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Crítica | Animais Noturnos

Crítica | Animais Noturnos

animais-noturnos-filme-poster-bode-na-salaAnimais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016)

Direção: Tom Ford

Roteiro: Tom Ford

Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer e Michael Sheen

Por André Bozzetti

Ando um tanto quanto afastado da leitura de livros de ficção atuais e acabo conhecendo as histórias de vários deles a partir das suas adaptações para o cinema. Acabo percebendo quais assuntos são a “moda” do momento e quais são os públicos que estão mais na mira das editoras e, consequentemente, dos estúdios. Sendo assim, esse Animais Noturnos entra no time de Garota Exemplar e A Garota no Trem, com várias similaridades de universo e entre os personagens mas, dessa vez, escapando bastante na estética, o que fortaleceu demais o filme.

Baseado no livro Tony and Susan, de Austin Wright, roteirizado e dirigido por Tom Ford, Animais Noturnos é protagonizado por Susan (Amy Adams), proprietária de uma galeria de arte e cujo casamento está em crise. Certo dia ela recebe pelo correio o um livro escrito pelo seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), e à medida em que o lê, vai sendo afetada pela violenta história de vingança ali descrita, que também lhe traz recordações de seu passado ao lado dele.

A primeira cena do filme é uma mulher bem gorda, de idade, dançando completamente nua, em câmera lenta, em frente a um fundo de um vermelho vivo. Ela é seguida por várias outras mulheres com o mesmo biotipo. Todas dançam de forma animada em frente àquele tecido vermelho. Em seguida nos mostram que aquilo que víamos era uma obra de arte em vídeo na galeria de Susan, que passava em imensos painéis nas paredes brancas do lugar, enquanto pessoas circulavam pelo salão onde as “dançarinas” se encontravam deitadas nuas em pequenos palcos.

Essa imensidão branca da galeria contrasta com as roupas constantemente escuras da protagonista e, principalmente, com a casa dela, onde todos os móveis, eletrodomésticos, talheres e louças são pretos. Susan, quando em casa, está sempre envolta na escuridão, em um belo trabalho do diretor de fotografia Seamus McGarvey (Os Vingadores, Godzilla). Assim, Susan apresenta-se como uma pessoa triste, solitária, com um abismo emocional com seu atual marido que não faz a menor questão de mudar essa situação.

Ao receber o pacote que continha o livro de Edward, Susan sofre um corte no dedo feito pelo papel da embalagem. No entanto, este ferimento superficial não é nada comparado à profundidade que atingem as palavras contidas no romance escrito por seu ex-marido. A partir do momento em que inicia a leitura, Susan passa a fazer relações da história criada por Edward com o tempo que os dois viveram juntos, desde o início do namoro até a separação. Esta relação é muito bem apresentada pelo diretor que faz planos semelhantes das imagens que ilustram a história de Edward com os momentos em que Susan aparece lendo.

Estas belas montagens e planos que ligam a realidade, a imaginação e as lembranças de Susan, são complementados pela bela atuação de Amy Adams. No presente, um olhar constantemente triste e melancólico, mesmo quando sorri. Nas lembranças do início do relacionamento com Edward, a expressão de esperança, o brilho no olhar. No entanto, o destaque maior vai realmente para Jake Gyllenhaal, que me arrisco a dizer, é um dos melhores atores de sua geração. Ele faz novamente um trabalho excelente, ao desempenhar dois papéis. Além de interpretar Edward, Gyllenhaal interpreta na mente de Susan o personagem principal do livro enviado por ele, Tony Hastings. Gyllenhaal se sai bem nos dois papéis, dando veracidade às transformações que ocorrem com ambos no decorrer da história.

Me parece que o ponto fraco do filme é o desenrolar do livro de Edward. O que é uma pena visto que começa muito bem e constrói uma tensão incrível em seus primeiros momentos. Tensão esta que dividimos com a personagem de Amy Adams que se mostra visivelmente abalada pela história. No entanto, em um filme com excelentes metáforas e simbolismos, a conclusão óbvia, simples, e cheia de clichês da trama do livro acaba não se encaixando muito bem. Talvez seja proposital, para mostrar que Edward realmente não tinha o talento que gostaria, até porque a relação do final da história com a vida real, novamente funciona bem. Animais Noturnos é um bom filme, mas deixa aquela sensação de que podia ter surpreendido um pouquinho mais.

Nota: 8/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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