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Crítica | Manchester à Beira-Mar

Crítica | Manchester à Beira-Mar
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Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016)

Direção: Kenneth Lonergan

Roteiro: Kenneth Lonergan

Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle ChandlerLucas Hedges, C.J. Wilson Matthew Broderick

Por André Bozzetti

Me identifico bastante com filmes que tratam de relações familiares próximas. Neste caso, que é uma grande amizade entre tio e sobrinho isso acontece de maneira mais forte, visto que tenho tios que são como irmãos para mim. Além disso, a identificação com a situação da perda do pai e como estes laços de carinho ajudam a superar isso. Sendo assim, foi imediata a empatia com os personagens principais de Manchester à Beira-Mar, algo que sempre ajuda a aumentar o envolvimento com o filme.

Escrito e dirigido por Kenneth Lonergan, o filme conta a história de Lee (Casey Affleck), um homem solitário e apático que, em virtude da morte de seu irmão, é encarregado de se tornar o tutor do sobrinho Patrick (Lucas Hedges) que vive em Manchester. O garoto, no entanto, não quer deixar a cidade onde mora e estão seus amigos e sua vida. Lee, por outro lado, não quer retornar à cidade que abandonou anos antes em função de uma tragédia pessoal.

A montagem do filme consegue, de maneira eficiente, alternar o momento presente com as lembranças de Lee. Lembranças estas que justificam plenamente o seu comportamento passivo e distante em relação a todos que o rodeiam. Vale ressaltar aqui a direção sensível de Lonergan que apresenta Lee constantemente sozinho ou deslocado na tela, mostrando o quanto ele está emocionalmente isolado. Para reforçar esta ideia, as cores frias em suas roupas e no seu ambiente nos dias atuais contrastam com as cores mais vivas que vemos nos flashbacks.

E finalmente chegamos em Casey Affleck, que compõe seu personagem de maneira complexa e profunda. Quando o conhecemos no início do filme, Lee se mostra um sujeito completamente apático. Trabalhando como zelador (uma espécie de faz-tudo, na verdade), ele demonstra ser muito competente e não fala com os clientes mais do que o absolutamente necessário. Na verdade, sempre que alguém faz qualquer tipo de pergunta, ele demora a responder como se estivesse pensando a maneira socialmente adequada de falar, muitas vezes devolvendo um simples “ok”. Este comportamento é completamente oposto ao demonstrado em seu passado, quando era um sujeito divertido e vivia rodeado de amigos.

Um dos grandes parceiros de Lee era justamente o sobrinho Patrick, que ele tratava como um irmão mais novo. Este, por sua vez, nutria uma admiração enorme pelo tio. Admiração e amizade que permaneceram mesmo após os anos que passaram separados, como pode ser visto a partir do momento em que se reencontram e voltam a conviver de maneira mais próxima.

A grande virtude de Manchester à Beira Mar está inegavelmente na química entre os protagonistas. A parceria entre os dois apresenta momentos de mais respeito e outros nos quais se tratam de forma levemente agressiva sem que se sintam ofendidos, algo que apenas uma grande intimidade é capaz de permitir. O trabalho de Lucas Hedges como Patrick também é muito complexo e cheio de sutilezas. Ao mesmo tempo em que tenta mostrar certa indiferença em relação à morte do pai, talvez para externar uma  maturidade e independência, em alguns momentos ele deixa escapar o que realmente está sentindo, exigindo de Lee um esforço em voltar a se aproximar de verdade de alguém, algo que não fazia há anos.

Apesar do ótimo roteiro, de ser bem dirigido e ter personagens e atuações convincentes, Manchester à Beira-Mar deixa uma sensação de que algo ficou faltando. Isso porque o terceiro ato do filme acelera um pouco a resolução do arco dos dois principais personagens, parecendo um tanto abrupto e com menos sensibilidade do que tudo que vimos anteriormente. Não deixa de ser um ótimo filme, mas o fato de decair justamente no final acaba decepcionando um pouco.

Nota: 8,5/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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