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Crítica | O Contador

Crítica | O Contador

o-contador-filme-poster-bode-na-salaO Contador (The Accountant, 2016)

Direção: Gavin O’Connor

Roteiro: Bill Dubuque

Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal, John Lithgow e Jeffrey Tambor

Por Carlos Redel

Aparentemente, Christian Wolff (Ben Affleck) é um contador comum, que tem uma pequena empresa e atende pessoas simples. Ele também é um autista com síndrome de Asperger, que dificulta sua capacidade de se relacionar com as pessoas, mas também lhe dá uma capacidade incrível de raciocinar e de lidar com números. Dotado destas habilidades, ele acaba tendo uma vida dupla, em que trabalha para os mais perigosos nomes do mundo e, mesmo assim, acaba sendo um mistério para todos, vivendo como uma sombra que nunca é descoberta.

Quando o contador é indicado para analisar as finanças em uma empresa de robótica, ele descobre desvios e, por isso, os seus próprios empregadores querem a cabeça de Wolff. Enquanto isso, um agente do Tesouro (J.K. Simmons) também está no encalço o personagem de Affleck. E além disso tudo que já foi citado, o personagem principal ainda tem tempo para se aproximar de uma garota (e também salvá-la).

Mas como Wolff sobrevive no meio de tantas adversidades e perigos? Bem, isso se deve ao treinamento dado pelo seu pai, um militar que não aceitou que seu filho fosse tratado em uma clínica especializada em casos de autismo. Assim, vemos, através de flashbacks, que o menino cresceu sendo forçado a lutar e a vencer os seus problemas através de violência.

Sim, são muitas subtramas. Se acaba ficando tudo meio confuso? Um pouco, mas não deixa de ser interessante. O roteiro de Bill Dubuque, escolhido como uma das melhores histórias não produzidas em 2011, consegue ser satisfatório, mesmo que algumas pontas fiquem soltas, alguns personagens sejam mal aproveitados e uma importante reviravolta não tenha o impacto que se espera.

Com a direção eficiente do promissor Gavin O’Connor (dos bons Guerreiro e Força Policial), o filme consegue surpreender, entregando boas cenas de lutas e um cuidado especial em temas como finanças, política e até autismo, que é algo pouco convencional para um filme de ação. O que estraga o bom andamento da trama é a montagem, com flashbacks, muitas vezes desnecessários e exagerados.

Uma comparação com Rain Man, o clássico oitentista estrelado por Dustin Hoffman e Tom Cruise, é inevitável. Afinal, os dois personagens principais sofrem com um tipo de autismo e, ao mesmo tempo, usufruem de habilidades especiais. O upgrade de O Contador é que, além de ser excelente em números, o personagem consegue ser um exército de um homem só. Mas, claro, sem ofender as pessoas que sofrem deste distúrbio neurológico.

Obviamente, não poderia deixar de citar a atuação de Affleck. O ator está na medida certa. Seu olhar que desvia dos de outros personagens, a complexidade de se relacionar com outras pessoas, a dificuldade que ele passa quando não consegue terminar uma tarefa e a calma que fica em situações adversas formam um personagem complexo. A forma como ele se conecta com o mundo é o diferencial no filme, com certeza. Isso mostra que, pelo menos, o ator fez bem a lição de casa. Nunca parece exagerado.

Outro que merece destaque é J.K. Simmons. O seu personagem, Ray King, não começa o filme com destaque, mas, ao decorrer da projeção, vai crescendo e, quase no final, rouba a cena. Seu flashback de quase 10 minutos, contando como chegou até aquele momento específico, é sensacional. Ele toma o longa para si naquela hora e nós só queremos saber como as histórias vão se conectar. Mais uma vez, Simmons mostra que apenas um Oscar é pouco para ele.

Jon Bernthal está muito bem em cena, também. Seu personagem, no início, fica meio desconexo da trama. Ele ganha espaço, principalmente mais próximo ao desfecho. No entanto,  não é o suficiente.  Anna Kendrick, além de interesse romântico, tenta ser o alívio cômico, missões que não são bem-sucedidas. John Lithgow e Jeffrey Tambor fazem boas participações, mas não ganham tanta importância quanto deveriam. Entre os coadjuvantes, é Cynthia Addai-Robinson quem melhor consegue se destacar, ao lado de Simmons.

No final das contas, temos um bom filme. Não serve para ser memorável, mas está muito longe de ser ruim. Provavelmente, a Warner Bros. pretende fazer de O Contador uma franquia. Tomara que, nos próximos capítulos, os realizadores tentem deixar as coisas mais enxutas e usem o mesmo foco que Christian Wolff tem com os números para realizarem uma trama mais centrada.

Nota: 7/10

Em breve, lançaremos o vídeo em que falamos sobre o filme. Se inscreva no canal e veja em primeira mão: bit.ly/canalbodenasala

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