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Grave (Raw) | Crítica

Confira a opinião de Rafael Bernardes sobre o polêmico filme!

Grave (Raw) | Crítica

Grave (Raw)

Ano: 2016

Direção: Julia Ducournau

Roteiro: Julia Ducournau

Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Naït Oufella, Joana Preiss, Laurent Lucas, Bouli Lanners, Marion Vernoux

Sim, Grave é aquele filme que ficou conhecido por conta de pessoas terem passado mal durante a exibição no Midnight Madness, mostra paralela do Festival de Toronto dedicada ao gênero. Acontecimentos desse tipo ajudam o marketing das produções, ainda mais quando o tema é canibalismo. Os fãs do gênero esperam um “novo” Holocausto Canibal, o medo parece que se torna real, há uma sensação de desafio, de assistir algo em um nível superior, que choque de verdade.

Sinto desanimar, mas esse não é o caso de Grave. O longa realmente incomoda, mas não tanto quanto se espera. A trama conta a história de Justine, protagonizada brilhantemente por Garance Marillier, uma jovem vegetariana ingressando na faculdade de veterinária. Após sofrer um trote na universidade, ela ingere carne e tendências canibais começam a se desenvolver na menina. O assunto principal do filme não é vegetarianismo ou canibalismo em si, é mais profundo e metafórico. Fala sobre os nossos demônios, as vontades que ficam internalizadas dentro das pessoas, que são aspectos da personalidade. Por muitas vezes sentimentos mal vistos pela sociedade acabam ficando adormecidos ou reprimidos no interior de algumas pessoas.

Analisando de forma superficial, a trama também trata da busca por se encaixar na sociedade, autoconhecimento, sexualidade, limite do rompimento dos “bons costumes”, relacionamentos fraternos e amorosos. O longa consegue atribuir todos esses aspectos de forma não tão nítida, mas coesa. O trabalho de fazer com que o espectador pense é muito bem realizado.

O assunto começa a ser tratado no momento em que conhecemos Adien (Rabah Nait Oufella), colega de quarto de Justine. O garoto se mostra machista e homofóbico no primeiro momento, mas na sequência já é revelado mais sobre ele e com o desenvolvimento do personagem, fica nítida a vergonha de si mesmo e os desejos reprimidos dentro de si. Na universidade, uma das veteranas que aplica os trotes é Alexia, irmã da protagonista. O trabalho da atriz Ella Rumpf na interpretação da personagem é muito bem realizado, mesclando a personalidade afetiva e companheira de um relacionamento fraternal abusivo e destrutivo.

O roteiro do longa é atrativo, mas necessita de paciência para que a história engrene. O primeiro ato é um dos únicos problemas, colocando um tom leve com momentos mais sombrios, mas demorando para fazer a história se desenrolar. A partir do segundo ato as coisas ficam bem interessantes e o ritmo é envolvente. Não há muito tempo para se recuperar de imagens um tanto nojentas e a aflição para saber no que os acontecimentos vão resultar aumenta gradativamente. O que poderia ser uma história sobre alimentação, se torna algo muito mais profundo a partir da metade do longa e o desfecho da história acaba sendo alentador, mas não é nada auto explicativo, pelo contrário. As respostas são subjetivas e interpretativas, o que faz a trama ser ainda mais interessante.

A direção de Julia Ducournau é excelente, fazendo uso de muitos planos abertos, contribuindo com a amostragem do ambiente como um todo. Isso torna a fotografia mais linda do que já é. A diretora não tem receio de mostrar tudo, plano detalhe é o que não falta. Ela utiliza muito da câmera subjetiva, mas sabendo o momento certo de colocar esses recursos em tela. Algumas influências ficam evidentes, com referências a diversos clássico do gênero. A trilha sonora composta por Jim Williams é espetacular. A música psicodélica anda de encontro com as transformações da personagem principal.

Grave é uma produção forte, chocante, por muitas vezes nojenta, mas se torna muito mais que isso. A obra diz muito sobre o ser humano e suas vontades, sendo essencial para a reflexão. A diretora e roteirista conseguiu fazer duas coisas muito difíceis em um filme de gênero: chocar e buscar a reflexão do público.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 5    Média: 3.4/5]

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Jornalista, pretende seguir carreira como crítico de cinema. Gosta de dar opinião sobre tudo. Reside em Belém Novo, fim do mundo de Porto Alegre.

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