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Monster Trucks | Crítica

Monster Trucks | Crítica

Crítica do filme Monster Trucks, com Lucas TillMonster Trucks

Ano: 2017

Diretor: Chris Wedge

Roteiro: Derek ConnollyJonathan Aibel, Glenn BergerMatthew Robinson

Elenco: Lucas TillJane LevyThomas LennonBarry Pepper, Rob Lowe, Amy Ryan e Danny Glover

Anos atrás existia um desenho chamado The Tick. Acho que passava no canal FOX. A cidade onde The Tick vivia e combatia o crime era cheia de super-heróis. The Tick tinha um parceiro chamado Arthur, que era um gordinho vestido de traça. Em um episódio, eles vão a um baile só para super heróis. Na entrada, Arthur é barrado e diz que na festa não entram “parceiros”. Os parceiros precisam ficar nos fundos, na “Cabana dos Parceiros”. Chegando lá ele encontra toda sorte de “ajudantes” de super-heróis, em uma reunião no mínimo deprimente. Por que eu estou falando disso na crítica de Monster Trucks? Explicarei a seguir.

Escrito por Derek Connolly (de Jurassic World) e dirigido por Chris Wedge (do tenebroso Robôs) Monster Trucks conta a história de Tripp (Lucas Till), um jovem que sonha em ir embora da pequena cidade onde vive com sua mãe. Apaixonado por carros, em especial as picapes, trabalha em um ferro velho e lá tenta montar uma camionete com as sobras dos veículos destruídos. No entanto, em um campo de petróleo próximo, um acidente na perfuração libera monstros que vivem em um leito d`água subterrâneo. Um dos monstros foge e se aloja na picape de Tripp que, após descobrir que ele é inofensivo e inteligente, passa a utilizá-lo como “motor” do carro. Não façam essa cara. Não fui eu quem inventou isso.

A história sem pé nem cabeça se justifica pela brincadeira com o termo “monster truck”, utilizado para aqueles veículos com rodas enormes muito utilizados em shows de destruição de automóveis nos Estados Unidos. No filme, o termo acaba ganhando a conotação literal. Uma bobagem, é claro, mas funcionaria para crianças. Para facilitar a aprovação do público infantil, o filme inicia de forma acelerada, nos apresentando os eventos da liberação dos monstros em poucos minutos, com cortes rápidos e uma óbvia música de ação que tenta dar emoção a uma cena onde pessoas decidem se perfuram ou não um poço de petróleo que pode destruir um ecossistema. Ou seja: na parte que as crianças achariam um porre mas é necessária para explicar as bizarrices que viriam em seguida, a montagem e a trilha sonora garantem que passe da forma mais rápida e emocionante possível, para segurar a atenção dos pequenos. Em seguida, a sucessão de personagens clichês parece seguir uma check list para filmes de monstros (ou alienígenas, ou robôs, etc) bonzinhos.

A equipe de segurança da empresa faz o papel do exército de outros filmes e persegue o monstro liderados por um homem muito malvado. Temos o jovem que sofre pela saudade do pai que o abandonou. Temos o policial que primeiro não acredita na história e depois ajuda a resolver as coisas. Temos o monstro assustador mas bonzinho. Temos muito outros clichês que não posso citar para não dar spoilers, mas já deu pra ter uma ideia. Mesmo seguindo uma receita tradicional, o filme não funciona. Pelo menos não para quem assistir com o mínimo de atenção, o que provavelmente não inclui as crianças de até 8 anos (o provável público alvo) e nem os pobres pais que terão que levá-las e ter que administrar pipoca, refrigerante e banheiro de todas elas enquanto tentam entender o que se passa na tela. Mas se conseguirem assistir alguns minutos seguidos, certamente ficarão na dúvida sobre personagens que aparecem ou somem sem maiores explicações. O pai de Tripp, por exemplo, simplesmente não justifica sua existência no filme. Nem o suposto “trauma” do jovem por ser abandonado seria necessário. Portanto, forçar a existência de um pai e dar uma função tão irrelevante para ele cria um pretenso drama que não convence em momento nenhum. Apenas no terceiro ato a ação do filme se torna mais atraente (para crianças, que fique bem claro) e acaba justificando parcialmente o que foi visto até então. Mas o que dizer da “namorada-do-playboy-que-dirige-uma-camionete-irada”? Se ela tem nome, impossível lembrar. Mesmo assim, a moça interage com o protagonista diversas vezes sem nenhuma razão aparente.

Se a história é ruim, as atuações também ajudam muito pouco. A opção por um estilo de interpretação caricatural por parte dos atores faz com que o filme não convença em momento nenhum. Os personagens mais reais ali são justamente os monstros. Lucas Till só lembra de atuar como o jovem traumatizado e sonhador nos momentos em que vai falar frases como “Não fale do meu pai!” e outras do gênero. No resto do tempo, é arrogante, indiferente e muitas vezes egoísta. Já Meredith (Jane Levy) é inexplicável. Caretas exageradas o tempo inteiro e, pelo jeito, uma pessoa sem nenhum amor próprio mas que não liga para isso. Dá impressão que não filmaram toda a parte do roteiro que justificaria o comportamento dela em relação a Tripp. Ela surge do nada como uma garota que vai ajudar Tripp com a matéria de Biologia, mas que fica claro que seria apenas uma desculpa para ficar perto dele. A partir de então, ela é ignorada por ele durante quase todo o filme, mesmo fazendo milhares de favores e resolvendo todos os problemas que ele cria, inclusive pagando mais de 300 dólares de gasolina para o “monstro” dele.

Este comportamento citado acima unido às aparições da “namorada-do-playboy-que-dirige-uma-camionete-irada” e a participação de Danny Glover como o “chefe” de Tripp, foram os motivos que me fizeram lembrar da Cabana dos Parceiros citada anteriormente. A ausência completa de preocupação com a representatividade de mulheres e negros, só para citar duas das minorias nas produções cinematográficas, lembra filmes da década de 80. Apenas os homens brancos tem falas e participações relevantes. Danny Glover, Jane Levy e o gordinho ruivo certamente seriam encaminhados à Cabana dos Parceiros da festa de lançamento de Monster Trucks.

O pior de tudo é que o público que pode apreciar esse filme não tem maturidade para perceber isso. Crianças aprendem através do exemplo e muitas vezes são educadas pelos filmes e desenhos que assistem repetidas vezes. Mostrar a mocinha do filme se humilhando sem razão para o mocinho durante todo o tempo da projeção passa uma mensagem bem clara. E isso é deprimente e revoltante

Nota: 3,5/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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