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Especial | Christopher Nolan, do pior ao melhor

Especial | Christopher Nolan, do pior ao melhor

Aos 46 anos, o diretor Christopher Nolan foi do cinema independente para filmes de grande orçamento em pouquíssimo tempo. É impressionante como ele alcançou popularidade e prestígio com filmes que abordam dramas comportamentais, psicológicos e sociais de maneira não tão usual no cinema. Excelente diretor para alguns, superestimado para outros, fato é que ele é um diretor que a indústria considera bem. Seus 9 filmes já arrecadaram mais de 4 bilhões de dólares em todo o mundo, acumulando 26 indicações ao Oscar, com 7 conquistas e diversas vitórias em outras premiações.

Prestes a estrear mais um longa-metragem, as expectativas já foram lançadas. Seus projetos são sempre acolhidos e acaloradamente discutidos. Com carreira já consolidada, o diretor mescla ótimos filmes e outros nem tanto, listados aqui na escala do pior para o melhor de Nolan.


9. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises) – 2012

O último filme do Batman pelo Christopher Nolan tinha uma ingrata missão: superar ou se igualar ao Batman – O Cavaleiro das Trevas. Porém, infelizmente, o filme não cumpre tal missão e é bem abaixo do esperado. A produção já começa equivocada, quando escolhem Bane (Tom Hardy) como vilão principal. Batman possui uma das melhores galerias de vilões dos quadrinhos e o Nolan escolhe um dos vilões mais pífios. A ideia do longa foi de encerrar a trilogia com a volta da Liga das Sombras, comandada pelo o ex-mestre do Bruce, Ra’s Al Ghul (Liam Nesson). A trama mostra Bruce Wayne (Christian Bale) aposentado e quebrado, mas logo ele é forçado a retornar à antiga rotina. Sua volta como Batman é bem feita e emocionante. Porém, os arcos dos personagens não evoluem: a Mulher-Gato (Anne Hathaway) apresenta bem sua dualidade, mas não possui uma sensualidade. Miranda Tate (Marion Cotillard), que mais tarde se revela ser a filha de Ra’s: Talia Al Ghul, que aqui é transformada numa vilã, a diferenciando dos quadrinhos. O filme também possui diversas falhas no roteiro, que sim, interferem no desenvolvimento da trama. Há um desgaste do sombrio e realista que o Nolan idealizou para a franquia e ainda mais quando se conta a história de um milionário que se veste de morcego para combater o crime. Talvez um dos únicos destaques do filme seja o policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt), um ex-órfão, que parece conhecer mais do que devia. Nessa parte o longa tem algum êxito, mostrando algo relacionado ao primeiro filme: que a ideia do Batman não ser exatamente “alguém” e sim um símbolo a ser seguido. Tirando essa parte, o resto do filme é bem esquecível, uma pena.


8. Following – 1998

O primeiro filme do diretor já conta com duas grandes características que mais tarde seriam a sua marca registrada: a história contada de forma não linear e os personagens confusos entre o que é realidade e o que não é. Em Following acompanhamos a história de Bill (Jeremy Theobald), um jovem rapaz que almeja se tornar escritor e encontra um hobby um tanto quanto inusitado ao seguir pessoas pelas ruas de Londres. Entre esses indivíduos está Cobb (Alex Haw), um assaltante de casas que percebe que está sendo observado por Bill e o convida para participar de suas aventuras. Eles invadem o apartamento de uma moça loira que deixa Bill intrigado (o apartamento está repleto de fotografias dela). Ele a segue e batem um papo em um bar de propriedade de seu ex-namorado, um cara desagradável que matou alguém na sala de estar da casa dela. Logo Bill se apresenta para fazer um favor à jovem, que envolve uma invasão. Só que desta vez ele terá uma surpresa desagradável. Todo rodado em preto-e-branco e com apenas 69 minutos de duração, Following te prende do primeiro segundo ao último. Realizado de forma independente, a boa edição conseguiu salvar a intenção do longa.


