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Atômica | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa estrelado por Charlize Theron!

Atômica | Crítica

Atômica (Atomic Blonde)

Direção: David Leitch

Roteiro: Kurt Johnstad

Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Sofia Boutella, Eddie Marsan, Toby Jones

Confesso que desisti de tentar entender o enredo de filmes de espionagem a ponto de tentar prever o seu final. Até pouco tempo atrás, eu me esforçava para adivinhar quem era o vilão, em quem podíamos confiar e em quem não. Mas depois de tantos casos em que acontecem reviravoltas sem o menor sentido e explicação, resolvi poupar meu cérebro de buscar essas conexões e agora deixo a história se desenrolar para no final decidir se gostei ou não. No caso de Atômica, acho que foi a decisão mais acertada para mim. Liguei minha suspensão da descrença no nível máximo e me deixei levar por um filme que por um lado não entregou nada do que eu esperava, mas por outro entregou muito mais.

Escrito por Kurt Johnstad e dirigido por David Leitch, Atômica se passa no universo da espionagem às vésperas da queda do muro de Berlim, em 1989. Lorraine Broughton (Charlize Theron) é uma espiã do MI6 que é chamada para ir à Berlim investigar a morte de um agente e o sumiço de uma lista com informações confidenciais de alto risco para as agências de espionagem. Chegando lá, ela percebe que as coisas talvez não sejam exatamente o que pareciam inicialmente.

Em função do protagonismo de uma trama sobre espionagem em plena Guerra Fria pertencer a uma mulher, e também por causa das imagens divulgadas de fantásticas cenas de ação de Charlize Theron enfrentando diversos homens sozinha, fiquei com a impressão de que Atômica teria um viés feminista. Mesmo a primeira aparição da personagem, que já é em uma cena de nudez, ainda passava um pouco esta ideia, visto que Lorraine Broughton nos é apresentada em uma banheira cheia de gelo (após um eficiente raccord visual, diga-se de passagem), mas não de maneira sexualizada, e sim tentando se recuperar dos diversos hematomas e cortes que cobriam seu corpo.

No entanto, quando percebemos que apenas mais uma mulher participa ativamente da história, fica claro que a primeira impressão foi realmente equivocada. Delphine (Sofia Boutella, de A Múmia) chega para direcionar o filme completamente para uma visão masculina, principalmente em função das cenas tórridas e fetichistas que divide com Lorraine. Não que estes momentos escapem do contexto do filme, pois elas não são completamente gratuitas, mas se repararmos que a única outra cena de sexo é de um homem com duas belas jovens, começamos a enxergar um padrão. É uma pena que tenham perdido a chance de fazer um filme com empoderamento feminino e representatividade, aproveitando uma personagem fantástica como Lorraine.

Sim, pois ela é fantástica. Constantemente vestindo preto e branco em todas as variantes possíveis, Lorraine se torna uma personagem dúbia que eventualmente nos faz questionar sobre qual o seu verdadeiro interesse naquele “jogo”. Não por acaso, em um monólogo expositivo, um personagem nos diz que para vencer a guerra é necessário saber em que lado se está jogando. Em se tratando de um filme de espionagem, esta dúvida permanece no ar praticamente o tempo todo, sobre todos os personagens que vemos. Confesso que não sei se as explicações dadas passam no teste da revisão do filme, mas, como eu falei inicialmente, resolvi aceitar. Mesmo assim, o ponto fraco da produção acaba sendo justamente o roteiro, que além dessa confusão aparentemente planejada sobre as intenções dos personagens, também volta a tratar de uma lista de agentes caindo nas mãos erradas, como já vimos diversas vezes antes, recentemente nas franquias Missão: Impossível e 007. Como curiosidade, vale lembrar que o nome do superior de Lorraine ser simplesmente “C” remete também às identidades das histórias de James Bond, como “M”, “Q”, etc.

No entanto, o filme tem muitos pontos altos. Começando pela direção de arte que foi muito além do belo figurino da protagonista. Contando com uma produção extremamente competente, a reconstrução da Berlim dos anos 1980, com as roupas, automóveis, casas noturnas e pontos de encontros dos jovens “rebeldes” faz com que nos sintamos de volta ao passado, completamente introduzidos àquele tempo e espaço. Inclusive no cinema em Berlim Oriental no qual Lorraine enfrenta um grupo de agentes inimigos que a perseguiam, o filme em exibição é Stalker, de Andrei Tarkovsky, ao qual, não por acaso, pode-se fazer algumas analogias à realidade alemã da época. Em um aspecto um pouco mais metafórico, podemos até enxergar semelhanças com a situação de alguns personagens centrais da trama. A paleta de cores frias é outra constante no filme o que realça a força do vermelho em algumas cenas específicas, como no bar onde Lorraine encontra Delphine. Vermelho de luxúria. Vermelho de violência.

É inegável também que uma das armas mais poderosas do filme reside em sua trilha sonora. Com músicas escolhidas a dedo entre os principais sucessos da década de 1980, escutamos The Clash, David Bowye, New Order e muito mais enquanto vemos Charlize Theron dar seu show. Tudo bem que James McAvoy também está ótimo, nos trazendo um agente Percival insano e ameaçador – ele flutua entre uma tranquilidade sarcástica e uma fúria assassina em questão de segundos -, mas o que Charlize apresenta como Lorraine Broughton é tudo que esperamos de uma heroína de ação.

David Leitch utiliza frequentemente planos em contra plongée para realçar o poder da personagem, mas o melhor ele guardou realmente para uma das sequências finais. Uma luta magistralmente coreografada em um plano sequência de fazer inveja à cena da luta no corredor de Oldboy (2003). Não cronometrei o tempo daquele plano sequência, mas não deve ter menos de 6 minutos de uma pancadaria violenta e em ritmo acelerado. Lorraine enfrentando uma dezena de inimigos ou mais através de vários andares de um prédio, rolando escada abaixo, apanhando muito, batendo mais ainda, atirando, esfaqueando, batendo com bandejas ou pedaços de pau. Qualquer coisa que estivesse à mão se tornava uma arma em uma sequência que deve se tornar um clássico. Não é exagero dizer que só esta cena já vale o ingresso.

Curioso que a primeira morte que vemos no filme pareceu mais “limpa” do que deveria. Sem sangue, sem ferimentos aparentes, mesmo em uma situação de enorme violência. Isso fazia parecer que o filme ia pegar leve com o impacto visual. Mas a verdade é que parece terem guardado tudo para o final. As lutas vão se tornando cada vez mais violentas até atingir seu ápice nessa sequência do prédio. Temos desde molhos de chaves cravados no rosto até saca-rolhas enfiados em olhos. Lembra um pouco a cena da igreja de Kingsman mas com muito mais realismo. Exceto pelo fato de que as pessoas simplesmente não morrem. A resistência dos personagens a facadas, perfurações, tiros e atropelamentos é surpreendente.

Enfim, Atômica perdeu a chance de ouro de ser um marco para a valorização das mulheres na indústria do cinema, justamente por ter uma personagem tão forte e ter sido tão eficiente como filme de ação. O filme possui momentos memoráveis e, para mim, já figura entre os mais empolgantes do ano. E Charlize Theron, que treinou suas lutas junto com Keanu “John Wick” Reeves, prova que sua Furiosa de Mad Max não foi um lance do acaso. Foi, sem dúvida, uma consagração para a atriz como protagonista de filmes de ação. Que venham muitos mais.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 19    Média: 2.9/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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