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Especial | Os 10 anos de Mad Men

Especial | Os 10 anos de Mad Men

AMC era um canal focado em filmes clássicos que visava expandir a sua programação. Mad Men foi a primeira investida da emissora, que mais tarde produziria grandes sucessos de público e audiência como Breaking Bad, The Walking Dead, The Killing e Hell on Wheels, produzindo conteúdos originais.

Originalmente apresentada à HBO e recusada pela mesma, Mad Men foi escrita por Matthew Weiner, que já tinha trabalhado como roteirista em Família Soprano. A série consistia em recriar os anos 60 a partir da visão dos publicitários da Madison Avenue, Nova York, os mad men do título. Através dos figurinos, da ambientação, da música e da onipresença do cigarro, lentamente o espectador vai se ajustando a essa época que pode ter sido recente, mas soa como outro mundo.

Acompanhamos a história pela perspectiva dos funcionários da agência de publicidade Sterling Cooper, que trabalha com clientes como a Kodak, Samsonite, Chevy e American Airlines. Somos introduzidos a Don Draper (Jon Hamm), o protagonista da história e, ao contrário do que vemos em Breaking Bad ou Fargo – séries que vemos o início da jornada dos protagonistas num caminho que ruma para nuances de maldade – aqui começamos com um Draper já desenvolvido, uma figura misteriosa e fechada no que diz respeito ao seu passado. Não que chamar Don Draper de mau seja correto, a riqueza do personagem se dá pelo fato de conseguir ser o mocinho e o vilão da história.

A complexidade de Don Draper

O publicitário é o melhor do seu ramo. Sua criatividade e seu tato são conhecidos por todos que trabalham com ele e também pela concorrência, sua indispensabilidade torna suportável seus eventuais desaparecimentos, que podem durar dias sem qualquer notícia. Don é casado e vive com sua esposa, Betty (January Jones), e os dois filhos do casal, Sally (Kiernan Shipka) e Bobby (Maxwell Huckabee/Aaron Hart/Jared S Gilmore/Mason Vale Cotton). Família que não impede Don de viver uma vida dupla, o personagem na série sempre foi marcado pela sua infidelidade, inúmeras amantes passam pela narrativa, mas nenhuma é capaz de ficar com ele por muito tempo, todas são mulheres temporárias na sua vida.

“Quem é Don Draper?” – essa é uma pergunta que nem seus amigos mais próximos são capazes de responder. Ninguém o conhece completamente, só o que ele permite que saibam. Lentamente vamos descobrindo o seu passado, os traumas pelos quais passou na juventude e o que o modelou a se tornar o quem é hoje. O homem que Draper era é completamente diferente do homem que vemos ao decorrer das temporadas, um homem frágil e covarde que escapa em momento sensíveis. O conflito entre as duas identidades e a sua constante luta para esconder o seu passado de todos que o conhecem definem boa parte dos arcos dramáticos. Draper, no entanto, sempre usa suas histórias trágicas para se safar das situações complicadas em que entra.

Desde sua primeira aparição na série, ele é uma figura ambígua, alguém capaz de feitos nobres e atos odiáveis. Logo no início, conhecemos sua amante e logo depois somos introduzidos à sua família, por mais que seja amado pelos filhos e, sem dúvida, os ame, Don surge como um pai ausente e negligente. O mesmo se aplica no trabalho e como suas decisões podem prejudicar os seus colegas de trabalho e a agência.

A dualidade da personalidade de Draper é vista na sua relação com Peggy Olson (Elisabeth Moss). A secretária evoluiu dentro da Sterling Cooper graças ao Don, que nunca duvidou de suas habilidades mesmo que nenhuma mulher tenha exercido antes as funções que ela exerce. Don e Peggy se tornam muito próximos, ele a ajuda a tomar uma decisão difícil em sua vida pessoal e ela dá suporte emocional quando Don perde alguém próximo, a única pessoa que realmente o conheceu. Don Draper, no entanto, falha ao demonstrar qualquer tipo de reconhecimento a Peggy, que faz de tudo para conseguir a atenção do seu chefe. A relação dos dois é marcada por diversos conflitos, mas ambos sempre conseguem se entender.

Os personagens inesquecíveis

Peggy Olson (Elisabeth Moss)

Peggy vai de uma secretária ingênua a uma redatora publicitária de sucesso. Ela defendeu seus direitos como mulher para progredir no ambiente de trabalho e ter voz nos relacionamentos amorosos. Os momentos de inadequação, a sua relação com os personagens masculinos e a ambição profissional de Peggy, fizeram com que ela conquistasse o carisma de quem acompanhou a série. Ela não é perfeita, mas ninguém é.

Joan Holloway (Christina Hendricks)

De chefe das secretárias e símbolo sexual do escritório para sócia da empresa. Com uma incrível habilidade para gerenciamento de contas, ela é o grande pilar da agência e a pessoa a quem todos recorrem quando têm problemas. Após ter que dormir com um empresário para garantir um cliente para a agência, tira proveito da situação e inicia uma grande virada. Ela não está mais disposta a usar o corpo para garantir algo que ela já tinha alcançado: poder.

Roger Sterling (John Slattery)

Um homem atrás do seu tempo. Branco, rico e um dos sócio-fundadores da agência, Roger é a representação do patriarcado, da misoginia, do racismo e da cultura do consumo dos anos 60. Ele é um personagem detestável, porém fundamental para a série conseguir retratar com fidelidade os velhos e imorais tempos. Tomado por uma sarcasmo embriagado, ele recua ainda mais da realidade, provando os prazeres do hedonismo hippie e sua ênfase no sexo e nas drogas.

Pete Campbell (Vincent Kartheiser)

Obstinado a ter dinheiro e poder, ele é de longe o atendimento mais insuportável do escritório. Ele trata as mulheres que trabalham com ele de forma desprezível e não sente que o seu esforço seja valorizado pela parcela masculina da agência. A imaturidade de Pete é o fio condutor do personagem, nunca sabemos quando ele está evoluindo ou tendo apenas um raro momento de bom senso.

Betty Draper (January Jones)

Jovem e bela, ela abandona a carreira de modelo para casar com Don e se dedicar integralmente aos filhos e à casa. Sem levar muito jeito para ser uma típica mãe da década, ela se sente sempre entediada e irritada com a própria vida e não consegue abdicar dos seus vícios. Betty é responsável por um dos finais mais melancólicos da série.

Lane Pryce (Jared Harris)

Com um semblante inglês carismático, Lane caminha de um mago financeiro para um desfecho trágico. A difícil adaptação aos EUA e as tentativas frustradas de se tornar um cidadão americano de pleno direito levam Lane para um buraco sem saída. Protagonizou uma das cenas mais nonsenses da série quando decidiu resolver as suas desavenças com Pete fisicamente, dentro da sala de reuniões com o apoio dos outros sócios. Nesse episódio fica claro que todos ali eram altamente perturbados.

Sally Draper (Kiernan Shipka)

De criança a adolescente, a filha mais velha de Betty e Don passa por transformações físicas e comportamentais como a separação dos pais, a descoberta da sexualidade e a difícil relação com a mãe. Sally está tentando buscar referências no mundo adulto para colocar em prática o que já conhece e desafia os pais com os seus questionamentos.

As mulheres em Mad Men

Um dos principais motivos para algumas pessoas não gostarem de Mad Men é o machismo. A misoginia tem sido parte integrante da série desde o primeiro episódio. Desfrutamos da Peggy tendo o seu trabalho menosprezado, Joan sendo estuprada pelo noivo, Betty tendo a terapia controlada pelo marido, modelos e atrizes sendo taxadas de prostitutas ou quando Peggy descreve de forma articulada a discriminação que ela enfrenta como mulher. Mas isto serve apenas para que seu pretendente, supostamente progressista, responda sarcasticamente que talvez possa existir uma marcha de direitos civis para as mulheres na qual ela possa fazer as suas queixas.

