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Crítica | O Lagosta

Crítica | O Lagosta

O O LagostaLagosta (2015)

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou

Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Ben Whishaw, John C. Reilly, Léa Seydoux

Por Rafael Bernardes

Futuros distópicos fazem sucesso no cinema. Blade Runner, que ganhará continuação neste ano é um grande exemplo. Nas séries não é diferente, Westworld é um dos maiores sucessos da televisão atual. Em o Lagosta, não vemos uma história que possua a vontade de ser um sucesso, mas sim, fazer com que o espectador questione os relacionamentos da nossa sociedade através de metáforas. O diretor grego Yorgos Lanthimos, conhecido por obras não convencionais como Alpes e Dente Canino utiliza de artifícios para deixar o filme ainda mais bizarro do que sua premissa propõe. Isso é proposital e o resultado é eficiente.

O excelente roteiro é escrito por Lanthimos e Efthymis Filippou, apresentando um futuro onde todas as pessoas devem ser casadas. Caso contrário, são levadas a um hotel, onde têm 45 dias para encontrar um par. Ao falhar no objetivo, a pessoa é transformada em um animal de sua escolha e é libertada para viver na natureza. Dave é o personagem principal, protagonizado por Colin Farrell, que está acima do peso e realizando a atuação de sua vida. A história gira em torno desse homem, que está sempre cabisbaixo por ter se divorciado. Ele chega ao hotel com um cachorro, que é na verdade seu irmão solteiro. Mesmo com toda a estranheza da trama, nos envolvemos desde o início e o ar cômico e melancólico prende a atenção e diverte ao mesmo tempo.

Aos poucos, todas as críticas sobre os nossos relacionamentos amorosos e a forma com que eles são impostos começam a aparecer. A reação do espectador é rir, mas não só por ser engraçado (e é), mas também por retratar a realidade de uma forma diferente. No primeiro ato, nenhum clichê é encontrado na trama, a originalidade espanta e faz com que seja atrativa e entusiasmante. A história é narrada por uma personagem que é conhecida na metade do filme, vivida por Rachel Weisz. Sua voz ameniza a realidade melancólica que é mostrada, fazendo com que um pouco de esperança esteja presente através de suas palavras.

O ritmo do primeiro ato é envolvente e as coisas avançam no tempo certo, sem ser rápido demais. Depois da metade da trama, tudo é contado mais lentamente, desenvolvendo outros personagens e evoluindo a história. O ar cômico e irônico é substituído por um drama pesado. As reflexões se tornam ainda mais profundas. É na transição do segundo para o terceiro ato que um furo de roteiro aparece e incomoda bastante. Esse é um dos poucos problemas, além do ritmo que altera constantemente depois da metade do filme. A trama agora além de criticar severamente as relações amorosas e interpessoais da sociedade, desenvolve uma história concreta que deixa o espectador aflito e torcendo para que as coisas se encaixem e terminem bem.

A trilha sonora é sempre precisa e reflete a agonia da obra. A fotografia é uma das mais lindas dos últimos anos, transpassando a frieza e infelicidade de uma sociedade obrigada a amar. A direção de Lanthimos é muito bem executada e não há floreios, a objetividade é uma característica do diretor, que retrata com maestria aquele futuro distópico. O Lagosta é um filme que vai melhorando conforme pensamos mais sobre ele. A possibilidade reflexiva é o ponto mais forte e a criatividade é assustadora. No fim, o roteiro poderia ter sido um pouco mais corajoso, mas isso não atrapalha todo o mérito dos escritores e do diretor. Ao meu ver, o longa deveria ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme e poderia ter entrado na vaga de pelo menos duas produções. As pessoas não deveriam rejeitar o diferente, e sim, abraçá-lo e aprender com ele.

Nota 9/10.

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