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Crítica | Capitão Fantástico

Crítica | Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico (Captain Fanstastic, 2016)

Direção: Matt Ross

Roteiro: Matt Ross

Elenco:  Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Kathryn Hahn, Trin Miller, Steve Zahn, Elijah Stevenson, Teddy Van Ee, Erin Moriarty, Missi Pyle, Frank Langella, Ann Dowd 

Por André Bozzetti

No que se refere ao cinema, nada pode tornar a experiência mais plena do que se sentir absorvido pela história, como se estivesse realmente passando pelas mesmas situações que os personagens, sofrendo junto com eles suas angústias e também experimentando suas alegrias. E Capitão Fantástico proporciona isso logo no início do filme, quando apresenta seus apaixonantes protagonistas, fazendo com que imediatamente se deseje conhecer mais sobre eles e ajudar de alguma forma na missão inesperada na qual eles acabam envolvidos. E mais do que isso, gera uma porção de reflexões filosóficas e ideológicas que seguem na nossa mente por muito tempo após o término da sessão.

Escrito e dirigido por Matt Ross, Capitão Fantástico conta a história de Ben Cash (Viggo Mortensen), um homem que, junto da esposa Leslie (Trin Miller), criou os seis filhos em meio à natureza, nas montanhas do noroeste dos Estados Unidos, afastados da sociedade consumista norte-americana. Lá, as crianças passam por um treinamento físico pesado que envolve escaladas, caça, corridas e os mais variados exercícios e técnicas de sobrevivência. Também recebem educação em casa em um nível intelectual acima do normal para crianças de sua idade, tendo acesso aos mais importantes clássicos da literatura, aprendem diversos idiomas, estudam e desenvolvem ideais socialistas. No entanto, em função de uma tragédia, são obrigados a sair de seu paraíso particular e enfrentar o mundo exterior, algo para o que eles nunca foram bem preparados.

A impressão que dá é que tudo no filme funciona perfeitamente. Está tudo encaixado. A trilha sonora, por exemplo, jamais se sobressai à história. Ela simplesmente embala todos os momentos de forma suave e natural. Exceto quando a música é tocada e/ou cantada por seus personagens, situações nas quais elas ganham imenso significado. Uma delas, mais especificamente, é para mim o momento mais belo, significativo e tocante do cinema nos últimos anos. Se você já assistiu o filme, sabe exatamente de que cena estou falando.

Em um grande mérito da fotografia de Stéphane Fontaine (do também maravilhoso Elle) e da equipe de direção de arte, a família Cash sempre parece fazer parte daquele pequeno paraíso onde vivem. Quando em uma caçada, todos camuflados e quase imperceptíveis em meio às sombras da floresta. Já em outro momento, de confraternização durante o dia, os cabelos ruivos e brilhantes das irmãs Kielyr (Samantha Isler) e Vespyr (Annalise Basso) contrasta com o verde vivo do espaço à sua volta com a força de um sol. Enquanto isso, os outros parecem absorvidos pelo verde, como se todos eles compusessem a natureza do local. A naturalidade com que todos realizam as ações do dia-a-dia como caçar, plantar, ler, se exercitar, sentar em volta da fogueira e tudo mais que eles vivenciam torna ainda mais real e encantador aquilo que vemos na tela.

No entanto, ao saírem daquele ambiente que eles dominam completamente, as crianças se deparam com um choque de realidades. Se em meio à natureza eles pareciam compor o cenário da história, ao pegarem a estrada e entrarem na sociedade, eles ficam completamente deslocados, o que fica óbvio tanto pelo seu comportamento quanto pelo visual completamente diferenciado das pessoas com as quais interagem e os locais aos quais visitam. Por exemplo, durante um jantar na casa da irmã de Ben, o tratamento dela com os filhos se mostra radicalmente oposto ao dele. Jovens criados dentro de casa, viciados em TV, celular e videogame, e que não podem escutar a verdade sobre um evento doloroso, que acaba sendo ocultado pelos pais. Do outro lado, Ben fala sempre a verdade para os filhos, independente do assunto, e assim todas as crianças agem com naturalidade sobre coisas que são exatamente isso: naturais. E essa fala franca surpreende e choca a irmã e sua família, que costuma esconder dos seus filhos coisas que eles teoricamente não compreenderiam.

As situações vividas pela família fluem com beleza e graciosidade. É impossível não se encantar por eles. Muito em função das excelentes atuações de todos. Mortensen está intenso como sempre. Um trabalho maravilhoso em um personagem que, como diz o título, é fantástico. Annalise Basso, que já havia se destacado positivamente no fraco Ouija – A Origem do Mal, volta a mostrar talento com sua brava e impetuosa Vespyr. Se a animação Valente, da Pixar, saísse em uma versão live action, ela seria a escolha ideal. George MacKay também chama atenção com seu Bonovan, o primogênito que, ao mesmo tempo que é incrivelmente culto, atlético e corajoso, se torna uma criança indefesa ao tentar estabelecer contato com as garotas de sua idade. Nicholas Hamilton está ótimo como Rellian. Tem algo nele que lembra River Phoenix em Conta Comigo. Samantha Isler, um pouco mais apagada que os outros durante boa parte da história, tem uma boa cena e uma participação fantástica na melhor cena do filme. Shree Crooks dá um show como a pequena Zaja, proporcionando diversos momentos marcantes. O elenco de crianças é completado por Charlie Shotwell, que é o mais “apagado” dos personagens. Vale ressaltar também a atuação de Frank Langella que, durante quase todo o tempo parece ser um vilão unidimensional, mas com o passar do tempo se mostra um personagem bem mais completo e complexo.

Capitão Fantástico nos leva a rir, chorar e refletir. Refletir sobre nosso estilo de vida, nossas prioridades, sobre o que é natural ou é culturalmente imposto. E mais, qual a lógica por trás de alguns comportamentos considerados normais. No entanto, também não é um panfleto do socialismo libertário de Chomsky (que é citado em um dos grandes momentos do filme). Ele mostra defeitos e qualidades das realidades apresentadas e mostra como é possível encontrar um meio-termo, unindo o melhor de dois mundos. Um grande filme, com uma mensagem final de lavar a alma. Que bom que ele chegou em dezembro, pois é perfeito para exorcizar o ano de 2016.

Nota: 10/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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