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Uma Família de Dois | Crítica

Uma Família de Dois | Crítica

Crítica de Uma Família de Dois, filme com Omar SyUma Família de Dois (Demain Tout Commence)

Ano: 2017

Direção: Hugo Gélin

Roteiro: Jean-André Yerles

Elenco: Omar Sy, Antoine Bertrand, Ashley Walters, Clémence Poésy, Clémenrtine Célarié, Gloria Colston

Conforme sintetiza o título em português, esse é um filme sobre uma família longe de ser tradicional. Eu (quase) sempre implico com as traduções dos títulos, elas costumam entregar o sentido do filme e perder a sutileza dos originais – literalmente, o título em francês significa Tudo começa amanhã, que tem uma relação menos óbvia com o enredo, ganhando concretude nas últimas cenas do filme. Afora isso, vamos à trama: “Uma Família de Dois” retrata a vida de um bon-vivant que subitamente se vê pai (Omar Sy) de uma bebê de 3 meses e precisa aprender a criá-la sozinho, mas não completamente solo pois ele conta com a providencial ajuda de um amigo inesperado (Antoine Bertrand) que ele faz no seu primeiro dia em Londres, onde ele foi procurar a mãe (Clémence Poésy) da filha (Gloria Colston), sendo que ele é francês e não fala inglês – permanecendo sem aprender o idioma durante os oito anos em que vive na Inglaterra seguindo a carreira de dublê de cenas perigosas exibidas em seriados de TV e cria uma vida de sonho para sua pequena, com direito a jogar basquete no trajeto para casa, piscina de bolinhas acoplada a um escorrega na escada de casa e incontáveis jogos e brincadeiras.

Essa família não convencional é posta à prova com a volta da mãe que abandonara a filha e requer participação na vida da menina. Para compor a trama contamos com um pai negro descolado, somado ao estereótipo do amigo gay que dá em cima de todos os homens que passam por ele, uma mãe loira um tanto sonsa com seu namorado engomadinho também negro e uma filha negra com uma inocência que não condiz a uma menina de 8 anos visto que nessa idade as crianças já têm algum discernimento acerca do mundo e a fantasia em excesso já pode ser questionada, principalmente em se tratando da garotinha esperta que o filme constrói em algumas das cenas, sendo uma personagem que não faz sentido pois ao passo que é ágil para algumas coisas, é boba ao extremo para outras, o que constitui duas meninas, sem serem características que se correspondam num mesmo sujeito, mesmo considerando que somos todos sujeitos complexos inseridos no mundo da vida e que somos dotados de múltiplos “eus” que assumimos em diferentes ocasiões – MESMO ASSIM.

Infelizmente, o filme peca em muitos aspectos e em diferentes momentos causa certa repulsa. Ele apresenta, sim, uma comédia num bom tom, tendo situações e diálogos bem engraçados, mas peca na mensagem que cria do que é constituir uma família e ser responsável pela educação de uma pessoa em formação. Esse ponto específico decepciona bastante porque, como já falamos em outras críticas aqui no Bode, não adianta muito o filme ser “legalzinho” e fazer rir se a mensagem final que ele deixa é desvirtuada e sem compromisso com o entendimento que se está criando na compreensão disponibilizada aos espectadores, isto é, se a “moral da história” falha, o filme falha no final, e o saldo fica negativo. Não que este seja um filme ruim, longe disso (o que será perceptível na configuração final da nota da crítica), mas ele tem um potencial que se esvai e não se aproveita a obra para fazer com que o espectador cresça reflexivamente, pois ele fica no plano médio da superficialidade e dos estereótipos em diversos momentos, o que cansa e deprime, mesmo fazendo rir.

Sem querer ser “a” puritana do rolê, mas já sendo mais “certinha”, esse é um filme recheado de maus exemplos. Ele presta um desserviço ao ridicularizar os gordos e pintá-los como sujeitos que não podem ser atraentes ao, em mais de um momento, criar o seguinte diálogo: o cara pergunta se alguém é atraente e isso é negado, então ele direto pergunta se é a pessoa é gorda, como se ser gorda fosse o motivo para “fulaninho” não ser sexy. Também constrói uma figura paterna muito irresponsável e justifica seus erros por ele ser infantil ou por errar querendo acertar – a desculpa mais utilizada, mas ela não serve sempre, por vezes os atos são indefensáveis. Sem esquecer do quão besta é o fato de que em todas as cenas a menininha está com seu cabelo afro-lindo-natural, mas no dia importante que ela vai encontrar a mãe ela está com o cabelo alisado. Por que tomar essa representação como sinônimo de “estar arrumada”?  Por que o cabelo liso tem que ser o arrumado, não poderia ser um penteado no cabelo natural dela?

O filme também ensina que mentir é certo se a intenção for boa e isso mostrado a uma criança pode fazer com que ela crie ideias confusas sobre o viver em sociedade, visto que não podemos esquecer que este é um filme que se pretende voltado a famílias também – que relação é essa que estamos ensinando? A sequência que começa o final do filme é o que mais angustia ao pensar no legado que o filme deixa, visto que a série de ações tomadas por pai e filha poderiam servir somente de lição do que não fazer quando se é pai, tamanho o absurdo do salto que a trama dá e encaminha os personagens para o desfecho.

O filme faz rir, mas é tão irresponsável e com sequências tão absurdas que deseduca mais do que qualquer outra coisa. Aliás, ele cria uma imagem perversa das educadoras, fazendo-as parecer ora marionetes, ora carrascos insensíveis que não agregam à formação dos sujeitos infantis – mais um desserviço para a lista já extensa desse filme.

Nota:

Nota dos usuários:

[Total: 7    Média: 4/5]

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