7. Batman Begins – 2005

Após dois filmes desastrosos do Batman dirigidos por Joel Schumacher, o diretor britânico Christopher Nolan teve a missão de resgatar a dignidade do Homem-Morcego para o grande público. E em 2005 estreia Batman Begins, onde reconta a história de como o milionário Bruce Wayne (Christian Bale) virou o vigilante de Gotham City. Nolan nos apresenta uma abordagem sombria e realista, e personagens da mitologia do Batman antes pouco conhecidos do público, como o Ra’s Al Ghul (Liam Nesson). A construção do Wayne para virar o Batman é muito bem realizada: desde do assassinato de seus pais até o seu treinamento com o Ra’s, focando em seus medos e questionamentos morais. O longa tem um terceiro ato questionável: Ra’s revela seu plano para destruir Gotham e fica sub-entendido numa de suas falas que ele implantou o crime na cidade, para que, assim, futuramente ele possa “salvá-la” de toda a corrupção. A luta final também é contraditória: os dois estão brigando no metrô, onde o Batman deixa Ra’s morrer: “Eu não vou matá-lo, mas não preciso salvá-lo”… sim, o Batman “mata” indiretamente. Muitos podem questionar que ele só deixou de salvá-lo, porém, o Batman nunca deixa alguém morrer, ele faria de tudo para salvar qualquer um que fosse. Apesar de alguns equívocos e contradições, o longa se saiu muito bem em apresentar o personagem para um novo público.  


6. Interestelar (Interstellar) – 2014

Em seu último projeto lançado, o diretor foi além e abordou as grandes questões existentes entre o homem e o universo. Interestelar é um longa de ficção científica (ou astrofísica) que agrega viagens espaciais, buraco da minhoca, buraco negro, energia gravitacional, dilatação temporal e referências/homenagens aos clássicos do gênero. Na trama, a Terra é um lugar moribundo com esgotamento dos recursos naturais, e, por isso, um grupo de astronautas recebe a missão de verificar possíveis planetas que possam receber vida humana. Cooper (Matthew McConaughey) é convocado para liderar o grupo e aceita a tarefa, mesmo sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), ele segue em uma viagem espacial. Diante dessas infinitas possibilidades são somados tantos elementos que a narrativa atinge um belo ápice na metade do filme, que infelizmente não combina com o seu final morno e clichê. Considerado por muitos o filme mais ambicioso de Nolan, o que foi entregue pode não ter surpreendido tanto, mas também não decepciona. A experiência sensorial e imagética do filme são de grande qualidade.


5. Insônia (Insomnia) – 2002

Bizarramente bom, Insônia apresenta na trama um policial que mata seu parceiro ao ser enganado por uma neblina e, então, precisa desvendar o álibi que recebe (em parte criado, em parte fruto de idolatria) e a morte de uma jovem. Isto foi o que acabou o levando ao crime sem intenção inicialmente, após um plano que deu errado e que criou uma intensa confusão de medo e culpa, o que culmina na tal da insônia, agravada pelo sol da meia-noite visto que o filme se passa no Alasca, onde no verão o sol ilumina quase todo o dia (perto do solstício chega a ter sol 24 horas por dia). Somos brindados com excelentes atuações de Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, que nos levam nesse enredo de perseguição, falsos testemunhos, cenas de crime e muito suspense. Apesar de previsível, Insônia nos capta pela tensão no ar, pelo cativante desequilíbrio moral e pela intensidade dos personagens em cena.


