o tempo tenha sido pequeno para a solução de tantos conflitos gerados pelo tema central, a narrativa se mantêm coerente, apenas com deslizes no que se diz respeito ao desenvolvimento de alguns pontos que ficam perdidos na densa poeira que envolve os conflitos de Rosa.

Quando sobem os créditos, tem-se a certeza de que esse é um filme acima de tudo humano, preocupado em desconstruir conceitos, aliviar angústias e causar transformação, seja ela como for. E, assim como na canção de Belchior que dá nome ao filme, dói perceber que, apesar de tanta resistência, acabamos por repetir comportamentos antigos, cultivados por outras gerações, mas é aí que Como Nossos Pais entrega sua essência transgressora, porque Rosa é uma personagem muito mais forte do que o atavismo imposto pelo tempo e tem coragem e verdade para atravessar. Um filme inquietante, sincero e necessário.

Nota da crítica:

Nota do usuário:

[Total: 1    Média: 5/5]

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Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

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