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Crítica | Eu Fico Loko

Crítica | Eu Fico Loko

Crítica do filme Eu Fico Loko, que conta a história do youtuber Christian FigueiredoEu Fico Loko (2017)

Direção: Bruno Garotti

Roteiro: Bruno Garotti e Sylvio Gonçalves

Elenco: Christian Figueiredo, Alessandra Negrini, Marcello Airoldi, Giovanna Grigio, José Victor PiresIsabella Moreira, Filipe Bragança e Michel Joelsas

Por André Bozzetti

Creio ser um consenso de que a televisão como a conhecemos está prestes a ser extinta e que o futuro está no Youtube, Netflix e assemelhados. Os apresentadores, entrevistadores, comentaristas, comediantes e todos outros gêneros de profissionais da TV estão sendo substituídos na preferência popular pelos chamados youtubers. A maioria são jovens que nem sempre tem algo relevante para dizer (exatamente como os apresentadores de TV) mas que, por um ou outro motivo, acabam caindo nas graças do público e alcançam um número incrível de inscritos, seguidores e fãs, ganhando status de celebridades e arrastando multidões para onde vão, seja para lançar um livro, um show, ou este novo espaço que estão conquistando que é o cinema.

Eu Fico Loko é a biografia do youtuber Christian Figueiredo, responsável pelo canal que dá nome ao filme, e conta as desventuras de sua adolescência até finalmente alcançar o sucesso na internet. Dirigido por Bruno Garotti, que também assina o roteiro ao lado de Sylvio Gonçalves, o filme é uma adaptação do livro homônimo escrito por Christian.

Confesso que saí da sessão em dúvida sobre o que pensar a respeito do que havia assistido. Vamos combinar que beira ao ridículo fazer uma biografia de um jovem de 22 anos que, convenhamos, teve uma vida absolutamente comum. Não é um refugiado de um país em guerra, não fez nenhuma grande descoberta científica, não teve uma história de dificuldades maiores do que qualquer jovem de classe média que vemos por aí. Então por que fazer esse filme agora? Por causa do público alvo, obviamente. E aí ele acertou na mosca. Eu não conhecia  Christian Figueiredo. Nunca tinha ouvido falar nele. O primeiro contato que tive com sua figura foi justamente no início da sessão. No entanto, eu já tinha sido informado que ele possuía cerca de 10 milhões de inscritos no seu canal de YouTube e que seu público era praticamente todo na faixa dos 12 aos 15 anos. Sendo assim, se este filme fosse lançado daqui a cinco anos, possivelmente não teria 10% do público que tem agora. A hora de ganhar dinheiro é essa, e é só para isso que o filme vai servir.

Eu Fico Loko já começa de forma equivocada. Ao colocar Christian Figueiredo como narrador, o mínimo que se esperava era naturalidade ao falar de situações que ele mesmo viveu (teoricamente). No entanto, o que percebe-se é que Christian está lendo o texto como se fosse um discurso sem conexão emocional nenhuma com o que observamos na tela. E este problema se mantém durante os cerca de 90 minutos de projeção.

Infelizmente, este talvez seja o menor dos problemas. O roteiro parece tirado de uma temporada de Malhação. Não há novidade, não há surpresas, nada foge do óbvio e do clichê. Mesmo assim, teria alguma chance de funcionar em função do bom trabalho de alguns dos principais atores da trama. Filipe Bragança está convincente como Christian aos 15 anos de idade, e José Victor Pires está divertido como o amigo e parceiro de vídeos Yan. Giovanna Grigio também é eficiente como Gabriela. Mas paramos por aí. Alessandra Negrini está irreconhecível. Não pela aparência, e sim pela atuação caricatural e constrangedora no papel da mãe de Christian. Michel Joelsas também está sofrível como o personagem Mauro, em uma atuação forçada em um personagem raso e pouco convincente.

A verdade é que o filme é muito mal dirigido, o que é compreensível quando vemos que no currículo de Bruno Garotti estão pérolas como SOS Mulheres ao Mar 1 e 2, nos quais foi assistente de direção. Em Eu Fico Loko, ele mal consegue manter uma coerência narrativa. Personagens oscilam entre o realista e o caricatural sem maiores explicações. A narração de Christian Figueiredo que é predominantemente através de voice over, eventualmente muda para ele caminhando e se filmando com o celular enquanto o filme acontece às suas costas, com a clara intenção de agradar os fãs que vão gostar de ver o rosto do ídolo mais tempo na tela grande.

Eu Fico Loko é, portanto, um filme que vai agradar um público específico que dificilmente vá se incomodar com todos os problemas que ele possui como obra cinematográfica. E eu tenho certeza que os responsáveis pela sua produção sabiam muito bem disso.  É uma pena que não aproveitem o retorno financeiro garantido para investir um pouco mais em qualidade artística.

Nota: 3/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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