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Poesia Sem Fim | Crítica

Poesia Sem Fim | Crítica

Poesia Sem Fim (Poesía Sin Fin)

Ano: 2016

Direção: Alejandro Jodorowsky

Roteiro: Alejandro Jodorowsky

Elenco: Adan Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Pamela Flores, Leandro Taub, Alejandro Jodorowsky, Jeremias Herskovits e Julia Avendaño.

Nunca é tarde para preencher lacunas no nosso conhecimento cinematográfico. Mais do que isso, no conhecimento sobre qualquer expressão artística. Apesar de já ter ouvido falar, eu não conhecia a obra do chileno Alejandro Jodorowsky. E, agora depois de um único filme, já me interessei em saber tudo a respeito dele. Poesia Sem Fim é um filme daqueles que não se vê todo dia. É a definição do cinema como obra de arte. É um filme que provoca um encantamento já no primeiro plano, o que nos acompanha durante os seus 128 minutos de projeção.

Jodorowsky escreveu e dirigiu um filme autobiográfico cuja fidelidade ou não aos fatos é absolutamente irrelevante perante a beleza da história que é contada. Em Poesia Sem Fim, vemos Alejandro ainda criança sendo levado por seus pais de Tocopila, sua cidade natal, com destino a Santiago, onde passariam a viver. Na capital chilena, em sua adolescência, precisa enfrentar a própria família para seguir o sonho de ser poeta, e não um médico como seu pai planejava.

Poesia Sem Fim é mais do que um filme. É uma união quase onírica das mais variadas formas de expressão artística: a poesia, o teatro, a pintura, a dança, a música e, é claro, o cinema. Cada personagem encarna sua arte em tempo integral. A bailarina está o tempo todo vestida a caráter e caminhando nas pontas dos pés, os dançarinos simbióticos não se desgrudam nunca e os poetas se expressam quase que unicamente através de poesias. Isso traz uma leveza incrível ao filme que, apesar de longo, passa de forma surpreendentemente rápida.

Aliás, a construção de todos os personagens é rápida e eficiente. Em sua primeira aparição, já podemos identificar suas personalidades. O pai de Alejandro, Jaime, é um homem rigoroso e sovina, que não hesita em usar a esposa como escudo humano para defender o dinheiro no trajeto entre a loja de roupas que gerenciam e sua casa. É o oposto completo da mãe, Sara, que é sensível e frágil, e tem todas suas falas cantadas tal qual uma ópera, com direito a uma música de fundo. Stella, a primeira musa de Alejandro, surge no filme de maneira marcante. Em um ambiente sem cor e sem vida, chega com seus cabelos vermelhos radiantes e com uma postura ameaçadora que encanta Alejandro à primeira vista. Mas não só por isso. Stella é vivida por Pamela Flores, a mesma atriz que interpreta sua mãe Sara, o que provavelmente remeta a um sentimento edípico por parte de Alejandro. Inclusive, faria muito sentido que sua veia artística seja justamente por influência dela, visto que a música a acompanha o tempo inteiro.

A escolha do elenco é outro aspecto curioso e encantador do filme. Jodorowsky interpreta a si mesmo nos dias de hoje, surgindo em cena diversas vezes junto às suas versões mais jovens, além de narrar a história que assistimos sempre de maneira poética. Já o papel de Alejandro quando adulto é interpretado por Adan Jodorowsky, seu filho na vida real. Outro filho de Jodorowski, Brontis, interpreta o pai de Alejandro. E é curioso como a passagem do tempo ocorre de forma totalmente livre visto que, enquanto Alejandro surge em quatro fases distintas de sua vida, os seus pais seguem praticamente iguais do início ao fim do filme, sem indicar os sinais da idade. Em determinado momento, Alejandro dorme adolescente e acorda adulto. Aquilo que poderia ser uma simples elipse, também pode ser interpretado como o amadurecimento do poeta ao estar, finalmente, em um lugar no qual poderia crescer e se tornar a pessoa que almejava ser.

Para caracterizar a passagem do tempo, a direção de arte fez um trabalho esplêndido. Em vez de reconstruir a cidade de Santiago de décadas atrás, mais precisamente no bairro operário onde a família de Alejandro vivia, foram utilizados painéis em preto-e-branco, como cenários de teatro, colocados em frente aos prédios reais. Dessa mesma maneira, muitos outros elementos são colocados na tela, tais como uma locomotiva ou pessoas de papelão. Esta alusão ao teatro também se vê em outros momentos quando figuras vestindo collants cobertas dos pés à cabeça surgem para entregar ou retirar objetos da cena, ou movimentar elementos do cenário. Pascale Montandon, esposa de Jodorowsky, é responsável pelos figurinos e faz um trabalho igualmente fantástico, fazendo com que as vestes de cada indivíduo exteriorize de forma marcante suas personalidades. Além disso, é sublime a utilização das cores como elemento narrativo. Destaque para o barco roxo (cor que remete à morte, física ou simbólica) que carrega Alejandro em dois momentos do filme nos quais a vida dele passa por grandes mudanças.

A impressão que fica é de que Alejandro Jodorowsky tem o dom de encontrar a beleza existente em tudo e em todos. E mais do que isso, ele consegue externá-la. É gratificante saber que esta é apenas a segunda parte de uma pentalogia pois, sendo assim, ainda teremos pelo menos mais três filmes para enxergar o mundo através dos olhos de Jodorowsky. Afinal de contas, depois de tudo que ele nos mostra, dá vontade de ficar naquele universo para sempre.

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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