Bode na Sala
Críticas Filmes

Crítica | Armas na Mesa

Crítica | Armas na Mesa

Crítica de Armas na Mesa, filme com Jessica ChastainArmas na Mesa (Miss Sloane)

Ano: 2016

Direção: John Madden

Roteiro: Jonathan Perera

Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-RawJohn LithgowMichael StuhlbargAlison Pill, Dylan BakerSam Waterston

Por André Bozzetti

Sábado à noite. Você está em casa sem nada pra fazer. Sem dinheiro ou vontade de sair de casa, resolve sentar no sofá para assistir televisão. Antes, prepara umas pipocas e começa a zapear entre os canais a procura de um filme quando de repente percebe que a TV a cabo está fora do ar e, por também estar sem internet, a Netflix não é uma opção. A única opção é a TV aberta. Surge na tela o logo do Supercine e, resignado, você se acomoda para aceitar o que vier. Para sua surpresa, começa um filme interessante que cumpre com eficiência o seu papel naquela noite monótona (vamos desconsiderar o fato de que o filme seria dublado, o que para mim sempre estraga a experiência). Este é o cenário perfeito para encaixar o filme Armas na Mesa, visto que o cinema não parece ser o lugar dele.

Escrito por Jonathan Perera e dirigido por John Madden, a trama nos apresenta Elizabeth Sloane (Jessica Chastain), uma lobista fria, que comanda sua equipe de maneira autoritária e utiliza todos os meios necessários para atingir os seus objetivos. No entanto, quando um importante senador contrata a firma na qual Sloane trabalha para convencer a população a ir contra uma lei que regulamenta o acesso às armas de fogo, ela se posiciona contra e aceita o emprego em um concorrente que está fazendo a campanha exatamente oposta. A partir daí, ela precisa convencer os senadores a aprovarem a lei ao mesmo tempo que enfrenta a concorrência e a ameaça de seu antigo chefe e dos seus ex-colegas.

Foi estranho assistir a este filme no cinema, pois eu me senti presenciando um episódio de Lei e Ordem ou algo assim. O roteiro de Perera, apesar de interessante, usa diversos clichês de filmes de tribunal e de conspirações. Além disso, exagera na premeditação das atitudes da protagonista que, mais do que uma excelente estrategista, tem ares de vidente, pois já sabe tudo que vai acontecer por mais improváveis que possam ser as estratégias dos adversários. Algumas vezes, isso até é bem explicado e segue uma lógica. Porém, em outros momentos, acontece um acerto com a probabilidade semelhante a de se ganhar na Mega Sena sozinho. Isso acaba enfraquecendo um roteiro que possui algumas qualidades, como o tema do direito ao porte de arma nos Estados Unidos.

Chastain constrói a protagonista como uma mulher que jamais demonstra fraqueza em frente aos seus aliados ou adversários, mas lida secretamente com sua insônia e vício em medicamentos controlados decorrentes do stress de sua profissão. Esconde sua solidão saindo com garotos de programa e só exterioriza suas frustrações quando sabe que ninguém está por perto. A personagem teria mais força se tivesse alguma companhia do mesmo nível. No entanto, sua equipe é formada por jovens que lembram estagiários apenas esforçados e seus adversários todos somados mal conseguem acompanhar seus passos. Dessa maneira, de novo, o filme fica com cara de seriado de TV onde sabemos que nada pode acontecer com ela pois a heroína estará presente no episódio da semana seguinte. Para piorar, vários atores e atrizes (incluindo Chastain) são caras conhecidas de séries como CSI e Lei e Ordem, o que também dá um ar de seriado para o filme no momento em que representam papéis semelhantes àqueles feitos na TV.

A direção de Madden não foge do básico e ainda é prejudicada pela montagem desnecessariamente frenética que foi utilizada. Ela tenta dar um ar de urgência com seu ritmo acelerado por cortes rápidos em um filme cujo tema merecia ser mais debatido e gerar alguma reflexão. No entanto, isso claramente não era a intenção dos realizadores, pois não há tempo para se raciocinar em cima de situação alguma, enquanto os quadros e planos mudam em uma velocidade inexplicável. Voltando às séries de TV, lembrava muito as cenas de ação de 24 Horas, mas neste caso eram apenas pessoas discutindo em salas de reunião.

Não é um filme ruim, mas não tem cara de cinema. Além de não acrescentar nada ao gênero dos thrillers sobre conspiração ou filmes de tribunal, perdeu a chance de trazer para discussão de forma eficiente um tema absolutamente polêmico e importante como a regulamentação do porte de arma nos Estados Unidos. Pouco fica para se pensar quando começam a passar os créditos, e certamente some da nossa mente logo que levantamos da poltrona.

Nota: 5/10

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close