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O Cidadão Ilustre | Crítica

O Cidadão Ilustre | Crítica

O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre)

Ano: 2017

Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn

Roteiro: Andrés Duprat

Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea FrigerioNora NavasManuel VicenteMarcelo D’AndreaBelén Chavanne e Gustavo Garzón

A quem pertence a verdade sobre uma obra depois que o artista a torna pública? O que importa se o que enxergamos na arte é inspirado na realidade ou é mera ficção? Já li e também me fiz estes questionamentos antes, mas é sempre prazeroso voltar a refletir sobre eles, até porque talvez sejam perguntas sem resposta sobre as quais é maravilhoso debater por horas e horas. Por isso, saí da sala de cinema onde assisti  O Cidadão Ilustre louco para conversar com alguém e agoniado por ter visto o filme sozinho. A solução foi escrever e poder, por estas breves horas nas quais encaro a tela do computador, reviver mentalmente os questionamentos e situações que ficaram martelando minha cabeça após o término da sessão.

Escrito por Andrés Duprat e dirigido por Gastón Duprat e Mariano Cohn, O Cidadão Ilustre nos apresenta Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um escritor argentino que há quase quarenta anos abandonou sua cidade com destino à Europa e está vivendo o momento de reconhecimento máximo de sua carreira com a conquista do Prêmio Nobel de Literatura. Anos depois, morando em Barcelona, Mantovani recebe uma carta vinda de sua terra natal, Salas, um vilarejo localizado na província de Buenos Aires, convidando-o para os festejos de aniversário da cidade, homenagens e algumas atividades culturais. Mantovani decide aceitar o convite, e ao retornar pela primeira vez ao lar em décadas, é tratado como uma celebridade por grande parte dos habitantes, como um traidor por outros, e depara-se com a realidade que lhe fez partir de lá anos antes.

A cena inicial do filme já nos traz uma ideia muito clara sobre o personagem vivido por Oscar Martinez. Enquanto escutamos ao fundo um discurso que exalta suas qualidades como escritor, o vemos com a cabeça apoiada entre as mãos, com uma expressão de angústia, algo que não parece apropriado para o momento. Ao ser chamado ao palco onde receberia o Prêmio Nobel das mãos do próprio Rei da Suécia, Mantovani faz um discurso inesperado, ressaltando não o orgulho pelo prêmio e sim a dor por sentir que suas histórias não possuem mais o impacto de outrora. Uma insatisfação com seu próprio trabalho que o faz parar de escrever por vários anos. Sua assistente Nuria (Nora Navas) passa mais tempo desmarcando eventos de seu chefe do que o acompanhando. Isso até a chegada da carta e a decisão de, pela primeira vez em 40 anos, retornar à sua cidade natal.

A partir daí os questionamentos que citei no início surgem com frequência. Diversos habitantes de Salas acreditam que eles ou algum conhecido/parente está representado nos livros de Mantovani. Acreditam não, têm certeza. No entanto, o escritor jamais confirma isso. Às vezes, inclusive, parece surpreso com o que escuta, nos deixando na dúvida se a semelhança com a realidade é uma coincidência, uma inspiração consciente ou talvez uma transcrição inconsciente do que ele viveu naquela terra em sua infância. O próprio escritor se vê em meio a uma jornada de descobertas sobre sua obra ao ser interpelado e forçado a perceber que enxerga a literatura e suas motivações de maneira diferente do que décadas atrás.

A direção fantástica de Duprat e Cohn me força a repetir o questionamento: quando a obra é apresentada, existe apenas uma interpretação correta sobre ela? Digo isso porque, no primeiro capítulo do filme (que é separado tal qual um livro), me causou estranheza os enquadramentos utilizados. Daniel Mantovani surge o tempo todo em planos com os pés “cortados”, o que não é muito comum. Várias vezes em planos mais fechados, ou o chamado “plano americano”, mas pouco vemos seus pés encostando o chão. Só começamos a enxergar mais seus pés em contato com o solo a partir do final do segundo capítulo. É como se ele estivesse, finalmente, reencontrando as suas raízes, algo que ele não possuía na Europa e nem mesmo no primeiro momento quando havia há pouco retornado ao lugar onde nasceu e ainda se sentia um estranho ali. Será esse o significado que os diretores colocaram nos planos? E o principal: isso importa? Ou importa mais a forma como nós sentimos e interpretamos aquilo que vemos?

Outro ponto que merece destaque é a direção de arte. Um trabalho irrepreensível ao retratar os ambientes externos da pequena cidade de Salas, com sua atmosfera decadente, com bares abandonados, o busto mal feito em homenagem ao escritor e onde até as belezas naturais de outrora já não são mais as mesmas. As composições de quadro, em especial nas cenas envolvendo o seu velho amigo Antonio (Dady Brieva, impagável no papel) tanto em casa quanto no estabelecimento de reputação questionável chamado de “El Volcán”, são maravilhosas. Sem falar na forma como as cores utilizadas em alguns objetos e ambientes dão dicas a respeito do desenrolar de situações importantes na trama.

Para completar, o trabalho do elenco é espetacular, dos personagens principais até os figurantes. Cada velhinha na janela, cada camponês acompanhando atentamente as palestras de Mantovani, cada cidadão que segue o ilustre conterrâneo o filmando pela rua com seus modestos aparelhos celulares, parecem tirados da realidade e colocados diretamente na tela. Entre os personagens de destaque, fora Antonio que já foi citado anteriormente e é, sem dúvida, o mais fantástico, temos ainda a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio), o prefeito Cacho (Manuel Vicente), o rancoroso Romero (Marcelo D`Andrea) e a bela Julia (Belén Chavanne), todos excelentes em seus papéis, sem exceção.

Em uma das primeiras cenas do filme, Daniel Mantovani explica que só escreve quando tem algo para dizer. Em outro momento, fala que tudo que escrevemos é sobre nós mesmos. Foi exatamente isso que senti ao sair da sessão. Necessidade de escrever por ter me identificado com diversas situações ali apresentadas. Com humor suficiente para ser visto como uma comédia inteligente e com um enredo profundo o suficiente para ser encarado como um drama, o filme tem potencial para agradar vários tipos de público. Acredito que O Cidadão Ilustre mexa principalmente com qualquer um que goste de escrever,  seja profissional ou amador, para o grande público ou mesmo em um caderno secreto que talvez jamais seja lido sequer pelo próprio autor.

Nota: 10/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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