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Polícia Federal – A Lei é Para Todos | Crítica 2

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa da Operação Lava Jato!

Polícia Federal – A Lei é Para Todos | Crítica 2

Polícia Federal – A Lei é Para Todos

Ano: 2017

Direção: Marcelo Antunez

Roteiro: Thomas Stavros, Gustavo Lipztein

Elenco: Antonio Calloni, Flávia Alessandra, Marcelo Serrado, Ary Fontoura, João Baldasserini, Bruce Gomlevsky, Rainer Cadete, Roberto Birindelli, Leonardo Franco

Um dos maiores defeitos que um filme pode ter, algo que por muitas vezes o torna realmente ruim, é desrespeitar a inteligência do seu público. E ainda pior do que ser ruim, é ser desonesto. Polícia Federal: A Lei é Para Todos consegue preencher ambos os requisitos e ainda outros mais, que tornam algo próximo ao repugnante a experiência de assisti-lo.

Escrito por Gustavo Lipsztein e Thomas Stavros e dirigido por Marcelo Antunez, o filme trata de maneira ficcional com ares de reconstituição do Fantástico os bastidores da Operação Lava Jato, desde o seu surgimento um tanto quanto “ao acaso” até a condução coercitiva do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Não é de hoje que o cinema é utilizado como ferramenta de propaganda ideológica. É uma prática comum desde Sergei Eisenstein e seu A Greve (1925), passando por Leni Riefenstahl com O Triunfo da Vontade (1935) até os documentários de Michael Moore como Tiros em Columbine (2002) ou Fahrenheit 11/09 (2004) e os mais recentes Uma Verdade Inconveniente (2006), de Davis Guggenheim, e Cowspiracy (2014), de Kip Andersen, só para citar alguns poucos exemplos. Ou seja, não é novidade e nem desmerece a obra simplesmente por ser panfletário. No entanto, uma coisa é fundamental: o autor deve ter a hombridade de assumir sua postura ideológica e defender seus argumentos de forma clara e honesta. No momento em que ele se esconde sob um manto de pretensa imparcialidade para disfarçar a intencionalidade da mensagem que está transmitindo com sua obra, mostra-se covarde e manipulador com o público que vai prestigiar o seu trabalho.

Poucos meses atrás assisti O Dia do Atentado (2017) e precisei avaliar o filme de forma muito distinta entre a forma e o conteúdo. Se ele funcionava relativamente bem como um filme de ação, pecava demais na sua propaganda ideológica e preconceituosa. Já em Polícia Federal: A Lei é Para Todos, pouco se salva de elogiável mesmo na sua forma, o que deixa muito claro que o filme possui um objetivo muito claro: deixar registrado na história apenas uma versão dos fatos.

O filme possui tantos equívocos que é difícil saber por onde começar. Vamos então “começar pelo começo”. Somos de cara apresentados a uma Polícia Federal em ação atrás do doleiro Alberto Youssef. A sede da Polícia Federal parece inspirada na UCT do Jack Bauer (aquele da série 24 Horas), mas aqui ela é comandada pelos Três Patetas. Um pouco pelos diálogos forçados no contato durante a missão, mas mais ainda pela ação de busca a Youssef que, se ocorreu como demonstrada na tela, deveria gerar a demissão de todos os envolvidos pela mais absoluta incompetência. Teve ligação por engano para o quarto do doleiro, teve sirenes ligadas em plena madrugada até chegar na porta do hotel de Youssef para, apenas ali, tentarem agir com descrição, teve invasão em um quarto vazio sem deixar ninguém cuidando das saídas do hotel e, depois disso tudo, a prisão obviamente ocorrer por mera sorte. Ou seja: o filme falha miseravelmente ao tentar transformar uma ação super simples em uma grande e empolgante aventura.

Inclusive, esta forçação de barra é uma constante. Cada empresário ou político poderoso preso sai com frases de efeito sem nenhuma naturalidade. Creio que a única sequência na qual o que víamos na tela era compatível com a emoção que tentavam nos fazer sentir foi a da perseguição ao caminhão de “palmitos”. Mesmo assim, a sequência conta com momentos que são meio difíceis de engolir, e que me surpreenderia demais se tiverem acontecido daquela maneira na vida real. No resto do tempo, o diretor tenta constantemente nos passar uma falsa sensação de urgência e tensão, seja através da montagem, seja através da trilha sonora absolutamente exagerada.

Se já houve desonestidade intelectual no roteiro, na montagem, na direção e na trilha sonora, é óbvio que as atuações não deixariam por menos. É sintomático perceber que absolutamente todo o elenco principal do filme se manifestou politicamente nos últimos anos e, obviamente, com posições ideológicas completamente condizentes com a propagada no filme. Fico imaginando a seleção de atores sendo feita através das fotos postadas no Instagram dos artistas, com camisas da CBF ou abraçados a Tucanos.  E o trabalho dos atores está, no mínimo, constrangedor. Flávia Alessandra e Antônio Calloni parecem ter esquecido que não estavam em uma novela das oito e mantiveram-se presos aos personagens que fazem costumeiramente na TV. Marcelo Serrado tentando imitar os trejeitos do juiz Sérgio Moro atualizou o termo vergonha alheia. Imitou muito bem, é verdade. Só que esqueceu de atuar ao mesmo tempo.

Existem outros personagens secundários ainda piores que nem vale a pena citar. O destaque positivo de atuação vai para Ary Fontoura, que interpreta Lula. Não por ter ficado parecido, pois não ficou. No entanto, ele criou um Lula digno dos mafiosos italianos ou líderes de cartéis mexicanos, daqueles que todos sabem que é um bandido perigoso, mas é respeitado e admirado mesmo assim. De uma maneira geral, as atuações irritam não só pela falta de qualidade mas pela falsidade de um suposto respeito e até veneração dos personagens pelo ex-presidente Lula por parte de todos os integrantes da operação Lava Jato e até do próprio juiz Sérgio Moro, que se mostra dividido e até receoso em tomar as atitudes que levam à investigação. Sem falar na forma patética como dão um tratamento de prova conclusiva a elementos interpretativos.

Polícia Federal: A Lei é Para Todos é desonesto até no título. Qualquer brasileiro sabe que a lei não é igual para todos. Basta ver que um manifestante está preso há anos por carregar uma garrafa de Pinho Sol enquanto um helicóptero carregado de cocaína é esquecido pela imprensa e pela justiça. É sintomático também perceber que o único partido envolvido nas delações e que não é citado no filme é justamente aquele com o qual o juiz Sérgio Moro possui uma ligação mais íntima. Mesmo na cena pós-créditos (sim, há uma cena pós créditos), ignora-se os envolvidos nela. Será que isso mudará em uma possível continuação? O que fica bem claro é que este é um filme que obrigatoriamente necessitaria de um distanciamento histórico para ser realizado. É fundamental se averiguar muitas coisas e esperar o julgamento do tempo. Fazer o lançamento do trailer  “coincidentemente” no dia que sai a sentença de Moro sobre o caso do Triplex não soa nem um pouco natural. Agora o lançamento do filme ocorrendo no dia 7 de Setembro é um convite a termos centenas de patos de borracha sentados nas salas de cinema de todo país.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 5    Média: 1.2/5]

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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