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Homem-Aranha: A Morte dos Stacy | Curiosidades e mudanças para o mercado

Homem-Aranha: A Morte dos Stacy | Curiosidades e mudanças para o mercado

 The Amazing Spider-Man 88-90 \ 121-122 (1970 \ 1973)
Roteiro: Stan Lee \ Gerry Conway
Arte: John Romita \ Gil Kane

 Lembrando, primeiramente, que esse artigo está muito mais para  isso mesmo: um artigo, do que propriamente uma análise ou crítica  dessas histórias. Portanto, não esperem uma analise convencional  como as outras! Mas vamos ao que interessa…

A Morte do Capitão Stacy

O ano era 1970 e o “The Man”, Stan Lee, ainda estava à frente da revista do Homem-Aranha e o mais clássico dos desenhistas do Cabeça de Teia também estava no comando da revista, John Romita. O início dessa década para as histórias do Homem-Aranha trouxe um verdadeiro marco para o personagem, pois foi nessa época que muitos elementos foram criados e consolidados, além, é claro, de seu estilo de desenho. E em tais histórias, muitas das poses icônicas foram criadas aqui, e ver a genialidade simples nos traços do John Romita é de encher os olhos de qualquer fã de quadrinhos. Poder presenciar a construção de um mito da Cultura Pop é sem igual!

Lee havia criado uma outra figura paterna para Peter Parker através de seu sogro, o Capitão de polícia de Nova York George Stacy. Na época, Peter e Gwen Stacy eram um casal super apaixonados, com Peter tendo que dividir sua vida entre combater o crime, ir bem na faculdade, se manter no emprego no Clarim Diário, cuidar da Tia May e ainda restar um tempo para namorar. Na história de The Amazing Spider-Man 90, o Doutor Octopus escapa da prisão e faz um avião refém, o vilão volta à Nova York e à sua procura está o Cabeça de Teia. Com o vilão a solta pelas ruas de Nova York, Peter reúne forças dentro de si para captura-lo, mesmo sofrendo de uma forte gripe, ele sai ao encalço de Octopus. Como dito no paragrafo acima, as poses icônicas do Escalador de Paredes se fazem mais marcantes ainda contra um vilão como o Doutor Octopus. Seguindo a história… após uma batalha entre ambos nos altos prédios da cidade, uma chaminé é atingida, enquanto no chão há pessoas assistindo e os escombros iriam cair em cima de uma criança, o Capitão Stacy surge e empurra para longe o garoto e deixa cair sobre ele os escombros em vez do garoto. Capitão George Stacy é atingido heroicamente pelos escombros.

Na corrida contra o tempo para salvá-lo, o Homem-Aranha retira o Capitão dos escombros e procura pelo hospital mais próximo. Porém, no meio do caminho, o Capitão pede para parar e o Aranha atende esse pedido, deitando-o no telhado de um prédio. Então, ele chama o Homem-Aranha de Peter e pede a ele para cuidar da Gwen. Sim, Capitão Stacy, sogro de Peter, sabia o tempo todo que ele era o Homem-Aranha. Ele falece nos braços de Peter e ele se lamenta, mais uma vez lembrando da perda do tio Ben.

A Morte de Gwen Stacy

Aqui demos um pulo de 3 anos e o ano era 1973, o Stan Lee havia migrado para editor-chefe da Marvel Comics e John Romita não desenhava mais na revista The Amazing Spider-Man. E em seus lugares entraram Gerry Conway (roteiro) e Gil Kane (desenhos) – ele segue traços semelhantes ao de Romita, portanto, a mudança é sutil.

Os anos 70 é conhecido pela psicodelia, do movimento Woodstock e das drogas ilícitas, como o LSD. Peter dividia um apartamento com o seu melhor na época, Harry Osborn e ele por sua vez, namorava com a bela Mary Jane Watson. Harry, que na época era usuário de LSD, se encontrava muito mal de saúde devido a isso. Stan Lee foi muito corajoso na época, ter batido de frente com o Código dos Quadrinhos – código que autocensurava as histórias em quadrinhos no EUA criado em 1951, pois muitas autoridades associavam os quadrinhos aos surtos de delinquência que ocorriam com os jovens na época -, e ter autorizado e lançado uma história de super-herói explorando tal tema (coisa que ele mesmo ja havia escrito em The Amazing Spider-Man 99). Logo após esse tema ter sido um sucesso na revista do Aranha, Neal Adams e Denny O’Neil o exploraram ao maximo na revista do Arqueiro Verde, para a DC Comics.

Porém, não é só contra as drogas que se luta um super-herói e o perigo sempre está a espreita. O pai de Harry, o empresário/cientista Norman Osborn – cuja a verdadeira identidade era do vilanesco Duende Verde -, era o único a saber a identidade secreta do Homem-Aranha; mas na época, ele se encontrava estável e não se lembrava que era o Duende. Norman culpava Peter e seus amigos pelo estado de seu filho, além de enfrentar diversos problemas no trabalho. E com todas essas complicações que enfrentava, encontrando Peter vários dias seguidos, não demorou muito para que se lembre de seu outra identidade e reassuma mais uma vez o posto de Duende Verde!

