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Crítica | Pequeno Segredo

Crítica | Pequeno Segredo

Crítica de Pequeno SegredoPequeno Segredo (2016)

Direção: David Schürmann

Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino, David Schürmann

Elenco: Júlia Lemmertz, Marcello Antony, Maria FlorErroll Shand, Maria FlorFionnula FlanaganMariana Goulart

Por André Bozzetti

Algumas vezes acontece de eu ir ao cinema sem grandes expectativas sobre o filme que irei assistir e acabar me surpreendendo positivamente.  No caso de Pequeno Segredo, mais do que uma baixa expectativa, confesso que eu estava com certa má vontade. A maneira como se deu a sua escolha para representar o Brasil no Oscar 2017 foi emblemática em relação ao governo ilegítimo que assumiu o país e a maneira como a cultura está sendo tratada desde então. Afinal, como justificar a escolha por um filme que sequer cumpria as regras para indicação quando tínhamos Aquarius fazendo sucesso e sendo falado em festivais do mundo todo? Foi necessário esquecer tudo isso para poder imergir na bela história que seria contada nos 108 min seguintes.

Pequeno Segredo  é baseado na história real da adoção da menina Kat pela Família Schurmann e os eventos que a antecederam. Uma história linda e comovente, que infelizmente produz um filme muito abaixo do seu potencial por uma sucessão de opções equivocadas por parte de seus realizadores.

O maior defeito do filme é sem dúvida estrutural. Nos são apresentadas três histórias separadas cuja conexão será revelada posteriormente. O problema é que duas delas não justificam tanto tempo dedicado a exibi-las e, pior que isso, elas parecem não se encaixar à história principal durante cerca de dois terços da projeção. Não sei se foi proposital para tentar tratar como segredo algo que consta até na sinopse do filme, mas quase nada indicava que as histórias se passavam com mais de uma década de  diferença entre elas. Se a conexão entre elas nunca fosse mostrada, poderíamos tranquilamente interpretar que eram eventos simultâneos. Se foi proposital, foi uma péssima opção. No entanto, me parece mais uma falta de cuidado ou preocupação da direção de arte em diferenciar a década de 90 do início dos anos 2000. E é uma pena esse descuido porque, fora isso, a direção de arte se saiu muito bem. Um bom exemplo é o quarto de Kat, todo com cores e enfeites que lembravam o mar, justamente o lugar em que ela passava a maior parte e os melhores momentos de sua vida. Outro belo momento tem a ver com o jardim com flores tão bem cuidadas por Barbara (Fionnula Flanagan)  que em certo momento expressa em suas cores o que a personagem está sentindo.

Já que citei Fionnula Flanagan, vale comentar que sua atuação é ótima como de costume. Mesmo que em boa parte do filme a tratem como uma personagem unidimensional, ela dá força aos poucos momentos em que nos permitem ver um pouco mais de sua humanidade. Já Errol Shand nos traz um Robert com ótimos momentos e outros que confesso terem me deixado constrangido. Se os momentos em que ele dividiu a tela com a bela  e convincente Jeanne (Maria Flor) possuem uma ótima química, fazendo com que o casal funcione bem na tela, os momentos em que ele age como um adolescente birrento que fugiu de casa são irritantes e meio ridículos para um homem daquela idade. O comportamento dele é uma parte da história que não ficou muito clara e que parece até meio inexplicável. E esta parte da história é justamente o que justificaria uma decisão importante tomada por Robert, que talvez esteja mais clara no livro, mas que no filme ficou parecendo mais com uma birra do que uma decisão realmente racional.

Marcello Antony faz praticamente uma ponta no filme no papel de Vilfredo Schurmann, pois a história (quando no universo da família de velejadores) fica praticamente toda em torno de Kat (Mariana Goulart) e Heloísa (Júlia Lemmertz). O ponto positivo fica pelos belos e comoventes momentos em família. De resto, Júlia Lemmertz é apenas eficiente, sem conferir nada a mais do que o esperado de sua personagem. Já a menina Mariana Goulart tem uma atuação irregular que suspeito ser um problema maior da direção do que dela mesma. Isso porque em alguns momentos ela demonstra um controle absoluto de sua personagem, uma naturalidade enorme nas situações vividas por ela, enquanto em outros soa incrivelmente artificial. Como por exemplo quando ela fala sobre sua dificuldade para  caminhar que poucas vezes pode ser realmente percebida.

Pequeno Segredo está longe de ser um filme ruim. No entanto, apesar de uma premissa interessante, acabou se tornando um drama simples e pouco impactante. Citei na minha crítica de A Luz Entre Oceanos que, apesar de não haver nada surpreendente na história, a forma como ela foi contada compensou isso plenamente. Dessa vez ocorreu exatamente o contrário. O filme tratou como “segredo” algo que qualquer pessoa que assitia TV cerca de 10 anos atrás já sabia. Ou ainda, qualquer um que tivesse assistido o trailer. E mesmo assim, baseou sua narrativa na revelação deste “segredo”, fazendo com que o filme tomasse um rumo equivocado desde o seu início, dificultando demais um acerto no resultado final, o que definitivamente não aconteceu.

Nota: 7/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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