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Real – O Plano por Trás da História | Crítica

Real – O Plano por Trás da História | Crítica

Real – O Plano por Trás da História

Ano: 2017

Direção: Rodrigo Bittencourt

Roteiro: Mikael de Albuquerque

Elenco: Emilio Orciollo Netto, Tato Gabus Mendes, Norival Rizzo, Bemvindo Siqueira, Paolla Oliveira, Mariana Lima, Cassia Kiss, Fernando Eiras, Guilherme Weber, Giulio Lopes

De início é preciso reconhecer que este é um enredo de difícil realização cinematográfica. Ele procura remontar a criação do Plano Real a partir do ponto de vista, e da vida, de seu mentor, Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), que é economista, professor universitário e autor de artigos críticos em relação a questões político-sociais. O plano veio como medida econômica para superar a hiperinflação que assolava o Brasil em 1993, quando Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) foi nomeado Ministro da Fazenda pelo então Presidente, Itamar Franco (Bemvindo Siqueira), e montou uma força-tarefa com intelectuais da economia para pensar em ações concretas que fizessem sair da crise financeira e melhorassem a imagem da Presidência, o que levou à ascensão da figura de FHC levando-o a ocupar o cargo máximo do país. O filme é adaptado do livro 3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão (de Guilherme Fiúza), título que se refere à sala de trabalho dos economistas e à carta branca que tinham para desenvolver o plano, como que protegidos num bunker.

É um filme difícil devido à pouca ação propriamente dita, pois se dá majoritariamente ambientado em salas fechadas com muitas contas sendo formuladas. Para expressar a matemática através dos muitos cálculos feitos até chegar à configuração do Plano Real, o filme trabalhou com cenas rápidas, com os números passando na tela, fazendo uso de takes dos economistas elaborando as contas, dando foco na escrita delas e mesmo em caminhadas dos personagens ao redor de mesas para tentar criar dinâmica na narrativa, mas sem sucesso – o filme não conseguiu se desvencilhar da chatice da história, que deve funcionar no livro (não li, as opiniões aqui expressas referem-se estritamente ao filme) mas no filme não tem força narrativa que prenda o espectador. Reconheço o esforço e o jogo de cenas, que já na inicial traz uma contextualização bem elaborada do momento do país em 1993 (quando a equipe entra em ação) expressando a necessidade de uma manobra econômica e a consequente criação do plano, o que se dá instrutivamente, com imagens de arquivo em preto e branco e narração continuada de texto fluido iniciando a trama.

O problema do filme começa já na cena seguinte, quando se introduz o personagem principal, Gustavo Franco, que veio a ser o cara que criou e executou o Plano Real, desde uma ideia de outros economistas que em teoria pensaram na implementação de uma nova moeda colocando-a em uso enquanto a antiga ainda estava em funcionamento, numa transição. Gustavo cria o modo para que isso se concretize, defendendo a moeda implementada, passando ao cargo de Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e ansiando sempre o cargo de presidente do mesmo, o que consegue após variadas manobras. O personagem é criado de modo ao espectador não gostar de todo dele, se intenciona que o público considere ele petulante, arrogante e egoísta, mas se coloca tais aspectos como adjetivos positivos para alguém na posição que ele ocupa e,ou almeja ocupar. O cara desrespeita todo mundo, não se importa em ser grosseiro e desfaz em qualquer sujeito, mesmo os mais próximos a ele e isto é tido como “ok”, o que se percebe em uma das cenas finais em diálogo que ele é chamado de idiota, mas presumidamente “correto” no que faz em nome de sua posição. Pessoalmente, acho inaceitável o modo como ele humilha a sua esposa e isso se repete no tratamento referente a outros personagens também, o que dá a impressão de que tais ações são desculpáveis.

Por outro lado, o lance da livre adaptação de obras é engraçado porque você coloca um aviso no início do filme dizendo que há situações ficcionais construídas como recurso dramatúrgico e, então, você está desculpado pra florear a história e sustentar nela uma vertente da “verdade”. O problema disso é que ao partir de fatos “reais” o público pode (e se intenciona isso) confundir o que aconteceu com o que é naturalmente mais ficcional. Este filme não é um documentário, nele vale tudo isso e se espera diferenciais pois são linguagens diferentes e para transpor um livro para um filme necessariamente o modo de contar precisa ser repensado e, por conseguinte, os diálogos alterados. Mas isso incomoda especialmente nessa produção, principalmente no atual momento do país. Parece que o roteiro se aproveita do contexto de golpe para desmerecer o PT e endeusar o neoliberalismo. Digo assim, diretamente com o nome do partido, porque o filme a todo momento é um ataque engraçadinho às políticas públicas e programas de desenvolvimento implementados, dos quais Gustavo debocha mesmo antes do embrião ser concebido. Ele ri do voto em Lula, endeusa capitalistas, se indigna com “comunistas”, defendendo privatizações acima de tudo. Ao mesmo tempo, o filme tenta se distanciar da extrema direita, fala em ditadura e controle de lucro, sendo Gustavo visto como “contra a indústria”.

A produção exprime muito claramente o ideal que se busca passar atualmente de que o capitalismo é o único sistema possível, dentro desta ideia de democracia em que se vive, e que “sacrifícios são necessários” pelo que o futuro espera. Traz o ponto de vista de uma direita emergente e coloca o capitalismo acima de tudo, inclusive das pessoas que dele dependem. Uma coisa é certa: os novos conservadores vestidos de verde-amarelo adorarão esse filme, afinal ele trabalha com os jargões que eles tanto valorizam, zombando da esquerda que come caviar. Não se falou comunista de iPhone, mas só porque não tinha tal celular na época, visto que na visão restritiva deles é disso que se trata quando alguém que tem grana defende os interesses da população mais pobre, não podendo enxergar para além da sua realidade cotidiana. Aliás, há uma insistência em aproximar Gustavo do contexto atual, sempre trazendo uma dessas referências, citando Moro como ótimo em seu trabalho e tudo mais, se pretendendo imparcial e ridicularizando falas da pseudo esquerda ali representada.

Apesar dos pontos negativos na própria construção do enredo, a estruturação da narrativa é razoavelmente boa, podendo-se acompanhar cronologicamente os fatos e o crescimento dos personagens. Se destaca positivamente o “jogo limpo” ao expor a estratégia para aceitação pública do plano ao lançá-lo em meio à Copa do Mundo de futebol, somando o título de campeão com o sucesso do plano e o encaminhamento para a eleição de FHC.

Nota: 4/10

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