Então, nada mais justo do que uma vingança contra aquele que causou a tempestade na vida dos Osborn’s: Peter Parker, o Homem-Aranha. Por isso, para se pagar com a mesma moeda, o Duende sequestra Gwen Stacy, a namorada de Peter e a leva para o alto da Ponte George Washington, desacordada. Numa batalha épica entre ambos, o Duende voa em direção a ela com o seu planador e a atinge para ponte a baixo, fazendo com que o Homem-Aranha use suas teias para salva-lá, conseguindo alcançá-la antes de atingir o chão, nos rendendo aquela cena clássica tão conhecida. Conseguindo pegar a Gwen com a sua teia, Aranha a leva até o alto da ponte ao seu lado, porém quando ele tenta acorda-lá, nota algo errado… e sim, ela havia morrido.

Seguindo a trama, que uma vez ou outra tenha ficado meio datada, com basicamente o vilão querendo vingança do herói e o herói conseguindo detê-lo no final da história. Porém, essas histórias do Aranha conseguem ir além, principalmente na época em que se situa, falando sobre drogas na juventude, relacionamentos e afins, e claro, serem extremamentes divertidas e descompromissadas.

Após a morte de Gwen Stacy, na edição de The Amazing Spider-Man 122, o Homem-Aranha segue atrás de sua vingança contra o Duende Verde. Numa antiga doca, que é o QG do Duende, eles se enfrentam e aqui vemos um Aranha extremamente agressivo e vingativo, como antes pouco visto. Em uma infeliz coincidência do destino, o Duende é morto pelo seu próprio planador, em uma frustada tentativa de matar o Homem-Aranha.

Controvérsias

Durante a época houveram diversas discussões de como a Gwen havia morrido, porquê não há uma esclarecimento claro dentro da própria história. Teorias como: será que ela já estava morta quando caiu da ponte? Será que ela morreu durante a queda? Será que foi a teia do Homem-Aranha, de quando que conseguiu agarrá-la, com a força do impacto quebrou o pescoço dela e assim, a matando? Porque no quadro em si, além do desenho impactante do pescoço dela quebrando, vemos uma onomatopeia escrita “SNAP!” bem perto do pescoço dela. Em edições posteriores, respondendo a fãs, o roteirista Gerry Conway revelou que foi a teia do Homem-Aranha durante o puxão em Gwen, que havia quebrado seu pescoço, consequentemente a matando.

Além dessas controvérsias citadas acima, porque, afinal de contas, decidiram matar a tão amada Gwen Stacy?! Anos depois um dos editores da Marvel, Roy Thomas, disse que muitas reuniões foram feitas para decidir quem eles matariam e originalmente a escolha seria a Tia May; porém, no final acabaram optando em matar a namorada do protagonista. E as razões para isso são bem plausíveis e aceitáveis: pois um dos próximos passos no relacionamento entre eles seria o casamento e com o personagem casado ele acabaria envelhecendo. Com uma possível morte da Tia May e o Peter casado, tiraria a figura do Homem-Aranha como um super-herói jovem, e assim, poderia afastar os leitores mais novos que se identificavam com o personagem.

Em entrevista recente para a revista Mundo Dos Super-Heróis (edição 38), Gerry Conway polemizou dizendo: “A Gwen era mais chata do que lavar louça“. Bom, parece que alguém na época já estava com ideia de matá-la, afinal de contas…

Mudança no mercado

A morte da Gwen não trouxe apenas uma mudança para a vida do Peter – que antes já trazia um sentimento de culpa por causa do tio Ben e com a morte dela, cada passo e movimento feito pelo Aranha, ele pensa nela e em suas atitudes como super-herói -, e sim para todo mercado de quadrinhos.

Com a morte dela, muitos historiadores de quadrinhos relatam tambem que “morreu” a inocência nas HQs. Porque antes, basicamente, era a luta do bem contra o mal e o bem sempre vencia, mas nesse caso não! Pela primeira vez se via um herói falhar e perder inclusive um dos seus entes queridos, por isso que muitos falam que a morte da Gwen foi a transição da Era de Prata para a Era de Bronze dos quadrinhos norte-americanos. A partir de tal momento, ficou frequente o sequestro ou a morte dos pares amorosos dos respectivos super-heróis (Demolidor que o diga).

Essa transição da Era de Prata para a Era de Bronze foi a “perda da inocência” dos quadrinhos e talvez um dos grandes marcos seja a morte de personagens queridos, como a Jean Grey ou a Elektra. Porém, ainda víamos muitas histórias no preto e no branco, você reconhecendo muito bem quem era o herói e quem era o vilão, dando pouca ambiguidade para os vilões. Os quadrinhos de super-heróis começaram a ganhar uma ambiguidade e profundidade maior no meio dos anos 80, com obras como Watchmen e O Cavaleiro das Trevas, mas bom, isso já é um assunto para outro especial…

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