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Castelo de Vidro | Crítica

Castelo de Vidro | Crítica

Castelo de Vidro (The Glass Castle)

Ano: 2017

Direção: Destin Daniel Cretton

Roteiro: Destin Daniel Cretton

Elenco: Brie Larson, Brigette Lundy-Paine, Joe Pingue, Josh Caras, Max Greenfield, Naomi Watts, Robin Bartlett, Sarah Snook, Woody Harrelson

Castelo de Vidro figura como mais uma das grandes adaptações do mês, e arrisco em dizer: do ano. Ele é baseado no livro autobiográfico homônimo, nos levando a acompanhar a vida da jornalista Jeanette (Brie Larson) em um mergulho em sua formação e constituição de raízes familiares. Para isso, a trama mistura vivências nos dias atuais com muitos flashbacks até conhecermos os meandros da família Walls e percebermos a intensidade de uma criação diferenciada, quem tem muitos pontos negativos, mas especificidades que tornam cada um de seus membros sujeitos dotados de profundo amor e intensidade em seus atos de proteção e cuidado – até os que soam às avessas.

Isso porque Jeanette tem pais que não se enquadram em nenhum padrão. Eles criaram seus quatro filhos de um modo alternativo ao extremo, sem acreditar em Escolas e vivendo por muito tempo de um modo nômade, sem fixar raízes em nenhum lugar. Os problemas começam quando as crianças percebem que não estão sendo de fato cuidadas, visto que por vezes ficam longos períodos sem comida e têm que se virar sozinhas, inclusive se acidentando nesse processo que envolve certa irresponsabilidade dos pais para com elas. O problema, aqui, está no que se valora como relevante na educação dos filhos: estes pais não se adequam ao sistema capitalista e o consumismo está bem longe do que esperam para sua prole; eles também acreditam que, de alguma maneira, é caindo que se aprende, e acabam deixando as crianças com tamanha independência que pensam que se elas exigem atenção é exagero e desrespeito; eles parecem pensar antes em interesses particulares do que no bem da família, esquecendo o que seria bom pros filhos em determinados momentos; em outros momentos, no entanto, eles protagonizam momentos de profunda entrega e demonstrações genuínas do que é o amor.

A matriarca chama-se Rose Mary (Naomi Watts). Ela é pintora e sua alma de artista prioriza mais o que emana de paisagens e sensações que a levam a pintar do que banalidades como comida e estudos. Aliás, essa família não concorda que a educação formal em Escolas seja um bom caminho, priorizando as experimentações para que as crianças aprendam vivendo. Aí entra o dito “cabeça” da família, o patriarca Rex (Woody Harrelson). Ele é o grande idealizador desse estilo de vida, desacreditando nas instituições formais e na sociedade como é imposta na cotidianidade de nossos dias. Ele também sofre com o alcoolismo, e leva toda a sua família por altos e baixos regados pela bebida. Extremamente controlador e um tanto abusivo, ele ancora os alicerces da família sem permitir que o contrariem e explodindo a cada indício do contrário. Por outro lado, é também suscetível a mudanças de opinião se elas vêm de uma necessidade iminente de apoio ou mesmo da argumentação de Jeanette.

Esse pai dominador desperta imenso carinho e compreensão de seus filhos, mas também é quem os leva a romper com esse estilo de vida quando chegam à maturidade. Ainda crianças (quando Jeanette tinha por volta de 11 anos), eles percebem que aquilo não é o que querem para seus futuros, e vão se formar. A irmã mais velha, Lori (Sarah Snook), é a primeira a sair de casa e se mudar para Nova York. Antes do que imaginava, Jeanette segue os passos da irmã e foge do pai que naquele momento a sufocava – mais do que aos outros, porque ela sempre foi o suporte dele. Com o tempo seu irmão Brian (Josh Caras) virou policial e a mais nova Maureen (Brigette Lundy-Paine) é a única que não sabemos exatamente o rumo que tomou, mas que ela morou com os pais por mais tempo do que os outros, em processos de idas e vindas, e conquistou a “alforria” com um esforço doloroso. Mesmo com os problemas, essa família louca conseguiu ensinar aos seus filhos o poder do laço que os unia e, também, que eles não precisam todos se enquadrarem a um padrão de vida para serem felizes, basta projetarem o que realmente gostam e querem fazer porque o dinheiro é o que menos importa no quesito de construir uma vida própria – é preciso fazer o que se gosta, saber o que lhe faz bem.

Esse processo de autoconhecimento é difícil e demorado. Tendo foco em sua trajetória pessoal, para além do conjunto familiar, acompanhamos o crescimento de Jeanette e sua redescoberta no mundo da vida. É interessante perceber, quando vamos chegando ao final do filme, como ela mudou e se dispôs a mergulhar tanto no que a vida a apresentava quanto, com o tempo, a caçar suas próprias oportunidades e se aventurar na formação de sua história. Também é encantador ver, durante o início dos créditos do filme, os verdadeiros componentes da família e assim numa comparação inevitável constatar que os atores desempenharam muito bem seus papeis nos fazendo ver, de fato, a família em tela. Aliás, é nessas cenas nos créditos que vamos nos dando conta de como esse filme é envolvente e dá vontade de indicá-lo gritando a plenos pulmões porque este é um filme pra ser visto, é realmente muito bom! E essa convicção vem nas sutilezas, no que ele vai nos tocando aos poucos, na beleza dessa história e em como ela foi bem realizada e adaptada para o cinema, contando com uma ótima direção de cenas, alternando entre os takes com uma suavidade louvável, principalmente nos closes. Está de parabéns!

Nota da crítica

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[Total: 1    Média: 5/5]

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