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Crítica | A Garota no Trem

Crítica | A Garota no Trem

a-garota-no-trem-poster-filme-bode-na-salaA Garota no Trem (The Girl on the Train, 2016)

Direção: Tate Taylor

Roteiro: Erin Cressida Wilson, Paula Hawkins (livro)

Elenco: Emily BluntHaley Bennett, Rebecca FergusonJustin TherouxLuke Evans, Edgar RamírezLaura PreponAllison JanneyDarren Goldstein e Lisa Kudrow

Por André Bozzetti

Adaptações de best sellers são sempre uma faca de dois gumes. Por um lado, a compensação financeira é praticamente garantida. Os fãs da história vão garantir uma boa bilheteria e aqueles que estavam com preguiça de ler podem se interessar em conferir apenas a versão do cinema mesmo. O lado ruim está nas inevitáveis comparações com o livro, que serão preponderantemente favoráveis à mídia original. O comentário: “o livro é muito melhor” será escutado após cada sessão. É, no entanto, um comentário sem muito sentido. O filme precisa se sustentar independentemente do livro e, ao mesmo tempo, não tem obrigação nenhuma de ser perfeitamente fiel à história original.

Não sei dizer se o roteiro de Erin Cressida Wilson para A Garota no Trem é uma adaptação fiel do best seller de Paula Hawkins, visto que não li o livro, mas posso dizer que resultou em um filme muito funcional. A trama começa nos apresentando Rachel (Emily Blunt), uma mulher psicologicamente abalada pelo recente divórcio, e que fantasiava a respeito da suposta “vida perfeita” de um casal que ela enxergava diariamente através da janela do trem. No entanto, esta fantasia transforma-se em obsessão, principalmente quando a garota que ela observava desaparece misteriosamente.

O suspense é bem construído utilizando-se de uma narrativa não linear. Algumas vezes retrocedemos alguns meses para depois voltar ao presente, outras vezes retrocedemos algumas semanas ou dias, e assim vai se construindo o quebra-cabeças que explica o comportamento dos personagens nos quais a história se foca. Inicialmente, enxergamos a perspectiva de Rachel para, a seguir, conhecermos Anna (Rebecca Ferguson), a atual esposa do ex-marido de Rachel e Megan (Haley Bennet), o objeto da obsessão da protagonista. Estas viagens no tempo e saltos entre as visões de cada uma das três mulheres dão um bom dinamismo ao filme. A montagem, auxiliada pelas eficazes músicas de Danny Elfman, não deixa que o filme se torne desinteressante ou cansativo em nenhum momento.

A direção de Tate Taylor nos induz a um maior envolvimento emocional com a trama através de planos constantemente fechados em suas personagens. A paleta de cores frias e as boas atuações de Emily Blunt e Haley Bennet, principalmente, trazem uma sensação de tristeza e pesar que é eficiente para nos fazer torcer e sofrer tanto por Rachel quanto por Megan. Blunt compõe Rachel como uma mulher amargurada, obsessiva, com um olhar sempre triste e muitas vezes afastada da realidade, e que sofre de apagões frequentes resultados da bebida em excesso. Já Bennet, em um trabalho mais complexo, faz de Megan uma garota que quase todo o tempo esconde seus reais sentimentos, principalmente do marido abusivo Scott (Luke Evans). Evans, diga-se de passagem, se sai muito bem ao mostrar as súbitas mudanças de humor de Scott, nas quais ele se transforma de um homem gentil e educado em outro claramente violento. Tom (ex-marido de Rachel) e Anna (a atual esposa dele) são interpretados por Justin Theroux e Rebecca Ferguson, respectivamente, e não estão no mesmo nível dos demais. O mesmo pode ser dito de Edgar Ramírez, que vive o psiquiatra Kamal Abdic e abusa dos trejeitos clichê em suas sessões com Megan.

Além da atuação artificial, o Dr. Kamal Abdic se apresenta como um dos problemas do roteiro. Ele surge sem maiores explicações, tem algumas atitudes totalmente desnecessárias (como na hora em que é questionado sobre sua origem) e some da história tão rapidamente como entrou. Mas o maior problema mesmo é a conveniência dos apagões de Rachel. Tudo bem, ela é alcoólatra, os apagões acontecem quando ela está bêbada, mas a forma como eles são tratados tal qual um comportamento exato e previsível soa um tanto quanto falsa. Para piorar, os momentos em que ela relembra o que aconteceu durante estes apagões surge como um verdadeiro “Deus Ex Machina”, pois não possuem nenhuma lógica.

Mesmo com estes problemas, A Garota no Trem se mostra eficiente dentro do que se propõe. Além do bom suspense e clima de mistério, se torna relevante ao apresentar e denunciar práticas de relacionamentos abusivos, tanto físicos quanto emocionais. Certamente, pode servir para discutir violência doméstica, gaslighting, e outras formas de abuso e suas consequências. E ainda é um bom filme para se assistir em uma despretensiosa tarde de chuva.

Nota: 7,5/10

Em breve, lançaremos o vídeo em que falamos sobre o filme. Se inscreva no canal e veja em primeira mão: bit.ly/canalbodenasala

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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