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Crítica de Elle, novo filme de Paul VerhoevenElle (2016)

Direção: Paul Verhoeven 

Roteiro: David Birke

Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Magre, Christian Berkel

Por André Bozzetti

Caro leitor, preciso começar o texto com um aviso. Caso esteja lendo esta crítica antes de assistir ao filme, por favor, não imagine que nestas palavras consegui transmitir tudo o que Elle me fez sentir nos seus 131 min de projeção. Eu realmente precisava ter feito anotações como faço normalmente, mas dessa vez esqueci o bloquinho. Triste. Vou ter que contar apenas com a memória e as sensações que ficaram impregnadas ainda por horas após a sessão.

Escrito por David Birke (Os 13 Pecados), baseado no livro Oh, de Philippe Djian, e dirigido pelo eclético e surpreendente Paul Verhoeven (Robocop, Instinto Selvagem) , Elle nos apresenta Michèle Leblanc, vivida por Isabelle Huppert, uma bem sucedida empresária do ramo dos jogos de videogame, que após ser violentada por um estranho invasor dentro de sua própria casa, tenta seguir sua vida normalmente. No entanto, volta a ser perseguida e ameaçada por ele, sem que saiba a identidade e o motivo do agressor.

A sequência inicial do filme é um cartão de visitas muito claro. Ele mostra que não vamos lidar com situações e personagens convencionais. Afinal de contas, começamos escutando os gritos de Michèle e os gemidos e urros do homem que a ataca em uma cena violenta de estupro. No entanto, quando o agressor vai embora, ela apenas se recompõe e, ainda com sangue escorrendo entre suas pernas, preocupa-se em varrer os cacos da louça que caiu no chão durante o ataque e jogar no lixo, para só depois ir tomar um banho que mais parece um momento de relaxamento após um dia de trabalho do que a recuperação do ato tão violento que ela sofrera há pouco. Essa sequência de eventos parece totalmente surreal e inexplicável e obviamente atiça a curiosidade: como pode uma mulher reagir assim ao que ela passou? É então que começamos a conhecer Michèle e seu passado, e Isabelle Huppert inicia o seu show.

Pouco depois de ser atacada, Michèle já está na empresa que fundou e dirige junto com sua amiga Anna (Anne Consigny, de O Escafandro e a Borboleta). Lá, as duas mulheres comandam um grupo de dezenas de jovens, todos (ou quase todos) do sexo masculino, alguns claramente contrariados de seguir as ordens daquelas mulheres. E ali a protagonista mostra de novo uma força admirável, ao enfrentar sem nenhum receio os questionamentos de funcionários insatisfeitos. Ela não se preocupa em fazer ameaças, ou colocar o emprego deles em cheque. Simplesmente tem consciência da sua força ali e não se abala de maneira nenhuma com os comentários maldosos ou brincadeiras de mal gosto que fazem contra ela.

Começo a perceber que vou entrar no terceiro parágrafo seguido apenas descrevendo a personalidade da protagonista, e isso não é por acaso. É uma personagem extremamente complexa da qual nunca sabemos exatamente o que esperar. E é fantástico ver um papel com esta força e relevância toda ser dado a uma atriz de mais de 60 anos, interpretando uma personagem na casa dos 50. Uma liçãozinha para Hollywood que manda para a geladeira tantas de suas atrizes quando passam a aparentar a casa dos 40 anos. E quando falei do show de Isabelle Huppert, não foi nenhum exagero. Com uma atuação minimalista, ela utiliza o sarcasmo e a ironia constantemente, e suas intenções e emoções são sempre demonstradas de maneira discreta, através de gestos sutis e rápidos e quase imperceptíveis sorrisos apenas no canto da boca.

Apesar de Michèle conduzir a trama de maneira magistral, vários personagens que a circundam são tão complexos quanto ela.  Alguns inclusive com pequenas participações,  mas que surpreendem na forma como se mostram relevantes para a história ou conseguem, em tão pouco tempo, exibir traços bizarros de sua personalidade, como é o caso da vizinha Rebecca (Virginie Efira, de Romance à Francesa).

Mas Elle não é apenas sobre uma ótima personagem. Ele possui um suspense de altíssimo nível e o mais honesto possível, pois oferece suspeitos reais e permite que o público possa adivinhar quem é o agressor a partir de pistas  que vão sendo dadas, tanto pelas situações geradas quanto pela competentíssima direção de arte através das cores no cenário e figurinos. Além do mais, todos os suspeitos possuem um biotipo semelhante. Pelo menos três ou quatro homens altos e fortes como o agressor mostram motivos para os ataques em algum momento do filme.

Este será o candidato francês ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Um filme impactante e corajoso por se arriscar a ter interpretações bem controversas sobre a abordagem dada ao estupro que é apresentado na tela. Felizmente para eles, Huppert e Verhoeven conseguem, desde o início do filme, deixar bem clara a singularidade daquela mulher, que só se torna mais fantástica e surpreendente a cada nova situação que a vemos enfrentar.

Nota: 10/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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