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O Acampamento | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre esse suspense australiano!

O Acampamento | Crítica

O Acampamento (Killing Ground)

Ano: 2016

Direção: Damien Power

Roteiro: Damien Power

Elenco: Harriet Dyer, Ian Meadows, Aaron Glenane, Aaron Pedersen

Sabe aquelas noites de sábado nas quais tu não tem absolutamente nada para fazer? Para piorar, o teu pacote de TV a cabo é o mais simples e tem mais canais de igreja ou compras (muito semelhantes, diga-se de passagem) do que com algum conteúdo interessante. Não bastasse isso, a senha da Netflix que teu amigo te empresta está ocupada por muitos usuários no momento e tu não consegue acessar. O que resta? Assistir o Serginho Groisman. No intervalo, tu descobre que a seguir, no Supercine (ou seria Sessão de Gala, não sei mais) vai passar um suspense sobre um casal que vai acampar e acaba se deparando com dois psicopatas. Tu assiste, curte o filme, e no dia seguinte nem lembra do que viu. Bom, O Acampamento, um filme australiano de 2016 que está chegando agora aos cinemas brasileiros, é mais ou menos isso.

Escrito e dirigido por Damien Power, o filme nos apresenta o casal Sam (Harriet Dyer) e Ian (Ian Meadows), já a caminho de um local isolado na floresta para acampar na noite de reveillón. Chegando lá, eles percebem que não foram os únicos a ter esta ideia, pois já existe um acampamento montado no local. No entanto, tudo fica estranho quando eles percebem que durante o dia inteiro não viram ninguém na barraca ao lado, e com o tempo, surgem alguns visitantes inesperados que, como costumamos escutar nos comerciais do Supercine: “transformam a vida do casal em um verdadeiro inferno”. Sendo assim, Ian e Sam “vão enfrentar a maior barra” para tentar sobreviver.

O roteiro escrito por Power não é ruim. A história tem lógica, é bem explicada, não deixa muitos furos. Os grandes problemas dele são dois: em primeiro lugar, o desenvolvimento dos personagens é quase nulo. Pouco ou nada sabemos sobre eles e suas motivações. Sendo assim, a única personagem que acaba tendo uma evolução notável é Sam, que demora bastante para mostrar que é a protagonista do filme. E é incrível como o filme melhora e cresce em tensão quando esse protagonismo se torna claro. O outro grande problema do roteiro é que a história já está meio “batida”. Não é exatamente original, o que torna a trama previsível. Mesmo assim, em alguns momentos ela funciona. Primeiro quando cria uma tensão, nas devidas proporções, semelhante àquela história contada no livro “Animais Noturnos” no filme homônimo. Talvez haja alguma inspiração ali. Outro fator que ajuda muito o roteiro a funcionar é a montagem que sugere inicialmente eventos paralelos mas, quando vai apresentando a impossibilidade de estarem acontecendo simultaneamente, nos permite antecipar a tragédia que será apresentada a seguir.

Infelizmente, outros fatores jogam o filme muito para baixo, a começar pela fotografia. Sendo o filme rodado basicamente em cenas externas e quase todo o tempo à luz do dia, seria interessante que fossem utilizadas de maneira mais eficaz as sombras proporcionadas pelas árvores que os cercam. Mas não é isso o que acontece a maior parte do tempo. Enxergamos tudo com absoluta clareza e, mesmo quando determinado personagem está se escondendo do assassino, seu rosto está tão iluminado quanto estaria um personagem de uma sitcom qualquer.  Isso não seria tão grave se a trama do filme não exigisse um visual mais pesado e sombrio. A fotografia acaba não ajudando em nada para provocar no espectador a percepção do perigo que os personagens estão correndo.

Além disso, se Damien Power foi razoável no roteiro, pecou demais na direção. O filme parece ter sido realizado no piloto automático, seguindo uma cartilha de filmagem padrão, sem sequer um plano que alterasse nossa percepção ou contribuísse com a narrativa. Absolutamente sem personalidade. Sem cara. Já as atuações de uma maneira geral foram eficientes. Apesar do casal protagonista ter começado de maneira basicamente protocolar, após a metade do segundo ato eles ganham um pouco de vida, e é o momento no qual Harriet Dyer acaba puxando o filme para si. Os psicopatas Chook (Aaron Glenane) e German (Aaron Pedersen) são inegavelmente os maiores destaques do elenco. Nesse ponto, aquela falta de desenvolvimento dos personagens acaba os auxiliando. Talvez o fato de sabermos muito pouco sobre eles (apenas algumas frases sobre German ter passado pela prisão), nos faça apenas imaginar o que eles planejam e do que são capazes. E o tom normalmente calmo com o qual eles falam, aumenta a nossa percepção do quão ameaçadores e perigosos eles são.

No fim das contas, O Acampamento pelo menos nos brinda com alguns casos de “pista e recompensa”. Alguns elementos que são citados de passagem no filme e se mostram importantes mais adiante na trama. Com excessão de um, que parecia o mais óbvio de todos, que é sobre Banjo, o cachorro dos assassinos. Inexplicável o destaque dado para determinado momento do filme quando vemos que não teria nenhuma influência depois. E apesar da tensão crescer demais no final do segundo ato, nada no filme é tão assustador quanto uma certa “D.R.” entre dois personagens que ficou engatilhada no final da história toda. Aquilo sim pode gerar um baita filme de terror.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 3/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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