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Crítica | Internet – O Filme

Crítica | Internet – O Filme

InternetInternet: O Filme (2017)

Direção: Fillipo Capuzzi Lapietra

Roteiro: Rafinha Bastos, Dani Garutti e Mirna Nogueira

Elenco: Felipe Castanhari, Rafinha Bastos, PC Siqueira, Júlio Cocielo, Mr. Poladoful, Cellbit, Mr. Catra, Cauê Moura, Pathy dos Reis, Christian Figueiredo

Por André Bozzetti

Fazer a crítica em vídeo logo que saio da sala de cinema tem suas vantagens e desvantagens. As vantagens são: ela fica pronta mais rápido e pode ir ao ar antes (quando nosso querido editor não está sobrecarregado como esta semana), e também por pegar a “emoção” de momento, a forma como saímos da sessão. As desvantagens são que não chegamos a “digerir” direito o filme e também, por falta de ensaio e tempo de planejamento, acabamos esquecendo de comentar algumas coisas relevantes. E foi isso que me fez escrever a crítica, agora com mais calma, deste “Internet – o Filme”, mesmo tendo gravado um vídeo que vocês terão acesso em breve.

Escrito por Dani GarutiRafinha Bastos e Mirna Nogueira e com direção de Fillipo Capuzzi Lapietra, a história mostra diversas tramas simultâneas de web celebridades que tem como palco uma convenção de Youtubers. Existe o campeão de Street Fighter ameaçado por “terroristas”, o Youtuber mais famoso do país que perde seu posto para uma “criação” sua, uma fã das web celebridades que arrasta para a convenção sua amiga que detesta estes vloggers, o casal que usa seu cachorro como estrela do canal, o fã psicopata de uma web celebridade decadente e um trio que conquistou uma premiação pela criação de um aplicativo e precisa decidir quem ficará com o prêmio que é uma única passagem para Los Angeles.

Talvez eu tenha esquecido de citar alguma coisa mas já dá pra ter uma ideia. Vamos partir do básico: um filme com pouco mais de 90 min com todas estas histórias acontecendo simultaneamente precisa que elas estejam bem amarradas para funcionar. Não acontece. Os únicos elos entre elas são a convenção e a disputa para ser o Youtuber mais votado. São histórias que podiam acontecer isoladamente e não faria a menor diferença. Mas este não seria um problema, caso elas fossem bem desenvolvidas, é claro. Com tão pouco tempo de filme e tanta coisa acontecendo, é óbvio que haverá furos. E é impossível lembrar de todos eles. Eu perdi a conta de quantos personagens aparecem e somem da tela sem nenhuma explicação ou função. Minto, alguns são bem óbvios. Os Youtubers que fazem pequenas e inúteis participações com a única finalidade de atrair seus milhões de seguidores para a sala de cinema. Minha dúvida é como eles vão se sentir quando os virem por cerca de 20 segundos na tela e desaparecendo sem explicação.

Se a narrativa como um todo é ruim e desonesta com os fãs de alguns destes youtubers, outro aspecto pavoroso do roteiro são os diálogos e piadas. Quase todo o tempo são piadas ofensivas, de mal gosto ou simplesmente infantis (piada com “peido” já deu, né? Os roteiristas tem que idade? 12 anos?). Mas a galera fã da “zuêra”, que acha tudo “mimimi” e que “o mundo tá muito chato” vai achar muito engraçado o fato de jovens abrirem mão de uma viagem para Los Angeles porque, para ficar com a passagem, terão que beijar uma menina gorda e negra. Aham. É um castigo grande demais para eles, segundo os roteiristas. Se o filme já estava ruim antes dessa situação ser mostrada, a partir daí fiquei com repulsa. O personagem de Cauê Moura parece fazer um exercício de metalinguagem falando “Que bosta” o tempo inteiro (praticamente a única coisa que fala), pois ele só pode estar se referindo ao próprio filme. E o constrangimento só aumenta na hora que somos apresentados ao casal que agencia o próprio cachorro, que se chama Brioco. Repetem uma dezena de vezes a mesma piada com o nome do cão, de maneira artificial e novamente de uma infantilidade ridícula.

Dirigindo de volta para casa, tentei enxergar o filme como uma crítica a esta busca incessante de fama fácil na internet. Eu até poderia acreditar nisso se não estivessem envolvidos no projeto tantos youtubers que não possuem conteúdo nenhum e que seriam capazes (ou até mesmo JÁ FORAM CAPAZES) de fazer algumas das coisas patéticas ali apresentadas. Sendo assim, o ideal do filme se mostraria uma desculpa esfarrapada para unir 30 personalidades da internet que garantirão um lucro fenomenal a um filme sem grandes custos, visto que se passa praticamente inteiro no hotel e em alguns quartos que podem ser de estúdio ou reais, tanto faz.

Para criar o ambiente típico de internet, o filme utiliza  montagens características dos canais de youtube jovens, com efeitos sonoros, vinhetas e coisas do tipo. Seria uma ferramenta eficaz, não fosse o fato de que nada mais ali se justifica como um filme realizado por profissionais e com finalidades comerciais. Os atores não convencem, afinal são praticamente todos amadores. Não bastando isso, seria impossível tirar leite de pedra fazendo algo convincente em um filme que, durante quase todo o tempo, é sem pé nem cabeça. Para tentar disfarçar esta falta de sentido, saltam entre as tramas com tanta frequência que tornam difícil de lembrar como elas começaram e o que se perdeu no meio. Na verdade, praticamente nenhuma delas se explica sequer minimamente. E as que se explicam, são ruins. A utilização de personalidades famosas do folclore da internet como Raul Gil, Palmirinha e Mr. Catra (e outra “surpresa” que não vou citar, afinal mesmo filmes ruins não merecem spoiler) são a gota d’água para transbordar o  copo dos clichês.  Uma piada recorrente era sobre o quanto todos ali odiavam o Felipe Neto. Confesso que não entendi. Por mais que eu considere o Felipe Neto (ou aquela persona que ele representa) uma pessoa repugnante, vejo pouca diferença entre ele e alguns youtubers que participaram da produção, cuja estratégia para serem “legais” é gritar e falar palavrões. Ah, e falar futilidades sem fundamento nenhum. Normal.

Falei na crítica em vídeo que fiz junto ao Rafael quando saímos da sessão que aquilo para mim não era cinema (não sei se continuará no vídeo após a edição). Me arrependo de ter dito aquilo, mas era a sensação ao sair da sala e acabou sendo bem arrogante. Além disso, este tipo de filme tem tudo para ser a nova onda do cinema comercial brasileiro. Estamos em fevereiro e já foram lançados dois filmes de Youtubers. Antes teve o filme da Kéfera que, felizmente, não assisti. Certamente teremos muitos outros porque é onde o dinheiro está, junto com os filmes baseados em programas ou personagens de humor. Se o público já é garantido, não custa nada trabalhar um pouco melhor na qualidade do que será mostrado, não é mesmo? Espero que esta moda consiga evoluir ou que simplesmente seja substituída por outra o quanto antes. .

Nota: 1/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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