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Crítica | A Luz Entre Oceanos

Crítica | A Luz Entre Oceanos

a-luz-entre-oceanos-poster-bode-na-salaA Luz Entre Oceanos (The Light Between Oceans, 2016)

Direção: Derek Cianfrance

Roteiro: Derek Cianfrance, M.L. Stedman (livro)

Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel WeiszFlorence Clery, Thomas Unger Jack Thompson

Por André Bozzetti

Se Godard estava certo ao dizer que “o cinema é a verdade em 24 quadros por segundo”, acho que posso afirmar que em A Luz Entre Oceanos a verdade é o amor. Amor puro em 24 quadros por segundo. O amor é o herói e o vilão em uma história na qual é impossível apontar culpados, apesar de todo sofrimento que nos é apresentado desde a primeira cena do filme.

A trama gira em torno de Tom (Michael Fassbender), um ex-combatente da primeira guerra mundial, e sua esposa Isabel (Alicia Vikander), que vivem sozinhos em uma pequena e isolada ilha na costa australiana onde Tom trabalha como faroleiro. Um dia chega na ilha um pequeno barco a remo, com um homem morto e um bebê de dois meses de idade,  que o casal decide criar como se fosse filha deles.

O roteiro de Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina, Namorados para Sempre, e que também dirige o filme)  é uma adaptação do livro de M.L. Stedman. É incrível como uma história onde todos os momentos mais importantes são facilmente antecipados pelo espectador consegue, ainda assim, provocar um impacto emocional tão forte quando se confirmam. E isso não é por acaso.

A direção de arte é fantástica. Toda caracterização de vestimentas, acessórios, as locações e tudo mais nos remetem imediatamente ao início do século passado. O filme começa em 1918 e tem os seus momentos mais importantes no início da década de 1920. Aquele mundo pós-guerra, cheio de sofrimento, saudade dos familiares mortos e traumas do que viveram nos anos anteriores é retratado em uma paleta de cores dessaturadas.  São dias de céu cinza, em que até o verde das encantadoras ilhas e o próprio mar paradisíaco não conseguem mostrar sua beleza. Tudo parece morto.

A direção de Cianfrance é absolutamente correta. Sem grandes invenções, consegue extrair de Michael Fassbender (Shame, Macbeth) e Alicia Vikander (Ex-Machina, A Garota Dinamarquesa)  tudo que o filme precisa. E o trabalho dos dois atores é fantástico.

Fassbender, em sua primeira aparição, nos mostra toda a dor de seu personagem sem que saibamos nada de específico sobre o seu passado, apenas que ele sobreviveu ao front de batalha na França e que não tem família. O resto só podemos imaginar quando vemos seu olhar perdido, como alguém que ainda está enxergando todos os horrores que viveu. E Alicia Vikander está explêndida como na primeira vez que a vi, em  Till det som är vackert (2009), chamado nos EUA de Pure.  Como em Pure, ela mostra seu incrível talento em transformar radicalmente uma personagem durante a história. Nós conhecemos Isabel como uma jovem simples e apaixonada, que se torna uma esposa amorosa e, ao passar por algumas situações traumáticas, vai se tornando uma mulher extremamente  amargurada. Ironicamente, tudo causado pelo amor.

A fotografia do filme ajuda muito a perceber esta mudança. No primeiro encontro a sós entre o casal, Tom ainda é um homem triste e atormentado e Isabel tenta alegrá-lo. Os olhos de Tom estão completamente escuros e sem vida, enquanto os de Isabel cintilam. No dia em que Tom recebe uma carta apaixonada de Isabel, é o primeiro momento no filme onde enxergamos cores vivas. A grama verde. O céu azul. A luz do sol. Vida. É um reflexo da mudança no personagem de Fassbender.  E Cianfrance é muito eficiente ao mostrar todo o amor que cresce naturalmente entre eles, demonstrado em companheirismo, carinho, pequenos gestos de cuidado e preocupação um com o outro. É fácil se apaixonar por aquele casal e se alegrar com toda felicidade que eles vivenciam.

Terminado o primeiro ato do filme em cores vivas e quentes, inicia-se o segundo com uma tempestade que é um prenúncio dos sofrimentos que viriam a seguir. A partir daí, a transformação de Vikander é tocante. Nós quase podemos ver  seu coração se partindo. Sua alma se despedaçando em frente aos nossos olhos. Confesso que em alguns momentos, meus olhos se encheram de lágrimas junto com os dela. É por isso que a expressão de Isabel ao encontrar aquele bebê chegando em um barco deixa muito claro, antes de qualquer conversa, de que ela jamais a deixaria ir embora. Ela estava viva de novo. E nesse momento, precisamos falar sobre a pequena Florence Clery, que interpreta Lucy (a bebê que chegou no barco) aos cinco anos de idade. Ela é inacreditável. A dor e o amor que ela demonstra, sua expressão corporal, a clareza no texto, tudo. É um verdadeiro show.

Isso é o mais lindo nesse filme. Os erros, os crimes cometidos, são atitudes essencialmente humanas  que passam longe da maldade e que,  no entanto, obviamente terão consequências. Tal qual o deus romano Janus que dá nome à ilha, deus de duas faces, símbolo da dualidade, aqui o amor mostra toda alegria e dor que pode provocar a quem se permite sentir e agir em função dele.

Nota: 9/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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