Bode na Sala
Críticas Filmes

Crítica | Até o Último Homem

Crítica | Até o Último Homem

Crítica de Até o Último Homem, filme de Mel Gibson com Andrew Garfield, indicado ao OscarAté o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Ano: 2016

Direção: Mel Gibson

Roteiro: Robert Schenkkan e Andrew Knight

Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Luke Bracey, Teresa Palmer, Hugo Weaving, Rachel Griffiths e Vince Vaughn

Por Carlos Redel

Depois de um hiato de 10 anos sem sentar na cadeira de diretor, Mel Gibson retorna ao comando de um longa com Até o Último Homem, que concorre em seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator. Ou seja, como cineasta, no ponto de vista da indústria cinematográfica, Gibson ressurge de maneira triunfal.

O longa conta a história real de Desmond Doss, um adventista pacifista que esteve na Segunda Guerra Mundial sem nunca ter disparado um tiro sequer. O soldado eleva o típico herói norte-americano a outro nível: salvou dezenas de companheiros e recusa-se a tirar vidas, lutando apenas com sua fé, coragem e altruísmo. Um Capitão América da vida real. Obviamente, esta história precisava ser contada.

De origem humilde, Doss (Andrew Garfield) foi criado por uma mãe carinhosa (Rachel Griffiths), um pai violento (Hugo Weaving), que encontrou na bebida uma saída para seus traumas conquistados na guerra. É por conta do reflexo de seu conturbado seio familiar que jovem encontra a sua fé, sua ideologia, sua maneira de seguir em frente e buscar redenção.

No primeiro ato do filme, somos apresentados ao personagem, sua origem e suas motivações. É neste momento que a história quase pende para o clichê. Quase. Por sorte, Gibson tem o total controle de seu longa-metragem e sabe exatamente o que quer mostrar. Ele encontra em Doss a tela perfeita para ressaltar a religião e a fé, transformando o personagem em uma figura messiânica. Sem qualquer floreio, o diretor destaca o seu protagonista com sinais divinos, como a luz que emana no vitral da igreja, iluminando Doss.

A trama se passa durante a Segunda Guerra Mundial e, convencido de que precisa fazer algo em retribuição daqueles que dão a vida pelo país, Doss decide servir em campo de batalha como médico. Ele, então, entra para academia militar e é a partir daí que a trama ganha tensão e a convicção do personagem é colocada à prova. Afinal, como ir para a guerra e, ao mesmo tempo, se recusar a tocar em um rifle?

Ao sofrer nas mãos do sargento Howell (Vince Vaughn), típico superior que faz de tudo para que o protagonista desista de suas convicções, sentimos o peso das escolhas do Doss e a atuação de Garfield cresce de maneira absurda. Sempre falando de maneira calma, quase ingênua e, ao mesmo tempo, determinado.

Quando chega a hora de ir para a derradeira batalha, Doss é perguntado se está pronto para ir ao inferno. E é isso que o cume de Hacksaw representa, na visão de Gibson. A Batalha de Okinawa, no Japão, é vista como a porta para o submundo. E o diretor faz questão de demonstrar, com uma chuva de sangue e uma fumaça que deixa todo o cenário infernal. As cores no confronto, sempre com a tonalidade acinzentada, representando um lugar sem vida, só são quebradas quando o lança-chamas dispara labaredas contra os inimigos. A representação das profundezas não poderia ser mais clara.

Durante a guerra, Gibson não deixa o seu fetiche de lado, mostrando sem pudor mutilações, sangue e violência extrema, tudo com pouco CGI e muitas entranhas. As cenas das batalhas são incrivelmente bem realizadas e todo o caos da guerra está ali. O telespectador não é poupado de nada. Neste meio tempo, vemos Doss correndo de um lado para o outro, mostrando sua coragem e vontade de fazer a diferença. E faz. Quando é preciso, o soldado mais desacreditado se torna um herói.

Garfield está completamente entregue. Sua indicação ao Oscar de Melhor Ator não é nada além do que justa. Seu lugar, definitivamente, é longe do uniforme do Homem-Aranha. Outro ator que brilha no filme é Hugo Weaving. Seu autoritário e desequilibrado personagem é cheio de camadas e, quando está em cena, ninguém consegue superá-lo.

Ao final de Até o Último Homem, vemos Doss completar a sua via-crúcis, atingindo a redenção, com direito à elevação aos céus. Pode parecer piegas, mas Gibson sabe como contar uma boa história, dosando violência extrema com fé. E, apesar de focar em uma religião, ele não incomoda aqueles que não compartilham da mesma crença (este que vos escreve, por exemplo, é ateu). A determinação de Doss é o que merece destaque. Tranquilamente, um dos melhores filmes de guerra dos anos 2000.

9/10

The following two tabs change content below.

bodenasala

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *