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American Gods – 1ª temporada | Crítica

American Gods – 1ª temporada | Crítica

American Gods – 1ª temporada

Ano: 2017 

Criadores: Bryan Fuller e Michael Green

Elenco: Ricky Whitlle, Ian McShane, Emily Browning, Crispin Glover, Bruce Langley, Yetide Badaki, Pablo Schreiber e Gillian Anderson

Por anos uma adaptação do livro Deuses Americanos, um dos maiores sucessos da carreira do autor Neil Gaiman, era desejada. Em 2011, a HBO conseguiu os direitos do livro e trabalhou num pilotoforam feitas três versões diferentes do roteiro e nenhuma das três funcionaram, o que levou o canal abandonou o projeto. Anos depois, o canal Starz adquiriu os direitos e colocou Bryan Fuller (Hannibal) e Michael Green (Logan) como showrunners. Para a satisfação de Gaiman, dos leitores e de novos espectadores, a série funciona.

Partindo do conceito de que os deuses e criaturas mitológicas são reais enquanto a humanidade acredita neles, somos introduzidos a dois grupos: os Velhos Deuses, que foram criados a partir das crenças nórdicas, egípcias, africanas, dentre outras, e encontram-se fracos, uma vez que as pessoas não acreditam neles como antes e vivem como pessoas normais; os Novos Deuses são originados das crenças da sociedade na mídia, na tecnologia, na vigilância e nas drogas, querem destruir os Antigos Deuses, que pretendem criar uma resistência. O taciturno ex-presidiário Shadow Moon (Ricky Whittle) ao ser liberto depois de uma pena de três anos se vê no meio desta guerra quando começa a trabalhar para o enigmático Mr. Wednesday (Ian McShane).

O enredo se move lentamente e demora para fornecer respostas, mas consegue prender a atenção apesar do ritmo e da complexidade da trama. Isso se dá graças aos personagens que destilam carisma e mantêm o espectador envolvido. Ian McShane dispõe de charme e lábia magnéticos como o velho trapaceiro Wednesday, roubando toda a cena em que aparece. Shadow se distancia um pouco do personagem de poucas reações como visto no livro, e aqui aparece mais expressivo em meios aos eventos inexplicáveis que presencia, ainda que o critério para o que ele aceita ou não como “real” permaneça questionável.

Um dos maiores defeitos do livro é que o leitor só acompanha os acontecimentos pela perspectiva do Shadow, com os outros personagens ficando resumidos a duas ou três participações. Os roteiristas foram hábeis ao estender a participação de todos, criando subtramas que, mesmo inéditas, respeitam o material original. Somos capazes de ver bem mais do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e da esposa do Shadow, Laura Moon (Emily Browning). Na adaptação há bem mais espaço para os personagens, que são desenvolvidos explorando seus passados e suas motivações. Outro grande beneficiado é a Media (Gillian Anderson), pois cada aparição dela é na pele de uma celebridade ou personagem fictício diferente, é sempre um absurdo e um prazer vê-la na tela.

Os fãs de Hannibal facilmente reconhecerão o estilo único e marcante de Bryan Fuller. Desde a estética do sangue que atrai pela beleza da composição ao invés da intensidade da violência ao recorrente uso de elementos abstratos, é possível ver a mão de Fuller em todos os episódios. O showrunner continua investindo no visual não para dar assistência à história, mas para se integrar a ela, criando momentos em que a fotografia é de tirar o fôlego com composições impressionantes que roubam a atenção. Embalada pela potente trilha de seu antigo colaborador, Brian Reitzell, que dá atmosfera de mistério e pavor.

Em termos de adaptação, a série toma inúmeras liberdades criativas. Sim, grande parte do material apresentado é diretamente retirado dos livros com algumas atualizações, com direito a diálogos repassados palavra por palavra. Mas a série expande o que é visto no livro, explorando o que acontece nos outros núcleos enquanto Shadow e Wednesday estão em outro lugar, novos personagens são criados e novas situações se desenrolam. Todas as mudanças foram aprovadas por Neil Gaiman e provam o conhecimento e o respeito que os roteiristas têm pelo material original.

Alguns episódios são inteiramente feitos a partir de conteúdo original. Um ponto que ao mesmo tempo é positivo e negativo. Mesmo que tenha mais tempo para explorar diferentes personagens e estender a mitologia deste mundo, estes episódios soam como filler, não movendo a trama principal, o que chega a ser frustrante.

A série não poderia estrear num contexto mais importante. Numa época em que o mais poderoso dos países fecha suas portas para os imigrantes, American Gods ressalta a importância deles na construção do país. Todo episódio começa com uma introdução chamada Vinda à América que mostra diferentes povos, sejam eles bárbaros, africanos, irlandeses ou mexicanos, e a sua chegada aos Estados Unidos. Essas introduções mostram a vida deles, a viagem que fizeram até o país e as crenças que trouxeram consigo, crenças que originaram os deuses do seriado. Explorando o conceito e a extensão da crença, essas cenas demostram como o argumento funciona e brinca com as possibilidades.

Com sua primeira temporada estelar, American Gods é o melhor que a televisão tem a oferecer agora. Um conto de violência, sexo, mistério e fé que não tem medo de ser explícito e toma rumos corajosos com a sua narrativa. Baseando-se no livro, a vida útil da série deve durar mais uma ou duas temporadas, sendo que a próxima já foi confirmada.

Fala-se em uma adaptação de outra aclamada obra de Gaiman, Sandman, nas mãos de Fuller e Green, são ótimos tempos para ser fã.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 5    Média: 4.6/5]
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Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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