Temos que tomar cuidado ao classificar uma obra como feminista ou não, mas não podemos considerar séries feministas aquelas que apenas mostram mulheres empoderadas. Devemos estar contentes que a narrativa de Mad Men tenha resistido à tentação de transformar suas personagens femininas em heroínas contemporâneas. Elas não são, porque na década de 60 não era permitido ser. O melhor de Mad Men para o universo feminino foi expor o pior do machismo e da misoginia sem ficar dando glamour aos fatos. A série não suaviza o comportamento preconceituoso dos personagens. Ela insere personagens femininas em todos os lugares, desenvolvendo essas mulheres por si mesmas, e não para servir às narrativas masculinas.

Em alguns momentos podemos ter a ilusão de que na atualidade somos seres superiores a essas criaturas “pré-históricas” que bebem uísque no trabalho, fumam no avião e depositam lixo em qualquer lugar. Não se engane, atitudes sexistas existem no mundo do trabalho até hoje e as mulheres ainda ganham menos do que os homens. Mad Men proporcionou um registro melhorado de mulheres trabalhadoras e donas de casa de classe média nos anos 60, além de apontar que a busca das mulheres pela inclusão total na vida profissional americana ainda não está concluída.

Eventos históricos retratados pela série 

Mad Men não teria o mesmo peso se a retratação da década de 60 não fosse precisa. Por sorte, a reconstrução perfeitamente capturou todos os elementos possíveis da década. Matthew Weiner disse em entrevista que o processo de fidedignidade era tão trabalhoso que eles pesquisavam até o clima do dia em que o episódio se ambientaria.

Logo em um dos primeiros episódios, Roger Sterling (John Slaterry) volta do cinema após assistir ao filme Psicose e chama o filme de exagerado, outros personagens assistem Planeta dos Macacos, O Bebê de Rosemary e outros clássicos da época, mas a série não se limita só aos filmes. A TV era parte fundamental no trabalho dos publicitários, tanto que foi necessária a criação do “Departamento de TV” para que fosse possível ter acesso aos programas que iriam ao ar com antecedência e decidir qual propaganda seria a mais adequada para passar nos intervalos comerciais. O sucesso dos Beatles e a necessidade dos comerciais de não contar apenas com os jingles, mas também com as músicas pop que eram os fenômenos do momento. A trilha sonora engloba os sucessos da época e até a brasileira Água de beber, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, faz a sua participação.

Eventos históricos foram recriados a partir da perspectiva do público. A vitória de Kennedy foi tratada com alguma incerteza (principalmente porque a agência trabalhava para o Richard Nixon), mas o presidente foi logo aceito e querido pela população. Seu assassinato ocasionou um luto nacional, pessoas tinham medo de sair na rua após perder o presidente, símbolo da nação.

Outras mortes icônicas foram retratadas. De Marilyn Monroe até Martin Luther King, este último deu-se num contexto em que a própria Sterling Cooper estava mudando com a contratação da secretária Dawn (Teyonah Parris), primeira mulher negra a trabalhar no prédio que não exercia uma função de empregada ou faxineira. Outras mortes foram bastante comentadas pelos personagens, até mesmo as que não envolviam pessoas famosas, diversas vezes os víamos falando sobre pequenos acontecimentos e notícias locais.

Ao final da série, os eventos que testemunhamos pelos olhos dos personagens que aprendemos a amar são o início da guerra do Vietnã e a viagem à lua, que deixou todos de olhos vidrados na televisão enquanto viam um dos momentos mais marcantes da história da humanidade, personagens de todas as idades assistiam com brilho nos olhos, maravilhados com o que tinha acabado de acontecer. E, por fim, a chegada da década de 70 que marcou inúmeras transições nos Estados Unidos e, tanto para o país quanto para a série, o fim de uma era.

Especial realizado com a colaboração de Diego Francisco 

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