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Crítica | O Apartamento

Crítica | O Apartamento

Crítica de O Apartamento, longa indicado ao OscarO Apartamento (Forushande)

Ano: 2016

Direção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak Karimi, Mojtaba Pirzadeh, Maral Bani Adam, Emad Emami, Farid Sajjadi Hosseini, Sam Valipour, Shirin Aghakashi, Ehteram Boroumand, Mehdi Koushki e Sahra Asadollahe

Por André Bozzetti

Conheço menos do cinema iraniano do que gostaria e, cada vez que assisto um filme como esse, acabo prometendo a mim mesmo que corrigirei esta falha. É uma pena que tão poucas salas de cinema de Porto Alegre abram espaço para algo que fuja do circuito comercial comum, e que obras desse tipo tenham que batalhar por horários, tendo maior chance apenas quando, como neste caso, são indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

O Apartamento foi escrito e dirigido por Asghar Farhadi e nos traz a história de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), um casal de atores que, certa noite, é obrigado a evacuar o prédio onde moram porque ele está sob risco de desabamento. Sem ter onde ficar, aceitam a oferta de se mudar temporariamente para um apartamento de outro ator de seu grupo, cuja inquilina havia se mudado há poucos dias e portanto estava vazio. No entanto, ainda nos primeiros dias, um homem invade o apartamento enquanto Rana está tomando banho. Ela é encontrada pelos vizinhos ferida e desacordada. Rana fica traumatizada com a situação e Emad resolve investigar por conta própria para descobrir a identidade do agressor.

Este é o tipo de trama que funcionaria muito bem como um simples thriller de suspense, mas neste caso vai muito além disso. A direção de Asghar Farhadi vai nos levando ao longo das mais de duas horas de projeção a compreender os sentimentos dos protagonistas, mostrando que além de um filme de suspense estamos diante de um drama psicológico. Vemos o sentimento de vingança de Emad crescer pouco a pouco em função da recusa de Rana de ir à polícia prestar queixa. Recusa esta decorrente dos motivos que já conhecemos em casos de ataques a mulheres: a vergonha e o medo de ser julgada por sua conduta mesmo sendo a vítima.

Farhadi, portanto, desenvolve seu filme no ritmo que leria um livro para uma criança dormir e, mesmo assim, este jamais se torna arrastado e cansativo. Muito pelo contrário. Ele vai apresentando elementos do suspense enquanto acompanhamos a tensão emocional dos protagonistas aumentar gradativamente. Como comparei o filme com a leitura de um livro, posso dizer que até a sua montagem tem a suavidade de uma página sendo virada lentamente, como se estivéssemos ainda terminando de lê-la enquanto corremos os olhos para a página seguinte.

Além da direção cirúrgica de Farhadi, o excelente trabalho do elenco como um todo prende nossa atenção e aguça a curiosidade sobre o desenrolar da trama. Começando por Taraneh Alidoosti, a mudança na personalidade de Rana de antes para depois do trauma é forte e ao mesmo tempo sutil. Inicialmente se mostrava decidida, divertida e prática. No entanto, após o ataque, apesar de tentar esconder dos outros, a vemos constantemente com o olhar distante, tensa, com medo de apagar a luz, fechar a porta, ficar sozinha e até mesmo de tomar banho no banheiro onde a situação ocorreu. Emad, por sua vez, não consegue esconder as alterações internas que vai sofrendo. Shahab Hosseini, de maneira fantástica, acrescenta pequenas mudanças em seu personagem pouco a pouco. Se em um primeiro momento ele demonstra apenas angústia e pesar por sua esposa, em seguida podemos perceber a raiva crescendo dentro dele. E fica claro que é muito mais por seu próprio orgulho ferido do que pela preocupação com Rana. Ainda temos a participação tocante e sensível de Farid Sajjadi Hosseini, que mesmo surgindo tardiamente na tela, consegue em pouco tempo trazer profundidade ao seu personagem.

O Apartamento não é o título adequado para o filme que se apresenta, pois o imóvel em si pouco influencia na narrativa. O título original poderia ser traduzido como O Vendedor, que faria muito mais jus à história, visto que o casal de atores que a protagoniza está interpretando a peça “A morte do caixeiro viajante” e, tal qual o vendedor que é seu personagem na peça de Arthur Miller, Emad vê crescendo em si um sentimento de culpa auto infringida que, não conseguindo transferir para outros, o consome paulatinamente. Um lindo filme que não desaparece do pensamento tão rápido quanto os curtos créditos que vemos na tela quando o mesmo termina. O acender das luzes é abrupto demais e nos tira da sala ainda enquanto o digerimos. E como é bom poder sair do cinema ainda inundados nas emoções que o filme nos despertou.

Nota: 9/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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