4. A Origem (Inception) – 2010

Leonardo DiCaprio interpreta Dom Cobb, um habilidoso extrator de informações dos sonhos alheios que recebe uma missão quase impossível: inserir uma ideia na mente de um jovem empresário para fazê-lo destruir o império do seu pai. Para isso, Dom reúne uma equipe composta por arquitetos, falsários e químicos para executar um complexo esquema de inserção de ideias. Através da novata Ariadne (Ellen Page), o filme tem sua “personagem da audiência”, visto que os personagens mais experientes explicam os conceitos do mundo do sonho compartilhando com ela quando na verdade estão os desenvolvendo para o público. Existe muita exposição em A Origem, fato, mas não haveria outro jeito de introduzir tantas definições, regras e diferentes funções de uma vez; o que logo fica claro, de forma a não se perder nas diversas camadas de sonhos dentro de sonhos. Contando com um roteiro habilidoso e inovador co-escrito pelo seu irmão, Jonathan, Christopher Nolan cria outra obra notável com a assistência de efeitos especiais detalhistas (toda cena com um sonho se ruindo é um vislumbre visual diferente) e de uma trilha sonora marcante do seu frequente colaborador, Hans Zimmer.


3. Amnésia (Memento) – 2000

Segundo filme de Nolan, o que proporcionou grande visibilidade para o diretor em Hollywood. O longa conta a história de Leonard, que tem amnésia e procura o assassino de sua esposa. O “detalhe” mais do que peculiar é a trama ser contada de trás para frente, partindo do ponto que deveria ser o clímax e contando como as coisas aconteceram. A direção de Nolan é impecável, realizando enquadramentos que possibilitam uma experiência diferenciada enquanto tudo se desenvolve. Este não é um filme fácil de assimilar, mas os fatos vão sendo esclarecidos de uma forma razoavelmente lenta, dando tempo para que o espectador sinta o que está acontecendo e muitas vezes se surpreenda. As atuações são fantásticas. Guy Pierce interpreta Leonard de forma magistral, transpassando o drama contido no personagem e a aflição de não saber o que está acontecendo. Carrie-Anne Moss dá vida a Natalie, personagem importantíssima para a trama. Aliás, a performance da atriz é tão boa que por vezes rouba a cena justamente por conta da presença de cena de Moss. Amnésia é um dos melhores filmes de Christopher Nolan, mostrando no seu segundo trabalho todo o seu potencial como diretor.


2. O Grande Truque (The Prestige) – 2006

Este talvez seja o filme em que Nolan menos usa das explicações, por vezes repetitivas, que sempre são alvo de crítica em seu trabalho. O Grande Truque conta a história de dois mágicos que, em um passado não muito distante, foram amigos, porém, hoje não resta nada além de uma competição doentia. Nolan mantém aqui sua estrutura não linear de contar uma história. A maneira que o diretor usa para contar a história é metodicamente bem planejada, em que cada plano é necessário, por mais misterioso que seja. Não é um filme confuso e nem complexo demais, mas é daqueles que necessita de muita atenção do espectador para que possa compreender o que está vendo (assim como a plateia dos truques de mágica no filme). As atuações de Christian Bale e Hugh Jackman são espetaculares, e fica impossível decidir qual dos dois está melhor em cena. Ah, e pra ficar ainda melhor, temos um sensacional plot twist, que deixa o de Interestelar no chinelo, e ainda faz o espectador ficar com a pergunta ícone do filme na cabeça: você está prestando atenção?


1. Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) – 2008

O segundo filme da trilogia do Nolan pro Batman veio superando o primeiro – que já tem seu valor, reescrevendo a trajetória do herói para o cinema com a ênfase necessária –, apresentando um vilão que se destaca magistralmente e conquista o público (até mais do que o próprio morcegão consegue), além de concretizar o caráter do herói e mostrar sua fé na humanidade, que não é em vão. Em Batman: O Cavaleiro das Trevas somos confrontados a pensar sobre o que é ser bom ou mau, ou como a vida nos leva a atitudes extremas pelas incoerências que nos arrematam, ou, ainda, como um novo mundo é possível se todos nos dispusermos a questionar certezas e, principalmente, se tivermos alguém em quem acreditar e mesmo brigar porque essas trocas nos afetam e atravessam formativamente. O longa rendeu um Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante a Heath Ledger pela sua interpretação do Coringa do filme, agente do caos e antagonista perfeito para nosso Batman justiceiro destemido.


Especial elaborado com a colaboração de Diego Francisco, João Vitor HudsonMaytê Ramos Pires, Rafael Bernardes e Victor Andrade.

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