Bode na Sala
Críticas Filmes

Homem-Aranha 2 | Crítica

Homem-Aranha 2 | Crítica

Crítica de Homem-Aranha 2 (2004)Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2)

Ano: 2004

Direção: Sam Raimi

Roteiro: Alvin Sargent

Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Alfred Molina, James Franco, Rosemary Harris, J.K. Simmons

Todos adoram heróis. Querem vê-los, torcem por eles, chamam seus nomes. E, anos depois, contam como esperaram horas na chuva só para ver quem os fez aguentar mais um segundo. Acredito que há um herói dentro de todos nós, que nos mantém íntegros, nos dá força, nos enobrece e, por fim, nos deixa morrer com dignidade. Mesmo que, às vezes, seja preciso ser firme e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos”, diz a Tia May (Rosemary Harris) em um determinado momento de Homem-Aranha 2, quando Peter (Tobey Maguire) não sabe se quer continuar sendo o amigão da vizinhança. E, nesse belo discurso, entendemos o verdadeiro significado do que é ser um herói: não existe heroísmo para si mesmo; ser um herói é para os outros. E não existe um personagem que exemplifique isso melhor que o Homem-Aranha.

Na segunda aventura do aracnídeo dirigida por Sam Raimi, encontramos Peter Parker já estabelecido como Homem-Aranha, mas com suas atribuições de herói confrontando diretamente sua vida pessoal. Ele não consegue se manter no trabalho de entregador de pizzas, nem comparecer às aulas da faculdade e, muito menos, encontrar tempo para viver um romance. Sempre há crianças no meio da rua para serem salvas de um atropelamento ou bandidos que estão colocando a segurança das pessoas em risco. Na disputa entre o que é bom para Peter e o que é preciso ser feito pelos indefesos, ele sempre acaba escolhendo a segunda opção. Afinal, é isso que um herói de verdade faz.

Na vida daquele que veste a máscara nada é facilitado. Seu melhor amigo, Harry Osborn (James Franco), não o perdoa por tirar fotos do Homem-Aranha, afinal, ele acredita que o aracnídeo matou o seu pai. Tia May está devendo para o banco e, em breve, deve perder a casa. Mary Jane (Kirsten Dunst), o amor de sua vida, está prestes a se casar e Peter impossibilitado de tomar qualquer atitude, já que ele não pode se envolver com ninguém por medo do que seus inimigos possam fazer. E, no meio de toda essa turbulência, e com seus poderes falhando, ele descobre que há uma opção. Ele não precisa ser o Homem-Aranha. Ele pode ser só Peter, o cara que sangra.

Nesse meio tempo, em que o Peter resolve viver a sua vida e deixar de lado o herói escalador de paredes, tudo melhora. Ele consegue ser um cara normal e que, com um certo grau de esforço, conseguirá vencer na vida. Mas, e aqueles que não tem opção? Aqueles que precisam de um herói? Em um momento chave do longa, Peter, já sem poderes, vê um prédio em chamas. Quando ouve que uma menininha está presa em meio ao fogo, sem pensar duas vezes, entra no local e salva a criança. Ele até tenta negar e esconder seu verdadeiro destino, vivendo uma vida normal, mas é um herói. Isso está impregnado em sua alma.

Quando o Dr. Otto Octavius (Alfred Molina) funde braços mecânicos inteligentes à sua coluna e acaba se tornando uma ameaça para a cidade, Peter volta a vestir o seu traje para salvar a todos que precisam do Homem-Aranha. Quando o momento decisivo surge, não há dúvidas. Não é só para salvar a mocinha, não é só para acabar com os planos do vilão, não é só para se provar. É por todos. E é lindo de se ver a entrega do herói.

Em uma das cenas mais memoráveis dos filmes de super-heróis, o vilão, depois de uma empolgante luta com o amigão da vizinhança, acaba arrebentando os freios de um trem e, dentro de alguns minutos, os trilhos acabarão levando os passageiros para uma morte terrível. O herói não mede esforços para salvar aqueles que precisam. Após cumprir a sua tarefa, no momento em que vai cair, aqueles que foram salvos o seguram, e o elevam. Não há representação mais significativa da importância de um herói em outra adaptação de HQ para os cinemas (não que eu lembre, pelo menos).

Tecnicamente, Homem-Aranha 2 consegue inovar ainda mais que seu antecessor. As tomadas aéreas, que colocam o espectador para voar entre os prédios junto com o aracnídeo, são de uma qualidade incrível. Na época, Raimi prendeu câmeras em cabos e, simplesmente, as soltava para que imitassem os movimentos do herói. E o resultado do cuidado e da inovação são visíveis na tela. Além disso, o CGI é bem aplicado e, mesmo mostrando sinais de fraqueza com o passar dos anos, consegue ser mais eficiente que o de muitas produções atuais.

Raimi, por sua vez, fez escolhas extremamente acertadas na condução da história. O seu Doc Ock é um vilão com classe e com motivações fora do “tenho que dominar o mundo e é isso”. Ele quer terminar o trabalho que começou. Afinal, ele perdeu o amor de sua vida para o projeto. É preciso finalizar. E, nesse processo, ele toma decisões sem volta. Se torna um bandido. E cabe ao cabeça-de-teia detê-lo. As lutas entre os dois são ótimas. Quando eles se confrontam no banco e o vilão arremessa sacos com moedas no herói, vemos ali os quadrinhos em movimento. Os momentos que evocam os clássicos do terror, em que as pessoas gritam horrorizadas, como a cena em que os médicos vão serrar os braços do Doutor Octopus, são incríveis e bem empregadas dentro da história. É Raimi trazendo para a Marvel a sua marca.

O roteiro de Alvin Sargent deixa tudo fluído, sem exageros e com uma carga dramática na medida certa. Quando há competência em se contar uma história, não é preciso contar com coincidências absurdas, como as vistas em Homem-Aranha 3 e nos dois péssimos capítulos do reboot comandado por Marc Webb. Temos, aqui, um filme que entrega tudo aquilo que se propõe, sem reviravoltas forçadas, sem deturpação do personagem e sem mexer naquilo que já fora estabelecido na história.

No final das contas, Homem-Aranha 2 é uma linda mensagem sobre fazer o certo, independentemente de ser fácil ou não. Certamente, este é o melhor capítulo da história do escalador de paredes no cinema. Mais do que isso, é um dos melhores filmes do gênero. Atualmente, existem muitos seres superpoderosos metendo porrada e explodindo tudo nas telonas – muitos salvam o mundo, a galáxia e tudo mais. E são incríveis. No entanto, o verdadeiro herói, aquele que coloca o bem-estar dos outros acima de seus próprios interesses, que é livre de vaidades e que não mede esforços para fazer o bem, não é mais visto. Este ficou na década passada e segue um sábio conselho de seu velho tio: “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 6    Média: 5/5]

The following two tabs change content below.
Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 25 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *